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e-book por ADRIANO DE ALMEIDA GOMINHO
[ex-administrador do Concelho de Aileu-Timor]
[VOLUME I]
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LIVRO DIGITAL
[1963-1968]
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Título: TIMOR - PARAÍSO DO ORIENTE
(Memórias de um malaio - estranho)
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[O último administrador de Portugal no Concelho de Aileu-Timor]
MEU TESTEMUNHO PARA A HISTÓRIA
LIVRO DIGITAL - e-book
[www.beirosdetimor.com.sapo.pt]
[VOLUME I]
1963-1968
Dedicatória: aos meus filhos: Adriano Rui, Paulo Jorge e Luís Manuel Gominho,
dois nascidos em Timor, e à minha mulher companheira, Maria Teresa Gominho, natural de Lisboa, e, que com apenas 19 anos, foi para Timor (numa altura em que as mulheres ainda não faziam tropa) para me acompanhar nas
aventuras militares e civis, de 1963 a 1975.
Aos bravos soldados e companheiros da C.CAÇ.456, que foram defender um Portugal , então, "do Minho a Timor", o
meu sincero bem-haja,
o autor:
Escrito em 1992, republicado na Net em Março de
2006
CAPÍTULO I
Singapura 1963
Pedaços de juncos, cascas de cocos, canas de bambus, caniços vários, objectos e lixos flutuantes iam ficando para trás, deixados na esteira do paquete Timor sulcando as calmas e esverdeadas águas do oceano Índico, exibindo o seu casco brilhante pintado de fresco, rumo ao porto de Singapura, no longínquo estreito de Malaca, nos confins da Ásia. Era o termo de uma viagem que já durara dois longos e infindos meses, por entre o mar e o céu - uma verdadeira aventura, para um rapaz com pouco mais de vinte anos de idade - a caminho do ignoto Timor, em missão de soberania, juntamente com os outros soldados da Companhia (a que chamávamos de C.CAÇ nº 456). Vim à proa e sentei-me sobre um bidon vazio e daí fiquei a contemplar a imensidão daquele ignoto oceano, olhando, em vão, sem saber para onde. Sobre o castelo da proa do barco, ao meu lado, descansava a pesada âncora do barco, coberta de ferrugem e atada ao convés com uma grossa corda de cânhamo, exalando um forte odor a alcatrão fresco. Pelas frestas do lugar da âncora, escorria um fio de água amarelada pela ferrugem de bordo, que tombava para o mar, esvaíndo-se, de seguida, na aragem fresca daquela manhã luminosa na quietude original da calmaria desse memorável dia, já passado, depois de tanto mar.
-Terra à vista!
-Gritara o soldado do meu pelotão - o Bolinhas a conversar com dois marinheiros, que, meticulosamente, enrolavam algumas cordas em rolos perfeitos, espalhados sobre as tábuas do deck, ainda molhadas pelo cacimbo da noite. Via-se um céu azulado e um oceano de azeite à nossa frente.
- Terra à vista! Primeiro algumas manchas verdes, recortadas sobre um fundo escuro pintalgado de miríades de verdejantes ilhas, ilhéus e ilhotas. Depois, as praias, os vapores fundeados na baía de Singapura e o negro fumo saindo dos altos canudos, misturado com o branco vapor jorrando ruídosamente das fervilhantes caldeiras das casas das máquinas. No ar, aquele cheiro forte e acre a enxofre - mistura de óleos, naftas e petróleo, deixando manchas coloridas nas mansas águas da baía. Do paquete Timor caiu a pesada âncora desfazendo o arco-íris que observara momentos antes. O barco não teve autorização para atracar e ficou fundeado ao largo (por levar tropa a bordo). A escala era apenas técnica e para reabastecimento de combustíveis e víveres inexistentes no porto de Díli, necessários para a longa viagem de regresso a Lisboa, pelo Cabo da Boa Esperança ou das Tormentas. Os soldados, debruçados sobre a amurada, observavam de olhos esbugalhados a encantadora cidade de Singapura com o casario bem alinhado, edifícios altos, muitos espaços verdes e refrescantes. Via-se o movimento das coloridas viaturas pelas largas avenidas, marginadas de frondosas acácias e muros salpicados de buganvilias floridas de encarnado, enfim, um regalo para nós, após várias semanas de mar, sem uma nesga de terra firme em frente à nossa vista. Terra....
Não houve autorização para desembarcar. O barco transportava tropas para Timor e o Governo de Singapura, não querendo comprometer-se com a Indonésia, não consentiu que o fizéssemos. Decorria o ano de 1963. A guerra na Guiné, Angola e Moçambique era uma dura realidade.
***
Os juncos e as barcaças sulcavam a baía, à vela ou com os seus ruídosos motores de popa (motores de automóveis adaptatados como tal). As embarcações eram, afinal, as habitações permanentes dos mercadores malaios da baía de Singapura. Como abelhas à volta dos cortiços, aproximavam--se do paquete Timor, para aí darem início aos negócios, montando verdadeiros bazares no convés do barco, para o regalo dos poucos passageiros civis e da muita tropa que seguia a bordo. Da amurada, observava o movimento dos mercadores nas suas embarcações, oscilando ao sabor das lentas ondas provocadas pela passagem de outros juncos. Os seus moradores equilibravam-se sobre as mais variadas mercadorias, espalhadas pelo exíguo espaço dos juncos. À proa, algumas crianças malaias, de troncos nus, brincavam despreocupadamente, enquanto as jovens mães lavavam, conversavam, estendiam roupas e cozinhavam nas altas popas dos juncos. A um canto, bem abrigado do vento, via-se uma panela pousada sobre um fogareiro a carvão, fervendo e lançando vapores para o ar morno e calmo daquela manhã. Era a hora do almoço. Alguns cestos com couves roxas, rebentos de bambus, raízes amareladas de soja e abóboras japonesas estavam ao lado das caixas de cartão pardo contendo gravadores de som, rádios de pilhas, binóculos de lentes azuladas, máquinas fotográficas, projectores de filmes, fitas pornográficas e gravuras de nus orientais. Os soldados queriam fazer as suas compras - gastar os dólares trazidos de Portugal e com muito sacrifício. Não falavam o inglês, mormente a língua malaia. Assim, a comunicação com os mercadores fazia-se através de linguagem gestual, penosa e difícil, especialmente quanto havia muitos trocos a receber.
- Meu alferes, como se diz, em inglês, dez dólares? - era a pertimente pergunta do Zé Manel, admirável soldado, no meio da confusão reinante do convés. Ele acabara de comprar um pequeno rádio a pilhas e uma boneca falante para uma sobrinha, que ficara perdida em Unhais-da-Serra, lá para as bandas da Serra da Estrela. A um canto do convés, “O Coimbra” experimentava um gira-discos de ten dólares e mais uma pilha de discos já fora da moda, naquela época. O Zé Manel, à proa, com a sua recém-comprada uma moderna Nikon - uma câmara fotográfica japonesa 6x6, colhia algumas vistas do casario da cidade e da sua movimentada baía, sempre apinhada de vapores vindos de todos os cantos do mundo. Limpou a máquina com um lenço amarrotado pela viagem e guardou a preciosidade num estojo de napa preta, a imitar couro. Com os mantimentos a bordo para o prosseguimento da viagem até à ilha de Timor, o paquete deixou as calmas águas de Singapura. O Sol já caminhava para a linha do horizonte como uma verdadeira bola de fogo incendiando o mar em tons de laranja e de vermelho. Do deck, contemplei as silhuetas dos juncos de velas enfunadas cruzando calmamente a baía, rumando outras ilhas do arquipélago de Sonda. Passámos por eles. O barco apitara, tomando o rumo de mar largo. As cores do pôr-do-Sol reflectiam-se nas águas pouco agitadas. O casario ficara para trás, bem como a Península da Malaca e as suas ilhas dos Amores, de Camões. O mar via-se esverdeado. Os pitorescos juncos baloiçavam ao sabor das pequenas vagas deixadas pelo paquete Timor à sua largada, naquele entardecer inesquécivel de um mês de Julho do ano de 1963.
***
Enquanto observava o barco afastando-se da terra, ao som monótono e cadenciado das suas máquinas, dei por mim meditando em tudo o que vira nesse fervilhante dia, em tão longínqua paragem do Oriente, nunca sonhada por mim, mas para onde o Destino me empurrara, seguindo a mesma rota dos nossos antigos navegadores, em demanda de Cabo Verde, da Boa Esperança, da longínqua Índia das especiarias, do Ceilão das madeiras preciosas, da Malaca, da Conchinchina, do Japão e, finalmente, Timor do "salutífero e cheiroso sândalo", meu destino...
Na minha memória recente, via as criancinhas malaias, de rostos felizes, brincando animadamente no convés dos juncos fundeados na baía e a alegria dos jovens rapazes (militares como eu), debruçados na amurada do paquete Timor, soldados vindos de Coimbra, Évora ou Braga, para defenderem uma terra distante e desconhecida, de um Portugal que nos ensinaram (bem ou mal, nem sei...), ir do Minho a Timor... Enfim, a ditosa, longínqua e Paradisíaca ilha de Timor...
*****
Estava de oficial-de-dia, e fui ao porão superior assistir ao jantar dos soldados. A refeição era de bife com batatas fritas e ovo-a-cavalo, prato tipicamente português, não faltando nas várias mesas as bojudas jarras de vinho tinto da Metrópole. No refeitório, reinava grande alegria. Os pequenos rádios de pilhas captavam, por entre silvos e apitos, mesmo dentro do porão, algumas estações em línguas estranhas: malaia, chinesa, ou qual-quer outra das ilhas do arquipélago de Sonda. Enquanto decorria o jantar, no meio de uma euforia generalizada (faltavam poucos dias para a chegada a Timor), fui a uma das vigias redondas e espreitei a noite, através dos caixilhos de latão, já muito carcomidos pelo salitre e pude ver um junco, que vinha na direcção do paquete Timor. Os seus tripulantes e familiares estavam reunidos debaixo de um alpendre de caniços, mastigando, pousadamente, alguma comida chinesa. À popa, via-se um ancião, já centenário pelo seu aspecto, de barbas brancas e compridas, chapéu de palha de arroz à cabeça. Fumava, placidamente, um cachimbo de raíz de bambu. Tinha os olhos semi-cerrados e contemplava o esvaír do cinzento fumo do tabaco que o vento levava para bem longe. Num dos mastros de bambu do junco, onde uma vela escura se via enrolada, baloiçava uma gaiola com catatuas brancas e pássaros coloridos. O nosso paquete, em poucos instantes, deixou para trás o junco naquele entardecer alaranjado, com um mar calmo e um céu sem nuvens. Enquanto eu seguia o avanço do barco através da vigia, esperando que a primeira mesa do jantar do rancho dos soldados desse lugar à segunda, contemplava a costa, cada vez mais longínqua, e aquele oceano negro-azulado. Mentalmente, fui revendo os feitos dos nossos antigos navegadores das caravelas - esses verdadeiros lobos do mar do antanho. Via-os calafetando as tábuas soltas das suas caravelas, saltando por cima dos barris de água potável ou no interior dos porões cheirando a carne em barricas ou a peixe seco, tão necessários para poderem aportar a longínqua ilha de Timor - a terra do sândalo ou do pau-santo. Na minha fértil imaginação de rapaz, via os marinheiros cruzando o Mar da Banda, das Flores, das Molucas, das Celebes ou do longínquo Império do Sol-Nascente. "alí também Timor, que o lenho manda, sândalo salutífero e cheiroso" - assim escreveu o épico Luís de Camões.
Assim viu Camões, que, certamente, como eu, contemplou as paisagens que, agora, desfilavam aos meus olhos, mais precisamente, as do arquipélago das Filipinas, local onde o poeta andara. Não pude deixar de reviver a História que aprendera nos bancos da escola primária, e via os marinheiros de grossas vestes curtidas pelo sol e salitre do mar, mil vezes remendadas, trepando mastros acima para desencravar os velames, nas épocas das podres calmarias. Via, também, na minha fértil imaginação de jovem dos vinte e poucos anos, esses bravos marinheiros arriando as pesadas lonas, para serem remendadas com grossas agulhas de coser, manejadas por mãos rijas, gretadas e bem calejadas. Via-os nos altos mastros de pinho polidos pelo roçar das velas - do lenho trazido dos pinhais de Leiria e de Azambuja - mandados plantar pelo rei D. Dinis - o Lavrador! Imagei os marinheiros lançando um bote à água para recolher algum elemento da tripulação das pesadas caravelas, encantado com as belas musas e outras cousas daquela costa da Malaca, ou entorpecido pela aguardente das palmeiras, bebida em excesso em qualquer taberna do ancoradouro, numa das encantadoras Ilhas dos Amores, de que tanto falou o glorioso épico Camões...
A noite chegara espalhando tristezas e sombras sobre o oceano. O mar era cada vez mais revolto à medida que o paquete se afastava da costa, vindo bater ruidosamente na proa do Timor fazendo estremecer a sua pesada estrutura de ferro e respingando a água salgada para o rosto de um sonhador de ponco mais de vinte anos, revivendo, in loco, páginas gloriosas da Epopeia Trágico-Maritíma...
A bordo tudo continuava calmo. Apenas uma pequena lâmpada eléctrica, suspensa de um cabo de borracha preta, baloiçava preguiçosamente à proa do paquete, ao sabor das vagas e do vento morno; uma pequena claridade vinha das trevas do infinito oceano fazendo realçar a alvura da espuma fluorescente que nos seguia como sombra; uma ligeira neblina misturava o céu e a água. Recolhi-me ao camarote. Uma nesga de um pálido luar violava a vigia de vidro e bronze lançando sombras no aposento refrescado pelo rodar guinchante de uma velha e ruídosa ventoínha de bordo. Um novo dia, dos muitos passados no mar...Os marinheiros, no convés, poliam os metais amarelos, ainda cobertos pelo cacimbo da noite. Abri a vigia e uma lufada de ar fresco fez voar os papéis sobre a mesa da cabeceira. Olhei o mar com paixão: a bombordo, a gigantesca ilha de Sumatra ou Samatra e uma miríade de outras mais, semeadas no vasto oceano, tornando perigosa a navegação, mesmo de dia - no dizer dos entendidos marinheiros, habituados à vida de ir e vir nesse paquete Timor.
CAPÍTULO II
Timor à vista...
A Ilha de Timor à vista...Estava achada, finalmente...
Um sol radioso acabara de rasgar o horizonte claro e fascinante, naquela alegre manhã. A ilha de Timor estava finalmente achada, após dois longos meses de navegação pelos oceanos Atlântico e Índico. O mar, por entre as encantadoras ilhas do arquipélago de Sonda (Camões tinha razão em chamá-las de Ilhas dos Amores), estava calmo. O verde das viçosas e virgens florestas equatoriais abraçavam as linhas das costas; as praias de coqueiros curvados sobre a fina areia branca estendiam-se à nossa frente. Já era manhã e os preparativos para a entrada do Timor no porto de Díli em curso a bordo do paquete. À nossa frente, a ilha de Ataúro, ou de Pool Cambing, como aprendemos na primária; mais além, a majestosa e altaneira ilha das Flores, com os seus picos coroados de brancas nuvens anunciadoras do começo da época das monções. No convés, ao meu lado, um funcionário público, de regresso da sua licença graciosa, segredava-me que a ilha já fora portuguesa e foi vendida, em tempos idos, aos colonizadores holandeses para o pagamento dos vencimentos aos funcionários públicos. Verdade ou lenda, o nome da ilha, Flores, é bem português e talvez desse uma boa pista aos estudiosos e pesquisadores dessas verdades ou lendas históricas... Os picos da referida ilha pareciam querer furar o céu. O mar, agora de uma tonalidade azul-esverdeada, deixava à vista as sombrias manchas de barreiras dos corais, à entrada do porto de Díli. As correntes marítimas sulcavam a baía em todas as direcções, descrevendo caprichosas e bizarras figuras de serpentes nas suas águas. A sombra do morro, sobranceiro à praia da Areia Branca, projectava-se na abrigada enseada. Do lado do Poente, as ondas lambiam preguiçosamente as brancas areias, por entre os palmares bordejando as praias de finas e brancas areias; as altas arequeiras e emaranhadas bungavilias pintalgavam os muros de um vermelho escuro; as pétalas das acácias rubras misturavam-se numa sinfonia de cores e tons. O verde repousante para quem andara cerca de dois meses sobre as águas do mar dominava a paisagem; os palmares, os bananais e os mangais (vegetação arbórea que a maré-baixa deixa de raízes descobertas), o casario branco da avenida marginal, o fumo subindo lentamente dos pântanos circundantes da cidade, enfim, tudo emprestava à paisagem timorense algo de misterioso, de encantador, fascinante e diferente, jamais visto...
Seria essa a magia do Oriente que lera nos livros e que, até hoje, não consegui explicar, mas sim sentir e guardar naquele recanto do baú da memória que cada um fecha a sete chaves!
***
O paquete Timor foi navegando devagarinho por entre os recifes de corais à entrada de Díli. Continuei observando tudo, verdadeiramente fascinado. Pelas encostas sobranceiras à cidade, algumas casas bizarras feitas de palapa e cobertura de capim engalanavam a paisagem. Lá no alto, um edifício imponente, caiado de puro branco com muitas janelas e portas no seio de uma verde e densa mata cerrada de escuro.
- É o Seminário de Dare! - informou-me um funcionário idoso, de regresso de Lisboa, em gozo da sua licença graciosa...
A torre do Farol aproximava-se, languidamente, com as suas riscas brancas e pretas pintadas sobre o cimento estalado dos muros. O paquete, em marcha lenta, contornava os recifes procurando o local exacto para largar a sua pesada âncora. No silêncio da baía. Soou o tilintar dos elos da grossa corrente de ferro
- Dia de São Barco! exclamara um funcionário mais falador - hoje é feriado em Díli - chamado dia de S. Barco...
Uma corda fora lançada à água e o Timor foi amarrado a uma secular árvore lulic, junto à sede do Sporting Clube. À árvore amarravam-se todos os barcos que entravam na baía, facto estranho para mim. Os passageiros e os soldados saltaram para as barcaças (as deixadas pelas tropas japonesas, durante a segunda guerra, durante a fuga) e partimos rumo à praia negra, a poucos metros do paquete, seguindo sempre a direcção da esticada corda de cânhamo. Chegados à praia, saltámos para a areia, com a água pelos joelhos. A maré estava alta, condição sine qua non para o barco poder entrar no porto de Díli. Assim fizeram os navegadores portugueses séculos antes, e assim fizémo-lo nós, Soldados de Portugal, no ano de graça de 1963. Foi esse o progresso que levámos para Timor - interroguei-me no silêncio da manhã! O sol estava quente e brilhante como só no Equador acontece. O casco do paquete brilhava nas calmas águas da baía, quando pisei a fofa areia da praia, local onde muitos timorenses, de troncos nus, aguardavam a vez para fazerem algum frete, transportando as malas e os sacos das barcaças para as viaturas militares. Sentei-me debaixo da acolhedora sombra dessa mágica e frondosa árvore-lúlic, mesmo ao lado da praia, contemplando a ilha de Ataúro com o seu topo coberto de nuvens brancas e os recifes de corais agora descobertos com a baixa maré. Alguns pescadores lançavam redes circulares, enquanto eu observava as grossas raízes pendentes daquela gigantesca árvore caídas até o chão de folhas secas. Escutei, pela primeira vez, o cantar dos toqués no alto das frondosas ramadas da árvore e o ruído característico das cigarras batucando nos meus ouvidos cansados - sons que ficariam arquivados na minha memória e me acompanhariam durante as longas noites passadas no Quartel de Taibesse, nos arredores da capital, quando de oficial-de-dia ao quartel. Observava os timorenses de cabelos lisos e pretos, de estatura pequena, olhos vivos, trazendo uma lipa atada à cintura, mascando uma mistura de areca, bétel e cal virgem, cuspindo para o chão com a maior das naturalidades um muco de aspecto encarniçado, semelhante a sangue, facto que impressionava qualquer recém-chegado à ilha. Contemplei a baía e a ilha de Ataúro mesmo em frente à cidade. O paquete Timor baloiçava a dois passos da linha de rebentação. A cidade, entre o mar e pântanos, estava escondida pela densa vegetação de árvores, caniços, capim alto e fumo da manhã. As buganvilias, pendentes dos troncos e muros, espalhavam as suas pétalas ao vento. O casario do Bairro do Farol (moradias para altos funcionário do Estado) ocupava uma longa avenida marginal. As acácias do Largo do Palácio das Repartições estendiam verdadeiros tapetes de flores rubras, querendo dar-nos as boas-vindas pela chegada a esse Paraíso Perdido, chamado Timor. Uma certa nostalgia apoderara-se de mim, no seio daquela estranha e misteriosa ilha, tão distante e desconhecida, mas que fazia parte de um Portugal que nos ensinaram ir do Minho a Timor, e que, como oficial miliciano, jurei defender até à última gota de sangue. Era assim, caro leitor amigo, quando este Portugal, bem ou mal, não sei, ia do Minho a Timor, ou, pelos menos, assim nos ensinaram...
CAPÍTULO III
A caminho de Taibesse, um quartel militar. O primeiro encontro.
A cidade de Díli ficara para trás, à medida que a Unimog, de uma cor verde-azeitona queimada pelo impiedoso sol tropical, ia rodando pela picada de terra batida, ladeada de hortas de milho, batata-doce e mandioca. O capim era alto e hastes guarnecidas com vistosas plumagens prateadas deixando escapar alguns flocos, que ficavam a pairar no ar morno da manhã, em redemoínhos do Demo. O pó cobria os nossos rostos e tudo em redor da estrada marginada de folhas rendilhadas das plantas de mandioca e mangueiras de frutos maduros pendentes das altas copas. A cidade ficara mergulhada numa amálgama de pó, neblina e fumo das queimadas. Olhei para os lados com um misto de admiração e curiosidade. Mais além, na Rotunda para o Hospital de Lahane, cruzei-me com mais timorenses, a caminho do bazar de Díli. Traziam os famosos galos de luta, algumas pencas de bananas, papaias, ananáses, cestos com abóboras e toranjas gigantes. A areca e o bétele vinham em varas de bambu ou em cordas. Alguns caminhantes, montados em pequenos cudas, faziam-se acompanhar das suas fetos levando à cabeça coisas para a venda nos bazares: fiadas de ovos protegidas com folhas de bananeiras, frutas e outros artigos... Junto às bermas da picada, vi, pela primeira vez, as casas dos timorenses, palapas, feitas com paus, folhas e capim seco. Os porcos, as galinhas e os cabritos, protegidos pelas sombras das árvores de fruta-pão, nem sequer davam pela passagem das ruídosas viaturas militares, a caminho de Díli. As hirtas arequeiras, de tronco cilíndricos desafiando as alturas - quais mastros das antigas caravelas portuguesas que demandaram a ilha, à procura do sândalo, teca, especiarias ou dilatando a Fé e o Império - saudavam-nos à chegada, agitando as suas folhas no ar morno daquela manhã. Ao lado da picada, mais hortas para a subsistência das pobres e numerosas famílias. Depois, o Quartel de Taibesse, a poucos quilómetros da capital. A messe para os oficiais estava instalada num edifício de piso único, circundado de largas varandas. Os degraus da escadaria davam para um jardim, ao lado da estrada principal. As plantas, as mais exóticas que jamais vira, ostentavam lindas e perfumadas flores, constantemente debicadas pelos coloridos pássaros e sobrevoadas por enxames de abelhas saídos das colmeias dos beirais. Uma catatua, muito lavadinha, empoleirada num tronco muito polido de uma cerejeira japonesa coberta de flores rosas, no centro do quintal, cessara de cantar, quando a viatura parou o ruídoso motor. Numa frondosa mangueira, os loricos verdes cantavam por entre as ramadas vergadas pelo peso dos frutos maduros. Alguns caroços das mangas caíam para o chão atapetado de folhas secas, por onde rastejavam muitos insectos de aspecto bizarro. O Sol mal conseguia violar a larga varanda protegida por cortinas de esteiras de bambus e de caniços. Chegara a hora para o primeiro almoço na Messe dos Oficiais. Um mainato fardado de branco serviu uma farta refeição. Ainda me lembro dela. E era de cabrito assado no forno para o nosso desenjoo da comida de bordo, após a primeira semana sempre igual, e com aquele sabor característico a frigoríficos. No centro da mesa, uma toalha encarnada aos quadrados, um cesto de rota cheio de bananas roxas, papaias amarelas com pintinhas pretas, mangas, goiabas, anonas, jacas e outras aromáticas frutas tropicais. No ar, aquele cheiro adocicado a mato molhado pela chuva e a cacimbo. Na fresca varanda, por debaixo dos escarlates ramos das buganvilias furando as esteiras de bambu tecidos para lançarem as suas pétalas, apreciei a primeira chávena de café de Timor - o melhor do mundo - o afamado café de laco. Num dos cantos da varanda e em cima de uma mesa de rota bem trabalhada, um amontoado de "Diário Popular", jornais chegados da metrópole, lidos e relidos avidamente pelo aspecto das finas folhas do seu papel já gasto. Algumas viaturas militares circulavam pela estrada fora com os motores cansados e barulhentos, transportando os buliçosos soldados residentes - os catuas - que já tinham terminado as comissões de serviço e estavam prestes a embarcarem para Lisboa no nosso Timor. Uma confusão de gentes, caixotes de teca, sândalo e pau—rosa (uma forma engenhosa de levar para fora de Timor as preciosas madeiras). Atrás das Unimogs vinham as GMC’s, cobertas pelo pó do caminho, com mais soldados transportando os curiosos macacos, alvas catatuas e os loricos de bicos encarnados e outras passaradas mais bizarras.
***
A tarde chegara. O céu, até então de um azul claro, tornou-se repentinamente cinzento e carregado de espessas nuvens de chuva, descrevendo no ar efémeras e bizarras figuras. A alegria do partir dos catuas chocava com a tristeza do ficar dos restantes - os lírios. Por estar de serviço, fiquei no quartel de Taibesse, num pequeno gabinete onde havia uma modesta secretária em pau-rosa, uma cama de campanha do tipo burro, e um telefone de manivela cor verde-azeitona. No silêncio da noite, fui às casernas. Quantas almofadas não estariam molhadas pelas lágrimas daqueles bravos rapazes - soldados, companheiros meus - que, como eu, deixaram famílias, noivas, namoradas, amigos e empregos para virem defender esse Timor, que era tão português como o Minho ou o Algarve? Na parada, o luar tornava mais esbranquiçada a terra mil vezes calcada pelas pesadas botas da soldadesca. As frondosas árvores que circundavam o Quartel deixavam caír as suas raízes aéreas até ao solo, lançando sinistras sombras sobre o denso matagal, onde os macacos saltitavam de ramo em ramo deixando tombar umas compridas vagens acastanhadas, cujo barulho fazia-se ouvir no brilhante zinco ondulado da cobertura da silenciosa das casernas. Madrugada! Era hora da ronda ao quartel. Percorrri, a pé, os carreiros ao lado das cercas de arame farpado (deixadas pelas tropas japonesas durante a guerra), agora tomadas de floridas trepadeiras exalando um suave perfume na calmaria da noite de cacimbo. As minhas pesadas botas da tropa pisavam os galhos secos e o capim amolecido pela humidade. Ouvia estalos no silêncio da noite. Nos postos de sentinela, espalhados ao longo da cerca de picos, os soldados recitavam as senhas para o dia e respondia-lhes com a contra-senha. As aves noctívagas saltitavam de ramo em ramo dando lúgubres pios e espalhando terror na mata. Após a ronda, fui para o gabinete de oficial-de-dia. Um candeeiro de pé alto, colocado a um canto da varanda, ao lado das floreiras vazias, carecia de pressão e deixava escapar alguma chama pela camisa rota. A parada estava mergulhada numa penumbra. De esferográfica nas mãos, escrevi aos meus pais em Cabo Verde, à minha noiva, (hoje minha mulher), que ficara em Lisboa, chorosa, vendo o paquete Timor deixar o cais de Alcântara. Ouvia os sons dos toqués nas cavernas dos troncos apodrecidos das árvores da silenciosa estrada de terra batida, branca e fria.
Mais uma noite de serviço ao quartel, o que sucedia de quatro em quatro dias a todos os oficiais da Companhia. Um Sol radioso não tardaria a surgir, para quebrar a nostalgia que se apoderara de mim. Os pássaros cantavam nas altas copas das árvores e o céu ficara cada vez mais claro e as gotas do cacimbo rolavam das chapas de zinco das coberturas das casernas. Uma ténue neblina subia rumo às altas montanhas circundantes, tapadas de florestas tropicais. Por um estreito carreiro correndo ao lado da vedação do quartel por entre o capim alto passavam filas de timorenses, de cestos de palha à cabeça ou puxando por cordas alguns porcos, leitões e cabritos, a passos leves e elegantes a caminho do bazar.
-Bom dia senhor!- Bom dia senhor, bom dia senhor...
Um a um, iam repetindo a mesma frase:
- Bom dia, senhor...Bom dia, senhor... Bom dia, senhor...
As crianças, de pés descalços, olhavam para trás e sorriam para o malai-tropa. Mais uma vez, reparei nas vestes coloridas das mulheres caminhando com elegância até à curva da estrada. No ar ficava o cheiro a óleo de coco com que tratavam os seus longos e brilhantes cabelos pretos. O cacimbo, caído durante a noite, desaparecera com os primeiros raios do Sol que, no Equador, às oito da manhã, já queima a pele. Um toqué soltara um roufenho tô-quê, do buraco de um apodrecido tronco, não muito longe da parada, do caminho. Esperei, impacientemente, que o réptil cantasse sete vezes - as vezes da sorte - mas parou ao quinto tô-ô-quê, já muito fraco e abafado pelo ruído da corneta tocando a formatura, na parada do quartel.
CAPÍTULO IV
Num exercício militar, Metinaro, arredores de Díli - capital.
Caía a tarde, num quente dia de Dezembro, já próximo da época natalícia. As calmas águas da baía de Díli - qual espelho gigante reflectindo a luz com mil pinceladas de diferentes tons - tendo por cenário a ilha de Ataúro, vinham espumar aos meus pés. Nessa noite, houve um exercício militar de uma Companhia nativa que terminara o seu primeiro período de recruta. Movido por uma incontida curiosidade de conhecer melhor a ilha de Timor, integrei-me nele, aceitando um convite do capitão M. Silva. De Unimog, seguimos para Metinaro e ficámos instalados num planalto, donde se avistava grande parte da costa Norte. Quando lá chegámos, a noite estava cerrada. No mar, viam-se alguns pontos brilhantes dos beiros na faina da pesca nocturna. A linha da costa de Metinaro parecia um fio esbranquiçado bordejando os densos mangais do litoral, habitat de horrendas jibóias e sagrados crocodilos, mergulhados no lodo e cobertos pela escuridão das trevas. Os recrutas aglomeravam-se em torno das fogueiras acesas com toros de palavão-branco ardendo lentamente e sem fumo, iluminando os rostos suados e cansados pelas danças nativas - as célebres tébedais - ao som dos tan-tans.
Era dia de festa e comemorava-se o fim de um período de recruta, que durara três longos meses em que os soldados não puderam deslocar-se às suas aldeias, muitas delas escondidas nas altas montanhas do interior. Os cozinheiros preparavam os sassatis, os camarões, os caranguejos, as amêijoas e os mexilhões apanhados na costa e os peixes ainda saltitantes pescados pelo grupo nas enseadas de Metinaro. Numa improvisada cozinha, os rostos suados movimentavam-se de um lado para outro, por entre as improvisadas mesas de bambus espalmados cobertos com folhas de bananeiras. Cortavam e enfiavam em varas a carne dos veados e cabritos, pisavam o piri-piri misturado com as vagens de tamarindos, para a confecção de molhos, que, juntamente com o arroz branco cozido com água e sal, iriam acompanhar as requintadas amostras da gastronomia timorense. O capitão e comandante da companhia, numa cadeira de lona, olhava a linha do horizonte, agora tapada pelas pesadas nuvens do início das monções. Batia com uma varinha de bambu nas calças do camuflado, tique que lhe era peculiar, e bebia água de coco. Depois, abriu a carteira de pele de crocodilo de Timor e dela retirou a fotografia do filho recém-nascido na metrópole, bebé que ele ainda não tivera ocasião de beijar. O cozinheiro veio falar-lhe, perguntando se podia servir o jantar. As chamas das fogueiras iluminavam os seus olhos marejados de lágrimas de saudades, da família e da Pátria que ele defendia...
O ar estava perfumado pelos fumos de resinosos lenhos, à mistura com os aromas dos temperos e especiarias usados na confecção dos muitos pratos, já alinhados nas improvisadas mesas feitas de paus e cordas. Os grilos batucavam no mato; os pássaros noctívagos de asas pretas lançavam os seus lúgubres pios de fazer gelar a espinha; o capim molhado agitava-se ao sabor da aragem do mar, não muito distante do planalto onde a Companhia em exercício se instalara. Uma estrada seguia a linha da costa. Foi nesse local, sentado numa improvisada mesa, habilmente feita pelos soldados, que, pela primeira vez, tomava contacto com a Timor e começava a perceber a ilha, as suas gentes, os seus sons misteriosos e os inesquecíveis aromas e paladares dos pratos típicos. De regresso à capital, ainda tive tempo de contemplar as belezas da costa Norte, com um mar azul espraiando-se em branca espuma nos recifes de corais, mesmo ao lado da estrada de terra batida. A cidade ficava longe do quartel. À tardinha, montado numa velha moto RE, percorria as térreas ruas de Díli, ladeadas de hortas e pântanos donde saíam enxames de mosquitos e o coaxar das rãs nas águas paradas. No ar morno das tardinhas, misturado com o pó das ruas, pairava um perfume peculiar das brancas flores das toranjeiras e papaeiras. As grossas folhas das árvores de fruta-pão rangiam sob o rodado da moto e os troncos desfilavam à minha passagem, quais esculturas cobertas de fungos e plantas parasitas. A cidade dormia com as ruas desertas. O farol faíscava intermitentemente, avisando à navegação dos perigos dos corais; as poças de água da última maré brilhavam com uma claridade invulgar e os palmares desengonçados do Bairro-Árabe lançavam sombras sobre as praias e nas palapas acendiam-se as lamparinas a petróleo e fogueiras. Alguns timorenses, após o dia de trabalho nas hortas, sentavam-se no fresco dos terreiros em frente às suas palapas. As folhas das mandioqueiras traçavam estranhas figuras nas paredes e nas cercas que protegiam as hortas dos porcos. Os poucos candeeiros de iluminação pública da cidade, com as lianas trepadas pelos fios, espalhavam uma claridade que mal furava a densa poeira a pairar no ar. O cacimbo da noite descia das montanhas e adormecia a cidade sob um fino manto de leitosa neblina.
Sentado num banco de cimento, mesmo ao lado do Farol, fiquei a observar a baía e as sombras dos palmares debruçados sobre as praias, ocasionalmente visitadas por casais fortuitos, cujos vultos se perdiam no negrume da noite. Nos rochedos, os caranguejos estendiam as suas cortantes tenazes procurando agarrar alguma presa descuidada. A silhueta de um beiro deslizava na mansidão do mar rumando Liquiçá para a faina de pesca de uma noite de luar. As árvores deixavam cair as suas raízes até às praias - quais fantasmas - em direcção às moribundas e esburacadas barcaças utilizadas pelos japoneses para o desembarque em Díli, durante a segunda guerra mundial. Montado na minha velha moto RE percorria a marginal, embalado pelo som do monótono motor. O ruído das ondas nas praias quase que abafava a máquina; a fina areia branca via-se ensombrada pelos negros mangais. As folhas dos coqueiros, roçando umas nas outras, emprestavam ao local um ar sinistro e exótico e a Lua nascera cheia, lá para os lados da praia da Areia Branca. O Farol iluminava a baía, com o seu faíscar intermitente, via-se inundada pela força das vagas. As bermas com acácias de ramos guarnecidos de vagens e pequenas flores amarelas brilhavam à luz dos farois da moto RE. Escostei-me a uma árvore e depois desci à praia passando por um rochedo escorregadio e negro. Num beiro, varado na areia, estava um velho pescador de barbas brancas e tez curtida pelo sol. Fumava o cachimbo, à popa da embarcação. Um cão preto de rabo enrolado sobre as canas de bambu dormitava. Abeirei-me do pescador para o cumprimentar de imediato: - Boa noite!
Boa noite, senhor!- assim me falou, prontamente.
- Como se chama, caro amigo? - procurei saber.
O ancião parou de enfiar um pedaço de isca viva num anzol bem grosso, retirou o cachimbo da boca, coçou os poucos cabelos já brancos da cabeça brilhante e respondeu-me:
- Sou o catuas Mau Quinta - o pescador destes rochedos e toda a gente de Díli me conhece pelo peixe fresquinho!... Moro naquela barraquinha - indicara-me com o dedo uma palapa que mal se via - bem encravada num altaneiro morro.
- O senhor é tropa? É malai?
- Sim! Sou alferes numa companhia que chegou no último barco.
O ancião puxou uma fumaça do cachimbo deixando bem visíveis as grossas veias do pescoço enrugado pelos anos.
Então, o malai é dos tropas que chegaram no último barco?
- Para quê tanta tropa em Timor! Têm medo dos holandeses, quero eu dizer, agora já não há holandeses mas sim os indonésios?
- Nunca se sabe o que poderá acontecer um dia...
O velho pescador continuou nos preparativos para a pescaria. A noite estava fria e caía cacimbo. As copas das acácias já mal se viam na neblina que se abatera sobre o litoral. Apenas se ouvia o marulhar do mar, tentando ultrapassar a barreira de corais, à medida que a maré ia subindo. As vagas chegavam aos meus pés, trazendo alguns calhaus roliços e negros, conchas de formatos e tamanhos diversos, estrelas do mar e compridas algas cheirando a iodo. As aves noctívagas passavam por mim, voejando baixo com as suas largas asas pretas e perturbadas com a tão estranha presença humana naquele local, àquela hora da noite. Subi para a minha velha moto RE, e, embalado pelo som monótono do motor de dois tempos e dirigi-me, para Díli para tomar o caminho do quartel.
CAPÍTULO V
A caminho da povoação de Nuno Tali - Quartel de Ermera
A minha companhia, após uma curta permanência em Taibesse, foi destacada para a localidade de Nuno-Tali do Concelho de Ermera, a cinquenta quilómetros de Díli. Parti de Díli, numa tarde chuvosa de Outubro com forte bátegas fustigando a viatura conduzida pelo soldado Zé Manel. O céu apresentava-se cinzento e o mar, mesmo ao lado da picada, lançava borrifos para os nossos rostos. A estrada estava transformada num imenso lodaçal encarnado de difícil passagem e os rodados da viatura deixavam profundas marcas na lama avermelhada, quase que resvalando para as valetas de pedra para onde escorriam torrentes vindas em cascatas das montanhas vizinhas. Foi esse ruído característico das quedas de água que me fez recuar aos tempos de menino, quando brincava com os colegas da primária no vale da Ribeira Brava, ao som da cascata de Monte Fora despejando a água das chuvas pela garganta sobranceira à vila onde eu nasci. Enquanto contemplava as escovas de borracha descrevendo círculos e tentando em vão limpar o vidro, vieram-me à mente as recordações dos pais, da noiva que ficara em Lisboa e dos amigos...
Que fazia eu naquela longínqua terra de Timor?
O Zé Manel, de mãos firmes, tentava segurar a viatura, seguindo por uma picada cada vez mais estreita e escorregadia. Aprendera a conduzir em Portug al, mas nunca na sua vida se vira metido em tamanho lamaçal, nem em Mafra.
- Meu alferes hoje está muito pensativo!
- Sim, Zé, estou pensar nesta embrulhada da chuva, lama, e os caminhos por nós desconhecidos. O meu companheiro de viagem endireitou o boné e mudou de conversa.
- Sabe, meu alferes, nasci lá para os lados de Unhais-da-Serra e guardei rebanhos de cabras e carneiros percorrendo os montes no inverno e só vi o mar quando entrei para o BC5, em Lisboa. Não tenho mesmo nenhuma vergonha em dizê-lo!
Eu respondi-lhe que vira um comboio e um elevador quando cheguei a Portugal em Outubro de 1962...Só os vira nos livros.
Finalmente Railaco, um pequeno aglomerado de casas ao lado da estrada, com uma cantina china, um posto de socorros, uma escola engolida pelas matas de cafeeiros e de madre-del- cacau, árvores de sombra dos cafeeiros. As construções eram de palapa e as coberturas de capim, donde escorriam fios de água para as latas com lírios e trepadeiras. As buganvilias brancas enroscavam os seus troncos nos paus das varandas inundando-as de mil pétalas coloridas que o vento se encarregava de espalhar no cimento estalado do chão. A viatura parou ao lado da Escola Primária e abandonámos os incómodos bancos. Fomos espreitar as salas. Lá dentro, o monitor, a muito custo, conseguia manter os alunos nos improvisados bancos. Da janela, pudémos assistir parte de uma aula de História. O monitor Relvas, de ponteiro nas mãos, indicava aos seus alunos o percurso dos navegadores portugueses, de Lisboa a Timor, passando por Cabo Verde, Angola, Moçambique, Índia e Malaca...O Zé Manel, espantado, me confidenciou, encantado com o que vira:
- Então, meu alferes, eles aprendem a nossa História!
- Sim, Zé! São portugueses como você e eu... O monitor Relvas veio falar-nos fornecendo alguns dados sobre a região de Ermera onde íamos ficar. Deixámos a gritaria da pequenada e fomos à única loja de Railaco, para um reconfortante café, pois fazia frio. No quintal meio cimentado meio empedrado, viam-se pilhas de sacas de café aguardando o transporte para Díli. O comerciante Fu Jang veio receber-nos com um sorriso amistoso, mandando vir duas cadeiras, da sala onde a mulher costurava numa velha máquina Singer, de pedal. Uma bandeja de folha com desenhos chineses, esbatidos pelos roçar das louças, foi transportada por uma bela chinesa. Trazia duas chávenas do fumegante e aromático café. No ar, o aroma do café de laco e o perfume da Li Fung, a filha do comerciante, misturado com o das brancas flores dos cafeeiros das plantações vizinhas. Saboreámos um esplêndido café de Railaco, acompanhado de um cálice de tuassaba - aguardente de palmeira de fabrico caseiro. A noite chegara. As copas das altas árvores de madre del cacau foram engolidas pela neblina que descera sobre o povoado de Railaco, soterrando as dispersas palapas. Lá fora, o frio fazia-nos gelar, habituados ao calor de Díli donde vínhamos. O esvoaçar dos pássaros nas copas das árvores levou-me, mais uma vez, aos meus tempos de meninice, brincando nas sombrias e lodosas margens da Ribeira Brava e sentindo o bater das asas dos pardais nas ramadas das frondosas amendoeiras bravas da horta de Tomaz. Ouvia o caír das folhas amarelas despedindo-se de época que findara. Agora, estava eu subindo o morro de Railaco, ao som dos últimos loricos e as brancas catatuas piando nas ramadas.
A viatura roncava encosta acima. À nossa frente, um velho pontão de madeiras apodrecidas ligando as margens de uma ribeira, correndo dezenas de metros abaixo, carregando troncos e pedras. O tabuleiro, já enegrecido pelo tempo, parecia não oferecer segurança. O Zé Manel parou a viatura. Fomos inspeccioná-lo. Toda a estrutura tremia com o bater das nossas pesadas botas da tropa. Alguns fungos e cogumelos, albergados nos intervalos das tábuas, precipitaram-se para o abismo. Habituado que fora a tomar decisões, certas ou erradas, decidi-me:
- Vamos passar mesmo...- era um risco a correr, mas não havia outra alternativa e a chuva caía com mais intensidade ouvindo-se o ribombar dos trovões nas montanhas altaneiras e o faíscar dos raios.
- Passa! Foram as minhas ordens, dadas com uma voz pouco convincente.
O condutor ligou o motor e saltei para o banco vazio, ao seu lado. Quis arriscar-me também. Se o pontão cedesse lá íamos, os dois, para as profundezas do abismo - e pontões podres eram frequentes em Timor. A viatura avançou. Os rodados começaram a pisar as escorregadias tábuas do pontão ameaçando ruína. A estrutura oscilou; alguns cogumelos mais soltaram-se das tábuas. Não caiu. Quando olhámos para trás, os nossos rostos estavam molhados, não da chuva que tombava sem piedade mas sim de medo, do suor.
Chegados ao alto da serra, avistámos a magnifica Ribeira da Gleno e o seu firme pontão de betão ligando as duas margens de plantações de cafeeiros. A estrada serpenteava o monte e os travões, a muito custo, aguentavam a viatura na íngreme descida. A vegetação era menos densa, de palavões brancos de troncos curvados pela força das ventanias. No topo de uma montanha enrugada - quais bocados de papéis amarrotados - via-se uma luz indicadora do local onde iríamos ficar, por dois anos - Nuno-Tali. A viatura galgou a margem da ribeira da Gleno e então pude observar a força da torrente castigando os pilares de betão e arrastando hirtos ramos, rumo ao mar. As várzeas estavam alagadas e nelas alguns pachorrentos búfalos chapinavam no lodo cinzento e fedorento dos canteiros por lavrar. No ar, o cheiro a terra podre misturada com o perfume dos cafeeiros, laranjeiras e toranjeiras em flor bordejando os caminhos e as margens do vale da Gleno. Recordações que ficaram gravadas na minha memória, como páginas da obra do Grande A. Garrett descrevendo o seu vale de Santarém! A Gleno era, na verdade, caro leitor amigo, o meu vale de Santarém...
CAPÍTULO VI
Ermera, uma pequena vila do interior de Timor
Finalmente o nosso almejado destino, o Quartel de Nuno-Tali, no interior da ilha de Timor, a oitocentos metros de altitude, em pleno mato. À porta da casa da guarda, um soldado timorense estava de sentinela. Fazia frio e a humidade inundava o ar e manchava o azulado cano da espingarda G3. A sonolenta sentinela olhou-nos, e, sem pressas, levantou uma improvisada barreira de cada de bambu, pintada de encarnado e branco, que interditava a passagem a estranhos. Galgámos a rampa de acesso à Messe, sempre por entre ananaseiros ostentando os seus belos frutos cobertos de teias de ranhas gigantes brilhando à luz dos faróis. O Quartel situava-se num ermo não muito distante da principal vila da importante zona de produção e comercialização do afamado café de Timor (uma mistura das variedades arábica, robusta e moca, esta com grãos do tamanho de uma azeitona). A messe dos oficiais bem como o Comando ocupavam a ala principal de uma construção de pedra e cal, coberta a capim, sustentada por grossas vigas de palavão preto. Uma larga e comprida varanda circundava a construção oferecendo uma soberba vista sobre o encantador vale da Gleno, com a ribeira correndo furiosa em direcção a uma profunda garganta cortada nas encostas. A caserna para os soldados ficava um pouco arredada da Messe, num desaterro roubado a um barranco à custa de máquinas. Havia uma parada, um campo de futebol. Um gerador eléctrico de campanha fornecia a energia a uma dúzia de fracas lâmpadas suspensas em postes na escuridão da mata. O jantar fora servido a um canto da varanda, protegido pelas buganvilias enroscadas nas tortuosas vigas de suporte da cobertura de capim acinzentado pela humidade. Uma catatua, empoleirada num barrote, espiava-nos do poleiro. Os loricos, assustados, avoejavam baixinho deixando escapar algumas vistosas penas verdes, que vinham parar à nossa mesa; as formigas de asas, atraídas pela luz, largavam as suas asas brilhantes, ficando os corpos rastejando no cimento encarnado do piso da varanda. No céu de um azul muito escuro e despojado de nuvens, viam-se algumas tímidas e cintilantes estrelas. Findara aquele dia agitado, inesquecível mesmo, dia em que eu me vi embrenhado nas matas da ilha de Timor. Deitei-me sentindo a humidade impregnada nos lençóis da tropa, em Nuno Tali, numa das regiões mais ricas, pluviosas e frias do interior da paradisiaca ilha.
***
A vila de Ermera não estava distante do quartel e fui conhecê-la fazendo o caminho, a pé, seguindo pela lamacenta picada tomada de horrendas sanguessugas. Tiive oportunidade de observar os regatos cantando de pedra em pedra, por entre tufos de inhames, fetos arbóreos, bananeiras baloiçando os seus pesados cachos e plantações de cafeeiros, cujos ramos tombavam pelo peso dos frutos encarnados - as cerejas. No ar, sentia o cheiro a terra molhada e estranhos perfumes das flores das papaeiras, toranjeiras e mangueiras. Situada no sopé de uma encosta, que se movia lentamente fazendo estalar as paredes das casas vizinhas, ficava a Vila de Ermera, quase sempre mergulhada em nevoeiro e sufocada pelas matas e árvores de sombra do café. Havia uma Igreja com uma torre desafiando as copas das árvores, uma escadaria de acesso a um patamar de azulejos alusivos à Nossa Senhora de Fátima, uma rua central e mais uma outra seguindo na direcção a Futubesse. As lojas chinas, com as varandas atafulhadas de sacas de café aguardando o transporte para Díli, os muitos cudas atados às árvores do caminho, enfim, tudo emprestava à povoação de Ermera algo de pitoresco, mormente num dia de bazar semanal - acontecimento desejado por todos - e marco do fim de uma semana.
CAPÍTULO VII
Dia do bazar - mercado semanal, em Ermera.
Dia do bazar, dia de festa e de reencontro das gentes dos povoados dispersos. Na vila, o rebuliço era fora do normal e eu queria observar esse fenómeno cultural. Sentei-me num muro de pedra, ao lado de uma plantação de cafeeiros, em frente ao edifício da Administração do Concelho, tendo por companheiros algumas lagartixas, também à procura do sol - coisa pouco frequente na zona ensombrada de Ermera. De todos os carreiros que vinham desembocar ao povoado chegavam timorenses, em filas, transportando leitões, cabritos, papaias, mangas, limões, galinhas e galos para serem vendidos no bazar ou trocados por géneros no comércio china. As duas únicas ruas e o largo enchiam-se, vendo-se nas mãos as notas de sessenta escudos e moedas de seis escudos. As patacas saíam das sacolas de palha e dos lenços tilintando nas mãos dos compradores e vendedores. Eu, como forasteiro que era, acabado de chegar à estranha ilha, trazendo no ouvido as recomendações de um amigo, que embarcara dias antes para Portugal, dizendo-me que “em Timor, durante seis meses só ouves, e depois podes falar”, aguardava com impaciência o sinal do sipaio, para o início do bazar, consultando o seu relógio de pulso de uma marca japonesa, e aguardando a exacta hora para o evento. Era proíbido vender ou comprar antes desse sinal do representante da autoridade administativa colonial. O sipaio, de pé, fardado de caqui, muito compenetrado com a sua nobre missão, permanecia junto ao tronco de uma árvore de fruta-pão, mesmo ao lado do edifício da Administração do Concelho, onde tremulava uma Bandeira Portuguesa, a precisar de substituição e com o cordel a tilintar no mastro de ferro enferrujado. O agente da autoridade era alto, magro, de cabelos pretos e lisos, trazia umas botas de lona esverdeada, das da tropa, e chupava o último cigarro de um maço, que atirou para dentro de uma plantação de cafeeiros, mesmo ao lado. Depois muniu-se de uma pedra, retirada do muro, e com ela percutiu o aro metálico da roda de um camião japonês da segunda guerra, pendurada no ramo de uma jaqueira. O som metálico ouviu-se por montes e vales; as catatuas e os loricos, empoleirados nas árvores de sombra, levantaram voo e foram misturar-se aos pombos, lá para os lados da Igreja. Dão...Dão...Dão... - ouviu-se...e esse som nos meus ouvidos, passadas várias décadas. O sipaio limpou a terra que veio agarrada à pedra e dirigiu-se ao recinto do bazar para arbitrar os eventuais conflitos entre feirantes e compradores. Uma algazarra infernal ouviu-se pela vila toda. Até os cudas, atados às árvores dos caminhos, deveras se assustaram. Um deles partiu a corda, deu pinotes no ar, seguindo em desenfreada correria carreiro abaixo, arrastando os restos do ramo verde onde estava amarrado, e espalhando viva confusão por entre a multidão. Após alguns minutos de agitação, a calma regressou ao local ouvindo-se, então, os acalorados diálogos entre os vendedores e compradores. Após dar um passeio pelo do recinto do bazar, feito no largo da Administração, misturei-me com os timorenses olhando o local onde podia colocar os pés para não pisar ovos ou frutas espalhados pelo chão e sentindo o cheiro fresco da areca, bétele e cal usadas nas mascas. Estava, realmente, no seio das gentes da ilha de Timor. Sentados nos muros, cobertos de musgos e de líquenes acinzentados, alguns timorenses acariciavam os seus coloridos galos de combate, que iriam animar a festa após o almoço, de acordo com a posição do Sol. Combinavam-se as apostas: de mulheres, búfalos, cavalos, bois, várzeas de arroz, mas, em primeiro lugar, o metal cantante. Ao meu lado, estava o dono de um dos galos. Chamava-se, se a memória não me atraiçoa, Mau Bere e viera da povoação de Hatolia, um catuas, de cabelos brancos, lipa enrolada à cintura e cinto guarnecido com as célebres patacas mexicanas em prata - um dos símbolos de riqueza em Timor, além de búfalos e luas de ouro. De face queimada pelo sol da planície, ele exibia os dentes avermelhados cuspindo para as folhas dos cafeeiros da plantação vizinha, onde a maior parte dos bagos maduros já tinham sido colhidos. O catuas afiava, cuidadosamente, uma envenenada lâmina de aço azulado numa pedra do mar, com ajuda de um pouco de cuspo. Os outros donos dos galos contendores faziam o mesmo, às escondidas. Chegara a hora para o início da luta de galos, no galódromo, (recinto circular com cerca de cinco metros e muro de oitenta centímetros de altura), com uma pequena entrada, guardada por um sipaio, o arbitro. As horas para as lutas eram cuidadosamente escolhidas pelos donos dos galos, de acordo com as cores das penas, o estado das cristas e altura do Sol, etc... Os apostadores aglomeram-se em torno do galódromo, mascando raivosamente a tal droga (mistela de areca, bétele e cal). Viam-se homens, mulheres e crianças irmanados pelo desejo de ver ganhar o galo em que apostaram as suas economias. No recinto da luta, só ficam os donos dos galos, sob a vigilância apertada do sipaio. A multidão acotovela-se, ainda mais, em torno do recinto. Os dois primeiros galos são largados. Com muita dificuldade, aproximo-me um pouco mais do galódromo. Um dos galos é encarnado, de penas pretas nas pontas das asas. Tem ar de ganhador - no dizer de um dos presentes, entendido na matéria. O outro galo, de penas pretas e asas pintalgadas de branco, ostentava afiadas e curvilíneas lâminas, bem atadas aos esporões. O ambiente é de expectativa... O silêncio reina. A gritaria, quase por magia, cessa. Apenas o cantarolar incessante das cigarras nas árvores de sombra dos cafeeiros. O sipaio (qual árbitro atento e compenetrado) faz o sinal para a largada dos galos. O encarnado, camado de Pimpão, de cristas no ar, dá um pinote e o seu rival, o Corvo, esquiva-se com mestria deixando algumas penas pretas pairando no recinto, por entre a poeirada levantada pelas patas e pés dos circunstantes. O Pimpão, já refeito do grande susto, levanta as asas, olha o dono como um jogador de futebol aguardando as instruções do banco dos treinadores e ataca o Corvo. A multidão, aos pulos, aplaude com fervor. Agora, foi a vez do Corvo tomar iniciativa, após dar uma volta completa ao galódromo andando para trás e com pavor estampado nos olhos. O Pimpão dá uma viravolta no ar e esquiva-se da afiada lâmina de aço, que passara rente ao seu papo do adversário (mais aplausos, mais pulos de contentamento) e a luta continua. O sipaio autoriza uma pequena interrupção. Os donos trazem os galos para fora do galódromo. Parece que estão a dar-lhes instruções para a segunda volta. O Pimpão é acariciado e fica com algumas penas espetadas para o ar. O Lequi Bau, a um canto, faz o mesmo ao Corvo. Afinam-se as apostas. O sipaio apita e os galos entram no galódromo. São largados, de imediato. Um pinote do Pimpão quase que o faz saltar para fora do muro, com as perigosas lâminas envenenadas viradas para cima e que matam qualquer um ao primeiro corte. A multidão afasta-se... Tem medo... O Pimpão regressa ao recinto da luta. Surge uma dúvida:
- Galo que foge perde!...
O sipaio não considera falta relevante...Não houve fuga. Não sequer o galo ele transpôs o muro - afirma o cadedrático daquelas lutas... A luta prossegue... O Corvo, vaiado pela multidão, faz uma defesa de génio virando-se de patas para o ar e atingindo o Pimpão com os seus esporões guarnecidos de cortantes e envenenadas lâminas de aço azulado. As penas de várias cores espalham-se pelo chão, juntamente com a poeirada amarelada levantada no galódromo. O vistoso galo de combate Pimpão cai.
Os vencidos, de cabeça no chão, abandonam o galódromo, esperando melhor sorte numa próxima luta. Do papo furado do Pimpão saltam gafanhotos, lagartas, milho e os restos do capim da derradeira refeição. Terminada a luta, os timorenses, transportando os artigos comprados no comércio local, seguem por conhecidos atalhos furados nas matas de cafeeiros, rumo aos sucos e povoações perdidos nos contrafortes das montanhas. Findara mais um dia, dia do bazar, em que as pessoas puderam reencontrar-se com amigos e familiares. A vila de Ermera ficara vazia, mergulhada no seu silêncio da mata. No jardim municipal, logo à entrada da vila, a água jorrava em cascata para dentro de um lago circundado de belas dálias e zínias em flor. Viam-se fileiras de bancos pintados de verde e o nevoeiro começava a cair sobre as verdejantes copas das madre-del-cacau, deixando apenas a descoberto as escadarias da Igreja. Retomei o caminho do quartel de Nuno-Tali, levando comigo uma inexplicável nostalgia. Sentia-me perdido no seio daquelas asfixiantes matas em que tudo era verde, habituado que estava às escalavradas ilhas de Cabo Verde. A noite já era dona das plantações ensombradas e dos barrancos lodosos, infestados de repelentes sanguessugas e perigosas cobras verdes. Em frente aos faróis da viatura, rasgando com dificuldade a escuridão, uma miríade de insectos noctívagos vinha ao encontro do pára-brisas e nele ficavam agarrados e espalmados. Um catuas, ainda com a cabeça toldada pelos vapores da tuassaba, bebida nas lojas chinas ou encandeado pela luz da viatura, parara junto à berma da picada. Já sem forças, quis deitar-se nas valetas de pedra, mas os companheiros ajudaram-no a retomar o carreiro, ainda que sustido a uma vara de cafeeiro. As brancas flores das papaeiras perfumavam o ar e os lacos brincavam saltando de ramo em ramo e catando os bagos mais maduros de café em cereja. Chegado ao quartel, sentei-me, como de costume, numa das cadeiras de rota, colocada a um canto da longa varanda donde se avistava a Ribeira da Gleno - o meu vale de Santarém - como já vos disse. Enquanto aguardava a hora do jantar, contando as estrelas do céu ao som monótono do gerador eléctrico do quartel, pensava na minha noiva que ficara em Lisboa e nos meus pais em Cabo Verde. Dormi ao som da água cantando nas ribeiras mais próximas, ouvindo algum esporádico cantar dos toquês, nas árvores podres do caminho. O corneteiro tocara a recolher. Os cães do quartel ladraram e os ecos dos latidos ouviram-se morrendo nas montanhas vizinhas e na densa mata, enquanto os grilos batucavam nas fendas dos muros e na bem cuidada horta da messe com os seus perfumados ananáses maduros e os roxos e enrugados maracujás, suspensos das trapadeiras das vedações.
CAPÍTULO VIII
Fatubesse - uma plantação de café [Fazenda] na mata
Foi durante um exercício militar que tive o privilégio de conhecer uma das mais belas regiões da ilha de Timor. De nome Futubesse, está situada na mais rica e produtiva região da ilha e possuia as maiores plantações de café, chá, borracha e baunilha, pertencentes à SAPT [Sociedade Agrícola Pátria e Trabalho, Lda]. Distante de Ermera alguns escassos quilómetros, era servida por uma estrada de terra batida, que dava passagem aos camiões que transportavam o café, cacau e outros prudutos agrícolas para o porto de embarque de Díli. Fatubesse fazia-me recordar alguma gravura já vista num Livro de Contos de Fadas, certamente lido quando menino, não faltando florestas, bosques, jardins, aves coloridas, água límpida jorrando das rochas e uma atmosfera tão leve como plumas, só faltando o castelo... As seculares árvores de pau-rosa, teca, e palavão-preto, as matas de bambus à mistura com as verdejantes plantações de café, chá, borracha e baunilha, tudo era harmonioso e paradisíaco. Nas copas das altas espécies arbóreas pulavam os mais exóticos exemplares de pássaros tropicais, embalando-nos com os seus maviosos cânticos. Aquele ar límpido e perfumado parecia querer dizer-me que a Vida tinha uma nova Dimensão, coisa até então por mim desconhecida - a Paz do Paraíso - uma vez na vida sonhada, mas sem palavras para a descrever. O Sol escondera-se na linha do horizonte. A meditar e, da varanda da mansão onde me encontrava, fiquei a contemplar o findar do dia em Fatubesse, naquele recanto paradisíaco da ilha de Timor. Os trabalhadores seguiam pelos carreiros, a caminho das suas palapas perdidas na imensidão das matas, após um dia de dura labuta na apanha e secagem do café ou nos barracões da Serração. As catatuas, em bandos sonoros, ocupavam as copas das árvores entoando os últimos cânticos do dia. Vindos das trevas da noite, os primeiros pirilampos faíscavam; os cucos e as corujas soltavam arrepiantes pios marcando as suas presenças nas matas; a torre da capela, cujo sinos acabaram de tocar os angelus, via-se destacada no cimo da colina.
***
Chegara a hora do jantar. No salão, uma enorme mesa de mogno escuro de pés cuidadosamente trabalhados via-se coberta de branca toalha, habilidosamente bordada à mão, com motivos de flores, pavões e ramagens diversas. Encostado a uma parede, uma alta cristaleira de pau-rosa envernizada, exibia os mais finos copos de cristal e várias peças da Companhia das Índias ou China. Os talheres de prata foram colocados nos seus lugares sobre a imaculada toalha com argolas de prata envolvendo os guardanapos feitos do mesmo tecido. O feitor, um homem alto, magro, tez escura, cabelos lisos de indianos, mãos esguias queimadas pelo sol, contrastando-se com os punhos de uma camisa branca, era o anfitrião. O gerente encontrava-se em Díli tratando do embarque de um carregamento de café para Singapura. Entre os pratos de peixe pescado na ribeira e carne de veado assado no espeto, o ancião falou-nos de alguns episódios, ocorridos naquele mesmo local durante a ocupação japonesa e invasão de Timor. Narrava os factos com tal entusiasmo como se tivessem ocorridos no dia anterior. Ouvimos os relatos do desembarque dos nipónicos em Díli, após a tomada de Singapura, pois tencionavam invadir a Austrália, apenas a quinhentos quilómetros da costa sul de Timor. O feitor continuava a narrar: “As populações fugiram para as matas, logo que souberam da chegada dos japoneses, guiados pelas famigeradas colunas negras, formadas de timorenses revoltados contra a administração colonial portuguesa de então, presos fugidos das cadeia e javaneses." Meio comovido, coçando a cabeça num gesto como quem tenta seleccionar os factos menos desagradáveis que atormentam a sua mente.
Da varanda, observei o local de Fatubesse ao anoitecer. A povoação não tinha mais que uma dúzia de palhotas e várias barracões de madeira, cobertos de zinco ondulado, encravados no seio da mata. Mais além, viam-se a casa do feitor, uma cantina e as instalações para os trabalhadores. No topo da colina destacava-se a capelinha caiada de branco, donde se avistava a planície de retalhos de um verde de vários tons, cosidos ao acaso, nas várzeas de néli. Uma escadaria de pedra lavrada dava acesso à casa senhorial - a residência do gerente - quase sempre fechada. Era uma construção antiga, do tipo colonial, com janelas e caixilhos pintados de um branco sujo e já estalado pela humidade. A mansão possuia várias dependências para hóspedes, um largo salão com retratos de famíliares, em molduras ovais de vidros amarelados pelo rodar do tempo. No quintal, ficava a cozinha onde os mainatos cozinhavam o jantar, a ser servido aos "ilustres" visitantes: um capitão e os três alferes da Companhia, pois os soldados estavam aboletados num armazém de café, desocupado. Da varanda, e enquanto tomávamos uma bebida, fui observando as instalações agrícolas, as máquinas de descasque do néli, a Serração e os largos terreiros cimentados onde os timorenses, com ajuda de rodos, empurravam o café e o cacau para a secagem, ao sabor de um sol envergonhado. Os camiões carregados de sacas de café roncavam ladeira acima, a caminho de Díli. Ouvia-se, ao longe, o ruído das lâminas das serras mecânicas rasgando os troncos de pau-rosa e teca, ficando no ar o aroma da resina fresca. O que mais me chamou a atenção foi o esforço dos trabalhadores, de troncos nus, puxando os rodos e carregando às costas as pesadas sacas de café e de cacau para os terreiros, em direcção aos camiões. Essa visão fez-me recordar algo já anteriormente visto em filmes americanos, nas plantações de algodão de um Estado Sulista...Com o Sol já na linha do horizonte, triste e moribundo, parei de meditar. Afinal, o feitor falara da mesma guerra que eu, ainda menino, ouvia contar da boca do nosso caseiro, o Jack, sentados no muro de pedra e cal das Maiamas, em 1946... Escutava o Jack, com curiosidade, quando falava das pranchas queimadas que davam à costa, das boias de vidro azulado e bidons espalhados pelas praias ou dos negros submarinos alemães abastecendo-se de conservas de atum na fábrica do Tarrafal de S. Nicolau. Tão distante [Cabo Verde] e a mesma devastadora guerra infernal que os maus homens inventam...
CAPÍTULO IX
Um dia de violenta tempestade de monção em Hatolia
Outra localidade situada no seio das plantações de café e esguias árvores da borracha lutando-se à procura do mesmo sol, chamava-se Hatolia (pedra que canta). Via-se um caminho aberto no seio das matas de seringueiras da borracha, com as feridas de fresco donde escorria o leitoso látex para recipientes de barro. Musgos, fetos arbóreos e orquídeas selvagens de variadas cores vegetavam num ambiente de verdadeira estufa natural. As trepadeiras de folhas largas parasitavam as altas árvores em perfeita simbiose e a água escorria em sonoras cascatas por entre os inhames. As folhas podres das borracheiras atapetavam o chão de um castanho fofo. Ao fundo, a povoação de Hatolia com as casas cobertas a zinco ondulado pintado de encarnado e ruas pavimentadas com lascas de lajes com as fendas tomadas de ervas. De um dos lados da estrada, uma estação de tratamento da borracha virgem, uma estufa vomitando um espesso fumo pelas fendas das despregadas tábuas, onde os trabalhadores, de corpos suados, retiravam negras placas de borracha que, depois de tratadas e enfardadas, seguiam em camiões para Díli, Singapura e daí para outros centros industriais do Oriente e do Japão.
***
Tarde de tempestade. O céu começou a ficar cinzento e os rugidos das trovoadas ouviam-se ao longe, nas planícies. O ar sentia-se carregado de peculiar humidade e saturado de electricidade. As frondosas árvores agitam os seus altos ramos deixando escapar algumas frágeis vagens e leves penugens prenhes de sementes. Os relâmpagos riscam o céu! Tarde de chuva e tempestade. Era o rabo do tufão “Nerva” que já devastara Filipinas e Indonésia. O vento assobia nas copas das seringueiras. As altas arequeiras baloiçam os seus esguios troncos, seguindo a vontade dos ventos. A chuva cai em fortes bátegas e as ribeiras onviam-se, ao longe, qual leão enjaulado. No ar, aquele cheiro acre de ramos verdes partidos e a terra molhada...O som sibilante do vento abafa as nossas conversas. A companhia divide-se em pelotões e procura abrigo, longe das copas das altas árvores. A palapa onde fico é modesta, de chão de terra batida e divisórias de esteiras de bambu. O vento assobia lá fora arrancando ramos, derrubando as frágeis árvores de madre-del-cacau e vergando os cafeeiros que deixam o chão atapetado de bagos verdes e maduros. O jantar de campanha foi servido à luz mortiça de candeeiros a petróleo. O vento sopra com mais força fazendo baloiçar a chama amarelada que mal nos alumia. A ementa é de frango assado e pombos caçados na véspera, ainda me recordo. Como sempre, a conversa foi parar à invasão da ilha pelos japoneses, fenómena que muito me impressionava. O filho do M.M. narra episódios ouvidos da boca do pai, já falecido. A tempestade fustiga impiedosamente a zona, arrancando árvores que ficam de raízes no ar escorrendo água e lama. Finalmente consegui dormir ouvindo o vento castigando furiosamente as ramadas das árvores. Há sempre um novo dia. Depois da tempestade veio a bonança e um Sol radioso surge no planície elevando-se por entre um denso manto de névoas, subindo rumo às altas montanhas. Pelo caminho, as árvores de raízes retorcidas e de ramos partidos espalham a confusão e destroços. Após o desentupimento da estrada, tomamos o rumo ao nosso Quartel no ermo das matas da localidade interior de nome Nuno Tali...
Uma história comovente - a de D. Jeremias de Lucas - Viqueque
Dias depois, foi a vez do meu pelotão, em exercício, sair para a zona das Lagoas de Seloi - Aileu.
. Fomos recebidos pelo dato do suco com honras militares, prestadas por uma Companhia de tropas da segunda linha (nativa). O chefe timorense exibia uma antiga espada, herdada dos seus antepassados, outrora usada para ministrar a justiça, quiçá, decepando cabeças, como era costume ancestral. Os chapéus dos moradores viam-se enfeitados de penas de galos e sobre a testa, umas pesadas luas em ouro, cinturões guarnecidos com as conhecidas patacas mexicanas, em prata. A Bandeira Portuguesa constituia para os timorenses o símbolo mais vivo de um Portugal de que ouviram falar e ao qual se mantinham cimentados, havia já várias gerações, por uma força invisível [talvez pela Fé que os missionários do antanho levaram para o Oriente-Extremo]. A adoração da Bandeira era levada quase ao fanatismo e por ela, durante a ocupação japonesa, muitos preferiram morrer a terem de entregá-la ao inimigo. Foi sentado à volta de uma fogueira, tendo por fundo as maravilhosas lagoas de Seloi, apenas agitadas pelo pousar esporádico ou levantar dos patos bravos aí existentes, que ouvi uma comovente história de D. Jeremias, o mais destemido guerreiro de um dos mais importantes Reinos da Ponta-Leste da ilha de Timor - O reino de Luca. Falar de Timor sem falar desse herói e mártir seria, sem a menor dúvida, traír a História da ilha e quantos portugueses conhecem-na? Fica a questão? Enquanto os toros de palavão branco ardiam na fogueira acesa no terreiro-lúlic, o dato, fumando o seu cachimbo de raíz de cafeeiro, foi falando, de água nos olhos, dessa trágica e Maravilhosa Página solta de uma História ainda por contar. Assim a relatava:
"- Sabe, malai-alferes, todos os timorenses que durante a segunda guerra guardassem em casa a Bandeira de Portugal - a nossa Bandeira - ou apoiassem os australianos contra os japoneses eram perseguidos, torturados e fuzilados. Quando os nipónicos chegaram a Viqueque, na Ponta Leste da ilha, procuraram o destemido D. Jeremias do Amaral, o Régulo de Luca. "
Um bando de patos passou sobre as nossas cabeças. O dato parou e atestou o cachimbo com erva nova. Depois, continuou:
"- O Régulo, de porte altivo, próprio de um grande Homem, foi mandado chamar junto do comandante das tropas nipónicas, um homem baixinho, atarracado mesmo, falando uma língua estranha e seca terminada em iô-iô..., que um outro militar ia traduzindo para mambai, língua daquela região Leste de Timor..."
- Mas como aprendera o japonês o dialecto da Ponta-Leste? foi a minha pergunta.
- Os japoneses eram muito espertos e antes de invadirem a ilha de Timor andaram por cá durante vários anos como negociantes de madeiras, café e copra, fazendo levantamentos e mapas pormenorizados da ilha e aprendendo também o tétum, mambai e bunac, os principais dialectos do nosso povo. - Mas continuando a história de D. Jeremias de Luca: o Régulo foi ouvindo, com atenção, a tradução feita simultaneamente pelo soldado japonês:
- Onde está guardado esse velho trapo do teu país - a Bandeira?
- Na sua casa? Diga-nos a verdade! Tem ou não a Bandeira de Portugal?
Um oficial japonês aproximou-se de D. Jeremias e gritou:
-Queremos essa maldita Bandeira! O Régulo, muito pensativo, de cabeça erguida e fitando o Sol, que se elevava no ar por entre os palmeirais da planície, de olhos marejados de lágrimas e testa franzida de raiva e impotência por não poder enfrentar os fortes invasores, de tronco firme, como o mastro das primeiras caravelas que demandaram a ilha de Timor, caminhou para a sua casa. Um silêncio de morte! Os minutos passando! Minutos que pareciam horas!
Ouvia-se o cantar dos galos ou o restolhar das folhas secas impelidas pelo vento nas calçadas. D. Jeremias, por entre as muitas latas com lírios floridos de branco e buganvilias roxas enroscadas nos barrotes da varanda, subiu os poucos degraus de pedra lavrada e entrou na sua casa. O silêncio agora era mais opressivo, com a tropa japonesa postada em frente da casa dando sinais de impaciência. Um fumo espesso jorrou da chaminé da casa de D. Jeremias...
Os loricos e as catatuas já não cantavam nas árvores de teca.
O tempo parou.
O Régulo apareceu à porta, desceu vagarosamente a escada de pedras e, caminhou em direcção ao comandante das tropas japonesas, levando as mãos fechadas.
Outro silêncio, ainda mais opressivo.
Como se de comunhão se tratasse, o régulo D. Jeremias abriu as mãos e engoliu as cinzas da Bandeira Portuguesa, perante os olhares estupefactos da tropa inimiga e dos presentes, postados junto do jardim. Do fundo da garganta, o Régulo gritou para todo o Altar do Mundo Civilizado, quiçá, caro eventual leitor, para a História ouvir:
“AO MENOS, MORRO COM AS CINZAS DA MINHA BANDEIRA...”
Conta-se que os próprios soldados japoneses choraram, coisa jamais vista. Os súbditos do Régulo - as gentes de Viqueque - também choraram. Os galos pararam de cantar e os loricos, muito tristes, voaram para a planície, para fora longe daquele maldito local de Viqueque na Ponta Leste da ilha.
- E que fizeram a D. Jeremias? - foi a minha pergunta?
O dato de Seloi continuou a sua narrativa, após acender o seu cachimbo de raíz de cafeeiro:
- "Os japoneses levaram-no para um monte e obrigaram o firme timorense a abrir a sua própria cova. Depois, foi baleado e tombou para a vala que ele mesmo acabara de cavar, jorrando sangue!. Mesmo lá dentro, e não conformados com a barbárie, foi ainda trespassado pelas baionetas nipónicas. O povo viu, o povo chorou o seu herói e mártir! O povo timorense e não o mauber nada podia fazer...
- Se o malai-alferes, algum dia for a Viqueque, [viria, depois, a administrar esse Concelho] não deixe de visitar e ver no Largo da Vila, o Monumento à Memória de D. Jeremia de Luca, mesmo em frente à sua casa", numa rotunda..."
Já era noite fechada em Seloi, quando o chefe acabara de contar esse fragmento verídico da história do régulo e de TIMOR. Estava, também eu comovido e já nem podia ver os patos bravos, vultos escuros, voejando sobre o espelho das águas das lagoas. Desapareciam para longe, como os loricos nas planícies de Viqueque, pressentindo o trágico fim de D. Jeremias - o Régulo de Luca - não querendo ouvir, de novo, a trágica história. A Lua erguera-se majestosa, por entre os tufos de bambus recortados nas altas montanhas. Enquanto apreciava um bom café de laco, fiquei a meditar no que ouvira - essa bela e comovente página da História - desse Portugal , o mesmo que nos ensinaram [bem ou mal, não sei...] ir do Minho a Timor...
O leitor, mais tarde, ao confrontar-se com a trágica sorte dessa ilha mártir, não resistirá em voltar a reler este relato sincero, transcrito como foi ouvido...
O chefe de Seloi olhava para a pistola de guerra que eu trazia à cintura, mas sem se sentir incomodado com a presença da tropa portuguesa, tropa da paz não da guerra. Afinal, éramos uma presença pacífica de portugueses de Cabo Verde ou de Unhais-da-Serra em Timor... Quantos ouviram falar desse herói nacional? Um régulo que trocou a própria vida por um pedaço de pano verde-rubro, já velho, religiosamente guardado no interior da sua casa, num canudo de bambu e durante várias décadas...! Por mais que queirámos, caros eventuais leitores, a História não se apaga assim tão facilmente. Nessa noite, fiquei na cabana do chefe, pensando no dia em que pudesse visitar Viqueque e a casa que fora do régulo. De janela aberta, olhei a calma lagoa, agora cinzenta com o cair da noite. O coaxar das rãs, misturado com o grasnar dos patos selvagens voejando em bandos sobre a lagoa, acordou-me pela manhãzinha. O cacimbo da noite molhara a relva junto à palapa onde me encontrava e dos beirais de capim pingavam gotas sobre as largas folhas dos inhames e bananeiras circundantes e nas verdejantes campinas pastavam pachorrentos búfalos cinzentos, à espera de serem levados para os trabalhos da lavra das várzeas nas planícies. Os cudas, aos magotes, corriam naquela imensa pradaria. Um Sol envergonhado e engolido pela cinzenta bruma da manhã tentando libertar-se e as nuvens lançando as primeiras flechas de claridade para a quietude das lagoas. Várias ilhotas viam-se espalhadas - um paraíso para a nidificação das muitas espécies de arribação. Dos tufos de juncos e viçosos caniços, embandeirados com as altas, esguias e prateadas flores, voavam as graciosas e brancas garças indo pintalgar os lombos lustrosos dos cavalos e búfalos, catando-lhes as incomodativas moscas, numa perfeita simbiose da natureza. Nas alturas, voejavam os leves milhafres e altivos peneireiros, à cata das ninhadas de pintos, que esgravatavam, despreocupadamente, nos montões de esterco retirados dos currais. Deixei as encantadoras lagoas de Seloi, quando o Sol se despedia do dia e os bandos de patos selvagens se aproximavam, em infernal algazarra, do locais das nossas recentes dormidas.
CAPÍTULO X
Na calma e dormente quietude do quartel de Nuno Tali
Quando chegámos ao quartel de Nuno-Tali já era noite de breu e o corneteiro tocava a recolher. O som metálico do clarim ouviu-se por montes e vales, fazendo com que todos os cães das redondezas, incluindo o Bobi mascote da companhia, e o Sting, começassem a ganir. Em redor das fracas lâmpadas, alguns insectos dançavam a dança da morte até ficarem agarrados ao vidro. Na quietude daquela noite, sentei-me na varanda virada para o vale da Gleno contemplando a paisagem da minha predilecção. No horizonte, alguns bandos de corvos procuravam os locais para o pouso da noite, descrevendo círculos cada vez mais fechados. Ao longe, uma fita de luzes riscava o caminho. Eram os faróis da viatura trazendo o SPM [correio militar] de Díli, que servia para mitigar as infindas saudades dos que viviam isolados no mato, longe das suas famílias. O cabo das transmissões, um rapaz bonacheirão, calmo e sempre sorridente, fez a continência da ordem e entregou-me um telegrama acabado de ser recebido no posto das transmissões, que "pi-pi-ava", mesmo ao lado da Messe, um modesto aposento adaptado para tal. Abri o telegrama e li a boa nova do embarque da minha mulher para Timor. O cabo fez de novo a saudação militar, felicitou-me pelo evento e retirou-se para o posto, cujo transmissor, um velho ANGR-C9, continuava a pi-pi-ar, não muito longe. De imediato, fui à procura dos meus colegas alferes, ainda com o telegrama nas mãos. Quis partilhar com eles o meu contentamento. O alferes Marcelino, natural da Madeira, usava óculos de aros de tartaruga e era muito folgazão e jogava às cartas na messe dos sargentos; o Machado, alto, simpático, com físico de atleta, natural de Aveiro, vivia e estudava em Lisboa quando foi mobilizado; o terceiro colega de armas, Casaes de Brito, (já falecido - 2005), o mais reservado de todos, não morria de amores pela tropa, pois vira-se forçado a interromper o curso de Direito para entrar como cadete para a EPI, em Mafra.( veio a ser Juiz desembargador). Queríamos comemorar o evento e fui pedir auxílio ao cozinheiro Mau Loe, entretido a arrumar as louças do jantar, na sombria cozinha da messe. Mau Loe, como sempre, trazia vestido uma lipa, presa à cintura com um cinturão da tropa e ficou espantado com a visita àquela hora tardia, coisa que só acontecia, quando eu tinha a gerência.
Falou o Marcelino, o mais conhecido dos oficiais.
Precisámos algo de especial para um jantar festivo!
- Festa como? Não veio o comandante militar ou major do Sector e o 10 de Junho ou Dia da Infantaria ainda estão longe...
- Melhor! - respondeu-lhe o Marcelino - o nosso colega, alferes Gominho, está contente pois a mulher vem a caminho de Timor e já enviou um telegrama.
-Bem, parabéns é o que Mao Loe deseja - retorquiu o cozinheiro.
- Então, Mao Loe consegue arranjar alguma coisa para a ceia?
- Bem, vamos ver o que Mao Loe "pode faz."...
Ficamos satisfeitos. Sabíamos que cozinheiro, que até já apagara o lume de lenha com uma lata, restando os toros de palavão fumegando à entrada do fogão de ferro, não ia negar o pedido.
Não temos pressa. Toda a noite é nossa - respondeu-lhe o Marcelino, retorcendo o bigode alourado e farto.
- Sim, vou fumar o cachimbo lá fora - disse-nos o cozinheiro - ao lado do tanque de lavagens, refrescando-me do calor...
Mau Loe abriu uma geleira a petróleo da marca GE, e do seu interior retirou um leitão, que estava destinado ao almoço da messe para o dia seguinte. Pouco tempo foi preciso para que ficasse estendido num tabuleiro nadando em aromáticos temperos, que o mestre foi fazendo com alhos, cebolas e mais coisas retiradas de frascos alinhados numa prateleira. Enquanto esfregava o leitão com esses temperos, foi conversando e acendendo o lume do forno de lenha:
Amanhã, não sei o que dizer ao nosso capitão! Os nossos alferes, pela certa, irão comer, outra vez, mais bacalhau assado...
- Não se preocupa Mau Loe, pois temos uma desculpa!...
Sentados na varanda da messe, aguardamos a hora para o início do banquete, bebemos um martini. A noite ia a meio e o gerador de campanha fora desligado às dez, como era das NEPs. Um candeeiro a petróleo, de camisa rota, ficara a iluminar os barrotes de palavão da varanda; o nevoeiro já cobria o vale da Gleno com o seu lençol branco de névoa e, da varanda, via-se a chaminé enfarruscada da cozinha. O fumo pusera em fuga as corujas que lá passavam a noite, após o Mao Loe apagar o lume do fogão de ferro. Fomos lá ver como iam as coisas: uma chama amarelada saía da boca do forno onde ardiam os toros de palavão branco, e o rosto mal iluminado do Mau Loe, sentado a um canto da cozinha e sem poder ir para a sua casa, só para ser agradável aos senhores alferes, bem espelhava a dedicação sem limites daquele homem que servia as Companhias, como cozinheiro, havia anos.
Pesava-me a ousadia em querer levar uma jovem com dezanove anos apenas, nascida e criada em Lisboa, a viver no mato de Timor, só por amor. Com muita alegria na messe, foi servido um bom jantar, naquela noite em que chegou o telegrama, anunciando a vinda da minha mulher. A festa durou até de madrugada. Lembro-me de ter sido acordado pelo cantar dos galos e pela claridade caindo das montanhas e ferindo os vidros das vidraças, ainda pintalgadas pelo orvalho.
Começava a pensar na construção de uma palapa para receber a minha mulher, que, em breve, chegaria a Timor. Não havia alojamentos disponíveis, além do quartel no descampado de Nuno-Tali. A única hipótese era acabar as obras e habitar uma palapa, que pertencera a um alferes recém-embarcado para a metrópole, situada no alto de um morro sobranceiro à Companhia. Necessitava de tábuas, capim para a sua cobertura, lajes para o chão da varanda, cimento e outros materiais. Os soldados do meu pelotão, num gesto simpático que calou bem fundo da minha alma [aqui fica o meu reconhecido agradecimento a todos], trabalharam com afinco para que a cabana ficasse pronta em devido tempo.
Ao lado da minha palapa, bem implantada no meio de uma cerrada mata de cafeeiros, corria uma ribeira cantarolando por entre as pedras em direcção à Gleno. Um canalização fora construida com caleiras de bambus, trazendo a água de uma nascente bem longe. Das janelas viradas a sul, viam-se os verdejantes cafeeiros floridos e um carreiro utilizado pelos timorenses para se deslocarem aos bazares. Era agradável observar as minúsculas flores caindo uma a uma para um chão atapetado de branca relva, e as papaias maduras a serem debicadas pelos pardais, loricos e catatuas. A nossa palapa possuia uma larga varanda com corrrimão de madeira tosca e uma escadaria de pedra, com canteiros onde cresciam viçosas dálias, escarlates cravos e trepadeiras de rara beleza. Quando chegava a noite, um manto de nevoeiro cobria a zona. Era a hora da maior solidão, naquele mato sem fim, de Timor...
CAPÍTULO XI
Pousada de Baucau, na vila com o mesmo nome - Ponta Leste
Com a anunciada chegada da minha mulher, tive de me deslocar Aeroporto Internacional de Baucau, situado na ponta Leste da ilha, distante cerca de duzentos quilómetros da capital, para a receber. O percurso foi feito de Unimog, a única viatura disponível no quartel, e mesmo essa não oferecendo garantias mecânicas para tamanha aventura, por estradas enlameadas e ribeiras caudalosas. Felizmente, o furriel mecânico e meu muito amigo [o Cardoso], gentilmente ofereceu-se para conduzi-la. Partimos de Nuno-Tali pelo cair da tarde passando por Díli, cidade coberta pela neblina e poeiras, e o cacimbo a fustigar os nossos rostos. Nos cabos de electricidade e copas das árvores da marginal dormitavam os vampiros gigantes - quais fantasmas da noite. As ondas vinham lamber preguiçosamente o paredão de cimento esburacado pelas intempéries. Alcançámos Metinaro, atravessando ribeiras com a água a rugir por debaixo da cabine da viatura, que até levava o acelerador avariado e substituído, à última hora, por um arame, operado manualmente. Antes de iniciar a subida do temível morro do Subão - estrada cortada na rocha e com o mar a rugir centenas de metros abaixo - parámos à porta de um barracão das Obras Públicas, para deixar descansar o motor e pôr água no irradiador. Não longe do local, alguns timorenses, acocorados em torno de uma fogueira mortiça, ficaram surpreendidos com a paragem de uma viatura militar, àquela hora, Vieram ver. Do motor saíam fumos brancos da água que já faltava. Um cheiro acre a ferrugem ficou a pairar no ar. Um dos trabalhadores chamou o patrão, que já se encontrava de pé apertando umas calças de velha ganga. Um outro timorense, com um canudo de bambu, atestou de água o sequioso e fumegante motor furado. Da porta da palapa e cachimbo pendurado no queixo, um homem magro, alto, de rosto queimado pelo sol, veio ao nosso encontro, cumprimentando-nos efusivamente. Pela voz, logo me apercebi tratar-se de cabo-verdiiano, pelo sotaque acre do seu falar. Chamava-se Miguel e era natural da ilha de S. Antão. O velho Miguel, embora vivendo em Timor havia um ror de anos, (fora para lá após a guerra, em 1948), ainda não perdera o sotaque característico da ilha natal. Ficou satisfeito com a nossa presença e, para comemorar o inesperado encontro de dois patrícios. Chamou o Mau Bua e mandou grelhar alguns peixes tirados de uma liana baloiçando por cima das nossas cabeças. De uma caixa de cartão, salpicado pelo cimento das obras, retirou algumas cervejas para dentro de um balde com água. Os peixes estalavam nas brasas de uma fogueira e um cheiro a grelhado inundara o ar aguçando o nosso apetite. Enquanto o óleo gotejava avivando as chamas e iluminando-nos com os clarões alaranjados, o velho Miguel, de camisa de xadrez e botas de lona verde da tropa, sentado num improvisado banco de tábuas, de lágrimas nos olhos e mãos sobre os meus ombros, falou-me com nostalgia:
- Dura vida, caros amigos. Cheguei a Timor em 1948, logo após à saída dos japoneses, quando perderam a guerra e deixaram a ilha em cacos. Tenho vivido em barracas com esta, à borda das estradas e das obras, e a minha família está em Díli, numa palapa, lá para os lados da ribeira de Comoro.
O velho Miguel retirou um lenço já amarelado pelo pó da obra e, discretamente, tentou enxugar as lágrimas que, teimosamente, queriam rolar pela sua face e foi falando:
- Desculpem-me! São de saudades... Mas, como vos ia dizendo, vim parar a Timor em 1948, pois Cabo Verde não tinha trabalho e contratavam-se pessoas para as roças de São Tomé, para lá irem morrer de paludismo. Se ficasse na terra, o meu destino talvez fosse ainda mais triste e para fugir num barco qualquer já me sentia muito velho. Que saudades da groguinha de S. Antão, acabada de pingar dos alambiques na ribeira do Paúl. Agora, estou aqui, em Timor, onde espero deixar os meus ossos - terra boa que me acolheu num momento de desesperança. O velho Miguel parou de falar; acendeu um cigarrinho de palha de milho e fumou-o, avidamente, com nervosismo mesmo. O furriel mecânico ofereceu-lhe um dos bons. Eu continuava a mirar um tronco de palavão ardendo lentamente na fogueira e as cinzas rolando sobre as pedras que sustiam um bule de folha, com café. Ao longe, o mar, e eu meditando na dura vida desse meu bom patrício Miguel. Olhei para dentro da barraca das obras - a casa do velho capataz - na isolada encosta do Subão. A noite estava quente e, à nossa frente, as negras rochas à espera da força dos braços manejando as pesadas marretas de ferro, debaixo de um sol tropical ou impiedosas chuvadas da tarde. Não muito longe do local, as ondas fustigavam as rochas da costa, ribombando, em surdina, pelos vales acima. O ancião Miguel, de cabelos esbranquiçados:
- Sabe, patrício, continuo com muitas saudades da nossa terra, da cachupa, do caldo de peixe com mandioca, das festas populares de S. António, S. João e S. Pedro. Quando cá cheguei, em 1948, a cidade de Díli estava totalmente destruída pelas bombas lançadas pelos japoneses e australianos. Só havia uma casa de pé - a casa branca - lá pelos lados da Sota. As bombas abriram crateras que, depois cheias pelas águas das chuvas, eram os locais preferidos dos mosquitos de febres e abrigo para os gigantes e temíveis bichos jacarés.
A nossa viatura estava pronta para seguir viagem e o velho Miguel:
- Pouca gente reconhece o contributo dado por esses desconhecidos cabo-verdianos, obreiros da reconstrução de Timor, após a guerra: funcionários públicos, mestres de obras, professores, pedreiros, carpinteiros e mais profissionais. Sem essa gente e a acção dos missionários, a vida na ilha não teria sido regularizada como foi; o porto estava atravancado de barcaças afundadas, não havia nem electricidade, nem ruas asfaltadas. O tempo passa, as pessoas morrem e nem os próprios filhos ficam a conhecer o árduo trabalho realizado pelos pais, em prol desta boa terra do meu Timor...
O velho Miguel bateu-me nos ombros, por cima da farda de camuflado, quando subi para a viatura, naquela madrugada, a caminho de Baucau, ao encontro da minha mulher que, àquela hora, já teria chegado a Darwin, no Norte da Austrália, proveniente de Lisboa. Fui pensando... A viatura arrancara aos solavancos, mas ainda tive tempo de ver as escuras mãos do ancião Miguel dizer-me um adeus. Eu e o furriel mecânico seguimos rumo a Baucau, deixando a íngreme estrada do Subão, com o mar rugindo uma centena de metros mais abaixo, passando por Laleia e Vemasse, com o cansado e barulhento motor a perturbar o silêncio da noite. Já no planalto de Baucau, alguns vampiros atraídos pelos faróis vieram roçar com as suas largas e pretas membranas alares no pára-brisas e capota de lona da viatura, soltando os seus lúgubres pios de arrepiar as nossas espinhas. Uma árvore despida da sua folhagem, mesmo à beira da estrada, via-se pintalgada de negro, tal a quantidade de vampiros nela pousados. O Sol estava quase a nascer por entre os palmares, quando desligámos o motor, que já deitava fumo. Da varanda da Pousada de Baucau, avistava-se uma calma e azulada baía, bem como o casario branco da vila, distribuído em curvas pelas encostas pintalgadas de buganvilias e de malmequeres floridos de amarelo. Nos canteiros dos jardins, misturavam-se as rosas, os cravos, as dálias e as zínias de variadas cores. Mais abaixo, uma piscina de água calma e transparente onde se reflectia o cromado das escadas e as copas do arvoredo circundante. A sala de jantar, de aspecto rústico, estava ao lado de uma gaiola gigante, albergando as mais exóticas aves canoras do oriente, debicando algumas papaias esventradas e espalhadas pelo recinto. A cobertura de capim via-se sustida pelos grossos caibros de palavão preto, atados com cordas, como era costume em Timor. Nas escadarias da Pousada viam-se as flores de cristas-de-galos e as hortas com bananeiras e ananaseiros. No ar límpido daquela manhã, mais uma vez, senti o inebriante cheiro a café acabado de fazer e vi turistas autralianos olhando em redor, com a curiosidade de quem queria conhecer algo nunca visto. O Aeroporto Internacional de Baucau situa-se a pouco quilómetros da vila, num planalto de terra encarnada. Ao lado da pista, uma modesta construção servindo de bar. Havia uma modesta aerogare e bancos para passageiros em trânsito. Não muito longe, jaziam por terra as enferrujadas e abandonadas máquinas que serviram para a construção da pista: britadeiras, caldeiras, cilindros e escavadoras gigantes, objectos agora inúteis. Manhã clara, ar lavado no planalto de Baucau e um céu com farrapos de nuvens. Ansioso, aguardava a chegada do avião que já partira de Darwin, Norte da Austrália. Momentos de espera, que pareciam anos, e no horizonte um ponto brilhante tomando forma de avião. Era um aparelho dos TAA a fazer-se à pista. Pelas janelas ovais, via passageiros olhando o exterior e hospedeiras sempre com um sorriso no rosto. A minha mulher foi dos últimos passageiros a desembarcar. Corri para ela e abracei-a. Deixámos o aeroporto rumo à Pousada de Baucau, em “lua-de-mel”, por uma semana, finda a qual me apresentaria no quartel, em Nuno-Tali. A semana, depressa findara, e estávamos ouitra vez no aeroporto de Baucau para a viagem até Díli, a ser feita num dos pequenos aviões dos TAT. O aparelho levantou voo. A pista - qual faixa de asfalto cortando o planalto de Baucau - foi ficando para trás, ao som compassado e vibrante dos motores do pequeno aparelho. Os vales, as ribeiras, as montanhas e as planícies, tudo à escala reduzida, desfilavam pelas janelas do avião. Após uma meia hora de voo, surgiu Díli, por entre a neblina das manhãs. O aparelho curvou junto à ribeira de Comoro passando sobre coqueiros e arequeiras do Bairro-Árabe fazendo-se à pista de asfalto, traçada num verdejante capinzal. Um Jeep do exército estava à nossa espera e partimos para o interior da ilha de Timor, para a região de Nuno-Tali.
CAPÍTULO XII
Aconteceu uma tragédia na diligência militar de Hatolia
A diligência militar de Hatolia ficava no meio de uma plantação de café e borracha, instalações dispensadas por um conceituado agricultor da zona, senhor M. Inglês, homem de fino trato, conhecedor da ilha e dos seus problemas e dirigia as suas plantações e a criação de gado, gozando de muita estima junto dos militares e população civil da zona. A diligência ocupava dois barracões cobertos a zinco. Eu e a minha mulher ficamos numa das dependências da casa desse senhor amigo, mesmo no centro da vila. Todas as manhãs, uma viatura levava-me à Diligência, seguindo por uma picada aberta entre cafeeiros e matas, onde as orquídeas floridas encontravam o seu habitat. Aconteceu numa quarta-feira, dia da chegada do correio de Díli. Na Diligência, no meio de matas de cafeeiros, o calor e a humidade faziam com que os soldados descansassem na caserna, ou a escrevessem os últimos aerogramas, que a viatura levaria de volta ao SPM [correio militar]. Um dos soldados do meu pelotão - o Bolinhas - assim chamado por ser baixo e gordo (quase todos tinham alcunhas), ultimava a carta para a namorada que deixara em Portugal. Na cozinha, ao lado da caserna, um velha dependência da herdade, os panelões fumegavam com o bacalhau a cozer para o almoço. O cabo do rancho distribuia o vinho pelas jarras espalhadas nas mesas e as ramadas das mangueiras avançavam para a sala proporcionando uma refrescante sombra ao local. As catatuas e as cigarras quebravam a quietude do mato, naquela manhã quente de uma quarta-feira - dia da chegada do correio. Uma manga madura caiu, com um baque surdo para o zinco da cobertura do refeitório, ruído que me fez recuar aos tempos de menino, quando, brincando no jardim da Passagem, corria escadaria abaixo para chegar primeiro à manga que tombara na relva do canteiro. A viatura chegara à diligência militar e de um saco de lona verde, o cabo do SPM foi retirando os vários pacotes, cartas, aerogramas, distribuindo-os aos destinatários, que o rodeavam com curiosidade. Os felizes contemplados espalhavam-se pela caserna e sombras quartel, lendo avidamente as cartas, os aerogramas e os jornais da terra ainda a cheirar a tinta fresca. Outros estendiam-se pelas camas, de botas apoiadas nos ferros das cabeceiras. Liam, reliam, abraçavam e beijavam o papel das cartas recebidas. O corneteiro preparava-se para tocar a rancho. Alguns soldados, os que não receberam cartas, eram motivo de chacota dos seus colegas:
- Já te esqueceram!...Passaram-te a perna!... e mais dichotes...
Via-se nos rostos daqueles rapazes - meus companheiros - uma tristeza sem fim, só avaliada por quem já andou longe da família e no mato... A quietude do meio-dia foi cortada por um estampido de arma de fogo, vindo da caserna dos soldados. Os pássaros empoleirados nas árvores fugiram para as plantações de cafeeiros e de borracha. Pus de lado a carta recebida dos meus pais e dirigi-me à caserna. Encontrei a G3 ainda fumegante nas mãos do soldado Bolinhas, que estava deitado na cama com um ferimento de bala no pescoço. De imediato, entramos em contacto com a Companhia, que enviou uma ambulância. Como a viatura não chegava, metemos o ferido num Unimog e fomos de desencravar a ambulância, atascada na lama do caminho. Transportado para Díli, o ferido foi internado no Hospital Militar e assistido por uma boa equipa de bravos médicos militares. Salvou-se...
O Bolinhas recebera nessa manhã uma carta de um amigo da terra contando que tinham gasto o dinheiro das suas economias que mensalmente transferia para Portugal, e que "alguém" andava com a sua namorada. Os comentários jocosos dos colegas fizeram com que o rapaz, que semanas antes estivera com o paludismo, perdesse a cabeça, disparando a arma contra a própria pessoa, momentos depois de ter retirado do carregador todas os cartuchos, eram muitos, deixando apenas um, o que utilizou...
Um manto de tristeza caiu sobre a Diligência, onde todos viviam em família.
Sentei-me a um canto da varanda, donde se avistava uma planície cultivada de verdes várzeas de arroz. A tarde chegara, os grilos batucavam nas fendas e os pombos bravos, saltitando de copa em copa, procuravam o melhor local para a noite. Na parada aberta no seio do mato alguns grupos de soldados comentavam o facto mais relevante do dia. O cheiro a pólvora, misturado com o perfume das brancas flores dos cafeeiros à procura de mais sol, ficou-me na memória. Pensei naqueles bravos rapazes [soldados do meu pelotão], longe das suas famílias, enfrentando o calor, os mosquitos e a solidão, defendendendo a Bandeira que, diariamente, era hasteada num mastro de arequeira bem no centro da parada, onde, com pedras, cacos e garrafas contruíram um jardim de belas flores, com quinas e um viva Portugal! Era o tal Portugal, "do Minho a Timor..."
O vento da planície varria a varanda fazendo cair alguns flocos de capim e levantando a terra amarelada da parada. O Sol iluminava as várzeas salpicando as campinas de um verde vivo. A minha vista conduziu-me a um horizonte sombrio, às longínquas e belas montanhas azuladas da Indonésia...
A viatura chegara à Diligência para me levar de regresso à povoação de Hatolia, onde minha mulher, recém-chegada a Timor, esperava-me para o jantar, à luz de um candeeiro a petróleo. As lojas chinas estavam abertas. Algumas faixas de claridade saíam pelas frestas das portas indo morrer nas calçadas de negro basalto e muros caiados de branco. O cacimbo já gotejava dos beirais e das chapas de zinco. Os morcegos, vindos dos lados das estufas da borracha, davam início à caça dos insectos noctívagos, em voos rasteiros e rápidos...
Era o anoitecer, nesse trágico dia, na diligência militar de Hatolia, situada no coração da silenciosa mata da ilha de Timor...
N.A.
O Bolinhas recuperou-se bem mas viria a falecer em Portugal, vítima de acidente de viação. O Miguel,. atrás referido, viria a falecer em Timor, aquando da guerra civil.
CAPÍTULO XIII
Natal na mata de Timor, findava o ano de 1964
Chegara o Natal. O último que ia passar com a Companhia de Caçadores º 456, antes dela terminar a sua missão de serviço em Timor, e regressar à metrópole. Na Diligência, o furriel Duarte pintou numa das paredes do refeitório, uma cena alusiva à época natalícia. Como não havia pinheiros, os soldados foram à planície buscar ramos de casuarina - uma planta da mesma família. O padeiro fez um bolo-rei com frutas de latas, não havia cristalizadas para o bolo! Os ramos das casuarinas ocuparam um dos cantos do refeitório indo parar às chapas de zinco ondulado do tecto. Os furriéis compraram alguns enfeites natalícios nas lojas chinas da vila. O recinto ficara engalanado com ramos de palmeiras e cachos de orquídeas selvagens de várias cores, colhidos na mata. Sobre as toalhas, muitos bagos de café maduro, substituindo as tradicionais bolinhas de azevinho, de folhas rendilhadas. Na cozinha, a lenha húmida ardia com dificuldade deixando escapar um espesso e acre fumo que vinha castigar os nossos olhos. Reinava a alegria da triste noite do Natal! As lembranças enviadas pela Cruz Vermelha e pelo Movimento Nacional Feminino foram depositadas ao pé da casuarina, que deixava caír para o chão as suas minúsculas pinhas. Os leitões, os cabritos bem barrados de molho de piri-piri e as terrinas com batatas fritas aguardavam-nos, no interior do refeitório. O Sol lançara os últimos raios sobre as vastas planícies de Hatolia. Alguns soldados, sentados nos muros cobertos de musgos, conversavam, animadamente. Em que pensariam eles? Nas famílias que ficaram lá longe nas recônditas aldeias da serra? Nas filhoses que a avó fazia, ou na neve caindo lá fora na Serra, enquanto assavam castanhas no interior das casas de pedras, ao lume das pinhas secas, iluminando os rostos felizes e enrugados dos seus familiares. Aproximei-me de um soldado, o Caldas, assim denominado por ser daquela região. Estava de sentinela à porta da Diligência, junto à estrada. O cacimbo caía e estava de guarda, enquanto estivéssemos na ceia do Natal. O corneteiro tocara a rancho. O som metálico da corneta ouviu-se pelos montes, vales e florestas. As sombras dos cafeeiros, pendentes sobre a estrada lamacenta, pisada pelos búfalos nas suas caminhadas para as várzeas, tornavam-na mais triste e isolada a localidade. Era noite de Natal, noite triste na Diligência da Hatolia. O Caldas seria o último a tomar a ceia e teria de o fazer sózinho, logo que fosse rendido, pois era ele quem velava pela segurança dos colegas que se encontravam no refeitório, bem no interior do aquartelamento. As luzes dos candeeiros a petróleo rasgavam a escuridão lançando figuras fantasmagóricas nas paredes caiadas de um branco, já salpicado de musgos, fungos e líquenes. Com nostalgia, o Caldas foi contando como era o Natal na sua aldeia. Hatolia não era região fria, antes pelo contrário, recebia o ar quente vindo das planícies, mas, nessa noite aparecera um nevoeiro cerrado. No refeitório, tudo pronto para a ceia e os soldados viam-se calados e pensativos. O cabo do rancho foi distribuindo o vinho tinto, retirado dos garrafões que chamavam de "braços-quebrados" por terem os gargalos protegidos por uma cinta de gesso. As fumegantes travessas começaram a chegar da cozinha, transportadas pelo cozinheiro de fraldas de fora e a testa alagada em suor. Afinal, foi ele que teve todo o trabalho, numa cozinha exígua, quente e sem condições. Enquanto decorria o jantar, um furriel distribuia as prendas, chamando os soldados pelos nomes. Os pacotes eram desfeitos e os papéis pardos atirados para o chão. Viam-se isqueiros, peúgas, livros policiais, cigarros e blocos de aerogramas. As garrafas de tuassaba passavam de mão em mão, bem como as Macieiras de Lisboa. As tristezas, o isolamento e as saudades ficaram, por momentos, esquecidos. Chegara a hora do Caldas ser rendido, à porta do aquartelamento. Pousou a espingarda G3 no muro e entrou para o refeitório, agora em perfeito desalinho, para comer... Sacudiu o cacimbo do boné de camuflado e acomodou-se a um canto da sala numa mesa apinhada de pratos, ossos, travessas vazias e copos ainda com restos do vinho. Ele estava mais triste e solitário de que quando lhe falei na estrada de guarda à Diligência militar. O nevoeiro entrava pelas meias-paredes do refeitório deixando as ramadas das casuarinas envoltas num manto branco, quase que imitando os nevões, que muitos conheciam das serranias das suas terras. Falei-lhe. Não comia. Soluçava a um canto, relembrando-se da família, muito longe e nada pude fazer que pôr-lhe as mãos sobre os ombros molhados do camuflado molhado pelo cacimbo da noite, numa noite do Natal, na diligência militar de Hatolia. Estava prestes a findar o ano de 1964. Na vila de Hatolia e em casa do senhor Mascarenhas Inglês, a minha mulher aguardava-me, impacientemente, para o jantar. A casa era grande, do tipo senhorial. No quintal, a azáfama dos mainatos ainda maior. Os camarões vieram das ribeiras e os peixes das lagoas. O forno grande do quintal estava aceso. As labaredas, saídas da sua bocarra, iluminavam a noite do Natal. Pelas ruas, circulavam alegremente muitos timorenses. Outros caminhavam para as suas casas escondidas nas altas montanhas ou matas de bambus, levando as prendas compradas nas lojas chinas. Os panchões estalavam nos quintais, fazendo estremecer os vidros das vidraças e lançando relâmpagos nas paredes caiadas de branco. Na sala de jantar do senhor Mascarenhas, a mesa estava pronta para a ceia do Natal. Ao centro uma fruteira de fina louça, com as mais variadas frutas tropicais; os talheres e os copos brilhavam à luz dos pétromaxes, colocados nos cantos da sala. Da cozinha chegavam os aromas dos leitões assados no forno e da caldeirada de enguias apanhadas nas ribeiras, não falando nos frangos e pombos bravos de churrasco, esfregados com molho de piri-piri e sumo de limão. Os convidados chegavam e acomodavam-se à vontade na larga varanda, em cadeiras de rota. Os mainatos transportavam as bandejas com garrafas, copos e baldes com gelo. Um gira-discos e duas colunas tocavam músicas natalícias. Uma árvore de Natal ia espalhando luzes multicores, enquanto os pirilampos, do lado de fora dos vidros, faíscavam ao desafio. Noite de Família, noite de festa. Lá longe, na Diligência, o corneteiro tocava, a essa hora da noite do natal o toque a silêncio...
N.A.
O furriel Duarte viria a falecer em Lisboa, vítima de atropelamento, na Avenida 24 de Julho, junto ao viaduto de Alcântara, sendo pisado por dois automóveis
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CAPÍTULO XIV
De serviço militar na Vila de Aileu - Campanhia Caçadores nº 21.
Finda a estadia na Hatolia, o meu pelotão regressou ao quartel de Nuno-Tali. A Companhia 456 estava prestes a embarcar para a metrópole. Fiquei mais um ano em Timor, como oficial voluntário, para poder assegurar a passagem de regresso para a mulher. O embarque da Unidade deu-se em Maio de 1965, e fui colocado na C. Caç.21, em Aileu. Foi um problema encontrar uma casa, mas consegui, finalmente, arrendar uma de palapa, nos arredores da vila, abandonada por constar haver uma jiboia a viver no seu forro, razão que levou o anterior inquilino - um alferes, meu colega - a deixá-la, meses antes. O chão era de cimento, a cobertura de capim e a casa de banhos uma palapa construída ao lado. Das janelas, avistavam-se a vila, o quartel, a estrada para Maubisse, as várzeas e as ribeiras sulcando a densa vegetação de casuarinas. A negra noite chegava repentinamente e o nevoeiro descia das montanhas tapando a urbe com um manto branco e leitoso. De regresso à casa, após um dia passado no quartel, encontrava minha mulher sentada numa cadeira de lona, só, isolada, perdida naquele mato denso, lendo mais um livro da Biblioteca da Companhia. Um candeeiro a petróleo iluminava a sala e o ar húmido infiltrava-se pelas frestas das portas e janelas. Lá fora, o capim molhado pelo cacimbo agitava-se ao sabor da forte arargem do fim das tardes. A humidade ficava agarrada às coisas e pessoas. De madrugada, acordava-me sentindo o forro da casa a baloiçar com o peso da jibóia. Acendia uma laterna de pilhas e com o foco varria os quadrados de cartão prensado manchado de bolores tentando, em vão, localizar o réptil à caça de ratos pelo ondular do cartão. A jiboia fez-nos companhia por três meses. A minha mulher só veio a saber do facto, quando mudámos para a diligência do Remexio, situado a pouco mais de cinquenta quilómetros de Aileu.
***
Após uma permanência em Aileu, fui parar à diligência militar do Remexio, localidade sobranceira à cidade de Díli, donde se avistava o mar azulado e as ilhas de Flores e de Ataúro. Ficamos numa velha casa de paredes brancas, antiga residência de um chefe tradicional; o acesso ao local fazia-se por uma picada bastante íngreme aberta no seio das florestas de palavões. Alguns muros cercavam o recinto com vários pés de maracujás cobertos de aromáticos frutos roxos. Uma flora exótica cobria tudo da encosta até às planícies e uma diversidade de animais habitavam as matas. Os macacos saltitavam, numa gritaria infernal. A povoação, sede do posto administrativo, ficava a poucos quilómetros da diligência. O administrador do posto, homem de fino trato e que muito nos ajudava na aquisição de frescos e carnes, vivia numa moderna casa, cercada de lindos jardins floridos, que gostava de mostrar. A partir da povoação não havia estrada e qualquer visita ao interior só a cavalo por carreiros abertos nas matas. Patrulhávamos a zona levando alguns garrafões de vinho e aguardente aos chefes tradicionais, prendas bem aceites, além da marmelada para a acção psico-social junto da garotada correndo de livros e cadernos por debaixo dos braços. Certa vez, instalámo-nos na residência do Dato. Para ele era uma honra ter no seu reino a tropa portuguesa e falou-nos da ocupação japonesa da ilha durante a guerra e do amor à Pátria, simbolizado pela Bandeira, guardada religiosamente num canudo de bambu amarelado pelo tempo e defendida dos ratos e dos nipónicos. Os soldados encostaram as armas e prepararam as tendas para a noite. Não havia guerra. A nossa presença era de Paz. O Dato, de idade avançada, cabelos brancos, barba de muitos anos, olhos vivos e mãos escuras, trajava lipa e blusão militar, já coçado pelo uso. Sentado numa cadeira de lona, segurava, com mãos trémulas, um copo amarelado pelo tempo. Bebia connosco. A noite estava de volta. Do lado da montanha vinha o cacimbo. A costa via-se ao longe, com alguns pontos brilhantes dos beiros nas fainas da pesca. O chefe queria mais um cálice da nossa bebida, enquanto esperávamos que o jantar fosse servido na sua casa branca. Reservou-nos um veado no espeto, acompanhado de arroz branco cozido a água-e-sal e inhames fritos. O catuas, de olhos brilhantes, foi-nos contando as agruras da sua vida, durante a severa e triste ocupação.
- Quando eles desembarcaram na baía de Díli - apontava-nos o local com os dedos - viam-se os clarões das bombas; os cinzentos barcos de guerra dos japoneses, em frente a Ataúro, disparavam os seus longos canhões... Por momentos, parou para pedir mais um cálice da bebida de Lisboa.
-" Os japoneses eram maus. Nada perdoavam. Imagine, senhor alferes, quando se foram embora mataram todos os seus descendentes, só para não deixarem sinais da sua passagem por esta terra de Timor... Apoderaram-se dos nossos haveres: ouro, patacas mexicanas, milho, arroz e até mulheres.
O cheiro a churrasco vinha até nós. Os sassatis eram alinhados nas travessas enfeitadas com folhas frescas de inhames. Uma pálida Lua nascera por entre os ramos negros dos palavões pretos, que circundavam o pequeno aglomerado de casas. A luz prateada, reflectia-se nos retorcidos troncos, fazendo-me recordar a minha meninice, quando via aquele mesmo pálido disco, sem vida, surgindo por detrás do Morro do Lombinho, na vila da Ribeira Brava, em São Nicolau de Cabo Verde. O Dato adormecera na sua cadeira de lona, tendo ao lado o seu cachimbo. Os soldados, com excepção da sentinela, foram dormir. No dia seguinte havia mais caminho para percorrer até chegarmos ao próximo suco. Já no Remexio, a curiosidade levara-me a ver o local onde funcionara um ninho de metralhadoras dos japoneses, dominando a curva da estrada. Lá do alto, pensei nas muitas vidas inutilmente ceifadas numa guerra sem tréguas e estúpida, como todas as guerras. As ilhas de Flores e a do Ataúro vigiavam a calma baía de Díli. Sentado a um canto da varanda, ligava a BBC, Voz da América, Rádio Austrália ou Emissora Nacional de Lisboa. Era assim o Paraíso Perdido (Timor)...Faltavam poucos dias para o nosso primeiro filho nascer. A minha mulher seguiu para Díli. Fiquei no Remexio, por dever de ofício, na qualidade de militar, preenchendo os tempos livres e à espera da boa nova do nascimento do primeiro filho. Foi a dezasseis de Dezembro de 1965, na Maternidade do Hospital de Lahane, em Díli e viria a chamar-se Adriano Rui.
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FIM DO PRIMEIRO VOLUME [1963-1968]
II- VOLUME
TIMOR DA ÁRVORE LULIC (Sagrado) - ETNOGRÁFICO
[1968-1974]
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(a p o n t a m e n t o s)
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CAPÍTULO I
O outro Timor - Etnográfico, de antes do 25 de Abril de 1974
Pisava, pela segunda vez, a ilha de Timor, não como tenente miliciano, mas sim como administrador de posto do quadro administrativo, cargo cuja posse me fora conferida no então Ministério do Ultramar, no Restelo, em Lisboa, em 1968. À chegada à ilha, como era habitual, fui colocado no posto de Fohorém, na fronteira com o Timor indonésio. Acompanhado da mulher e dois filhos, deixei Díli a caminho de Suai, Sede da Circunscrição de Cova Lima, na costa Sul da ilha. Desta vez, a viagem teve lugar num monomotor pequeno dos TAT, que sobrevoou a baixa altura as localidades de Ermera, Hatolia (já minhas conhecidas aquando do serviço militar), as imensas planícies do litoral Sul e as enrregudas montanhas. Em baixo, passava a larga ribeira da Tafara, de água barrenta colorindo uma boa faixa da foz, num mar azul-esverdeado. Numa pista de terra batida coberta de capim rasteiro e verdejante, pastavam manadas de búfalos e cavalos, que tiveram de ser afastados do local pelo morador de serviço, para que o avião, aos solavancos, fizesse à pista. Os animais soltos ainda olharam para o estranho pássaro mas depois fugiram para a mata. Crianças de tronco nu, pés descalços e olhos vivos vieram ver o tal pássaro de lata, que, momentos antes, cruzara o céu. Uma improvisada escada foi ligada ao avião. Eu, a minha mulher Teresa e os dois filhos, Adriano Rui e Paulo Jorge descemos para a verde superfície de relva cobrindo a pista de Suai, na costa Sul.
Começava um novo capítulo da minha vida em Timor. Era a primeira vez que chegava às terras do Sul. Um calor tropical inundava as planícies cultivadas de soja. Os palmares dominavam a paisagem e sobre as nossas cabeças os enormes cachos de cocos baloiçavam ao vento. Suai era a principal zona produtora de copra da região, uma das maiores riquezas da ilha, a seguir ao café de Ermera, Lete-Foho e Hatolia. A estrada via-se marginada de árvores de teca, [matéria prima para a construção das caravelas], espalhando frescura com as suas largas e rugosas folhas manchadas pela poeira do caminho. A viatura, que nos conduzia ao povoado, rolava atrás de uma nuvem de poeira levantada por um camião china carregado de sacas de copra exalando um odor característico. Chegámos ao povoado de Suai. Um pequeno aglomerado de casas de palapa cobertas a zinco ondulado, algumas lojas chinas e um largo de terra batida onde alguns cudas aguardavam mercadorias para as montanhas do interior. Após ligeira pausa para refrescar, de Suai seguimos para Fohorém - o Posto de destino. A viatura era conduzida pelo catuas Mau Quinta - homem conhecedor das picadas e perigos que espreitavam em cada curva. Nas bermas, as casas de palapa, as hortas de milho, feijão e arroz da montanha. A primeira povoação encontrada foi a de Tilomar, situada num planalto donde se via a costa virada para Darwin - Austrália, e a ribeira de Tafara correndo vagarosamente para a foz. Nas planícies, pintadas em vários tons de verde e amarelos, pastavam bois, búfalos, cavalos, alguns veados indiferentes à nossa passagem. As árvores de sândalo e de pau-rosa cresciam num emaranhado de bambus espinhosos. Junto à picada, as árvores da sumauma, de troncos rugosos e desnudados, deixavam caír os seus frutos e flocos de fina penugem que o vento se encarregava de espalhar. Outras árvores exibiam fantásticos cachos de flores rubras, talvez adocicadas pela quantidade de pássaros deitando por terra as suas coloridas pétalas. Do alto de Tilomar e residência do então administrador de Posto Clementino, hoje alto funcionário na Indonésia, avistava-se o posto de Fohorém, perdido na base de uma cordilheira, cujo monte mais alto - o da Boneca - [Fohorém] - assim denominado pela semelhança com o rosto de uma mulher deitada, o que deu o nome ao local. No alto do morro, o vento uivava nos ramos das casuarinas e ouvia-se o ruído longínquo das ribeiras correndo pelos vales profundos e rasgados nas montanhas cobertas de florestas virgens. Mau Quinta conduzia um Land Rover, com a sua habitual perícia, desviando-se dos buracos e das raízes salientes do solo. Chegamos ao posto. Um casarão do tipo colonial, com duas dezenas de aposentos, construído após a segunda guerra mundial, para aí receber as autoridades holandesas, que, na altura, colonizavam o outro lado da ilha de Timor, obra megalómana, apanágio dos colonizadores de então.
CAPÍTULO II
Recepção
Os chefes, vindos dos sucos de Dato-Rua e de Dato-Tolo, com as suas vestes tradicionais e guerreiras, acompanhados dos seus leais moradores dos Reinos, bailarinas e muito povo em geral, aguardavam o novo chefe de posto, lugar vago havia já algum tempo, pelo facto do local ser inóspito, numa zona fronteiriça com o Timor indonésio e, por isso, pouco desejado. Só um funcionário recém-chegado à ilha [meu caso] poderia tê-lo por prenda... Houve toque de tan-tans e tébedais pela noite fora, no largo fronteiro à sede, após jantar de recepção oferecido pelos chefes.
A minha primeira visita foi à vila: uma loja china com as prateleiras de caixotes vazios, alguns cortes de tecidos, canecas de esmalte, mantas de algodão e pouco mais. Um posto de socorros instalado numa velha palhota e uma central telefónica ao lado de um alpendre onde estavam guardadas as urnas com restos mortais de portugueses mortos pelos japoneses durante a guerra, esperando descanso final nas terras de origem- Portugal! O largo fronteiro à loja servia para o bazar semanal e lutas de galos. Fohorém era um local triste, isolado, monótono e montanhoso. As árvores de sumauma, quase sempre despidas, soltavam uma fina penugem que ficava a pairar em brancos flocos. As árvores de camim [variedade de nogueira brava] que serve para óleos, abanavam os ramos fazendo chocalhar os cachos de nozes, num som monótono, misturado com o cantar estridente das cigarras nas acácias do caminho. Ao meio-dia, uma calma sepulcral envolvia Fohorém. Alguns milhafres voejavam com lentidão aproveitavam-se das correntes quentes dos vales para caçar pintos ou ratazanas dos campos. Sentado numa cadeira, na varanda, observava, nostalgicamente, os cinzentos montes estendendo-se até ao longínquo território indonésio. A minha mulher, professora, leccionava à garotada, numa improvisada escola, onde tudo faltava, menos a vontade de ensinar e de aprender. Foi em Fohorém, localidade perdida nos recônditos da ilha de Timor e encravada no território indonésio, onde estivemos por três longos anos, isolados do resto da ilha quando chovia e a ribeira de Tafara não dava passagem. Como autoridade, representava o Governo junto das populações locais, tudo fazendo para manter a paz na zona - tarefa dificultada pelas incursões de ladrões de gado nas fronteiras e que originavam sérios incidentes, às vezes com mortes, de ambos os lados da longa fronteira.
CAPÍTULO III
Num recenseamento anual para o Caderno Eleitoral
Anualmente, por imposição legal, era realizado o recenseamento da população nos sucos e povoações do Posto, para a actualização do Caderno do ano anterior. Registavam-se óbitos, nascimentos, barlaques, e todos os bens existentes: hortas, casas, plantações de café, pés de coqueiros e a riqueza pecuária: búfalos, porcos, cabras e cabritos. O recenseamento fazia-se em ambiente de festa comparecendo todos os residentes: novos, velhos, mulheres e crianças. Era uma festa! Os chefes abatiam búfalos, cabritos e leitões para dar de comer aos recenseadores e recenseados - operação, que, por vezes, durava uma semana ou mais, dependendo do número de contribuintes. As bailarinas dançavam e cantavam em ambiente de verdadeira alegria e harmonia, ao som dos tantans, que nunca paravam de tocar dia e noite. Exibiam-se os seus coloridos trajes regionais timorenses, garridos panos que todos conhecem. Era a partir desse Caderno de Recenseamento que se extraíam valiosos dados estatísticos para a governação: como saldos fisiológicos (sempre negativos em Fohorém, pela elevada mortalidade infantil), riqueza pecuária e agrícola da zona, etc, [hoje diria o PIB local]. A cada inscrito correspondia-lhe um número, [actual número de contribuinte] que servia para a identificação, aquando do pagamento anual do muito contestado imposto domiciliário, [ nosso IRS] no valor de cento e noventa escudos - o único que o governo cobrava aos timorenses, nessa data - 1968.
Dato-Rua era um dos sucos do posto de Fohorém e ficava distanciado da sede pouco mais de duas horas a cavalo, não havendo estradas nem picadas. Os carreiros tão depressa atravessavam as verdes pradarias, que me faziam lembrar os bem cuidados campos de golfe da rica Europa, pintalgadas de esbeltos cavalos e de sonolentos búfalos mansos em completa liberdade, como desapareciam por entre florestas de palavões e de pau-rosa de grossos troncos de vários metros de diâmetro e ramos querendo desafiar as alturas, num emaranhado de orquídeas selvagens e parasitas. A povoação de Dato-Rua era formada por um pequeno aglomerado de palapas todas do mesmo estilo e coberturas muito inclinadas. O capim vinha tocar o solo, havendo uma única abertura de acesso. A estrutura interna da habitação era suportada por paus atados com cordas, pois não se usavam pregos. Havia dois pisos sendo o inferior para os animais domésticos. A cobertura inclinada até ao solo justificava-se pela abundância de chuva e rigor do clima. A casa do dato distinguia-se das outras pela localização e por ter um mastro para a bandeira portuguesa. Em frente, ficava o terreiro-lúlic, de chão recalcado pelas dançarinas. Os túmulos dos antepassados do chefe viam-se cobertos de lajes de grandes dimensões ocupando um local de destaque no terreiro. Um tronco de pau-rosa, com cerca de dois metros de altura, da boa madeira nobre era esculpido em baixo relevo com motivos mitológicos [tipo dos Incas] e enfeitado com cornos e ossos brancos dos animais abatidos para as cerimónias fúnebres: enterro ou cormetan.(desluto) O monumento marcava um local simbólico e sagrado - o terreiro-lúlic de uma povoação do interior de Timor. Desse terreiro, partiam várias veredas em direcção às povoações do suco. A um canto, bem protegido dos animais por uma eficaz cerca de bambu, viam-se as verdejantes trepadeiras, cujas folhas verdes - o bétele - uma poderosa droga [liamba], quando misturada com cal viva e areca (fatias secas do coco da arequeira). Essa mistela, depois de mastigada, transformava-se numa massa avermelhada semelhante a sangue, fornecendo todos nutrientes de que necessitavam os timorenses para as longas caminhadas aos bazares distantes. As trepadeiras do bétele eram plantas comunitárias, bem cuidadas e defendidas de forma a fornecerem a droga a toda a povoação e ainda para a venda nos bazares semanais. Ninguém traficava o bétele ou a areca e o seu comércio livre como os alhos e as cebolas! As autoridades nunca pensaram sequer no seu controlo, nem na simples proíbição. O chefe de Dato-Rua era muito respeitado, embora de semblante carregado e austero. Vestia lipa e o rosto estava queimado pelo sol vivo da montanha. Muito estimado no seu suco, resolvia todas as pequenas questões da sua população, como roubos de gado, invasão das hortas pelos animais ou a divisão da água pelas várzeas. Viajava quase sempre no seu cavalo branco, fazendo-se acompanhar da sua guarda pessoal - os leais moradores - que coadjuvavam-no na aplicação da justiça, por vezes com severidade, que ia dos castigos corporais com palmatoadas a trabalhos forçados em favor da comunidade ou do próprio. Com ele vivia o pai, um catuas de avançada idade, mais de cem anos talvez, mas ainda chamado a presidir o conselho dos anciãos, quando havia questões delicadas por resolver, aplicando-se, então, o direito consuetudinário [mores maiores], muito arreigado em Timor, e que fazia jurisprudência local. Por exemplo: numa disputa de terras incultas ou pertencentes ao Estado, o simples facto de existir no terreno uma árvore plantada [coqueiro, laranjeira, torajeira, etc.], legitimava a sua posse, por sucessão. Pelo contrário, se a árvore fosse de geração espontânea [uma mangueira], significava que o terreno era devoluto, sem dono, e podia ser cultivado por qualquer família.
Ouvia com atenção o chefe de Data-Rua e o ancião, seu pai, enquanto enchia o cachimbo de erva, que o filho cuidadosamente para ele picava sobre uma tábua comida pelo fio da faca. Sentados no terreiro, falavam da vida na zona onde os incidentes com o roubo de gado eram frequentes. Havia quadrilhas de indonésios e de timorenses que se dedicavam ao lucrativo negócio de vender o gado roubado de ambos os lados da fronteira. Bebendo um forte e aromático café, produzido por entre as fragas da montanha, ouvia falar do barlaque - uma união de casais, segundo os usos e costumes da terra - hábito ancestral que nem os portugueses nem os missionários conseguiram apagar. Em Dato-Rua o pretendente ao barlaque combinava com os pais da noiva o montante do dote a pagar-lhes, normalmente traduzido em luas de ouro, patacas mexicanas em prata, panos de fabrico caseiro, sacas de néli ou cabeças de gado: búfalos, bois, cabras e porcos. Se o candidato não pudesse saldar o dote [cumprir o contrato] de uma só vez por dificuldades financeiras, podia fazê-lo em prestações, cujo montante era arbitrado, podendo, de imediato, levar a mulher. Só que, se nascesse algum filho, antes da última prestação ficar saldada, [devedor/credor numa típica relação obrigacional] esse filho nascido teria de usar a cabeça rapada, deixando apenas uma madeixa no centro da cabeça, para que todo o reino soubesse que o pagamento ainda não fora saldado na totalidade. Esse filho era chamado de firarco. O catuas-chefe também exercia as funções de comandante dos moradores - corpo de tropas nativas, armadas de azagaias, catanas, arcos e flechas, com a missão da defesa das populações e patrulhamento das zonas fronteiriças, em colaboração com as tropas regulares e da segunda-linha. Os incidentes de fronteira, por causa de roubos de gado, eram frequentes. Num desses recontros, em que fui chamado como autoridade administrativa colonia, e que teve lugar para os lados de Fatulúlic, deparei-me com dois corpos estendidos no capim, feridos a bala pela polícia da fronteira. Um dos feridos, ao ver-me aproximar dele, atirou a cabeça para trás, fingindo-se de morto. Mais tarde, ele viria e esclarecer-me ser essa a única forma de fugir ao tiro de misericórdia, hábito das autoridades políciais da Indonésia.
Ensinando a fazer coisas tão simples, como o sabão
Foi em Dato-Rua, numa festa de Recenseamento, que a minha mulher ensinou às gentes do suco como se fazia o vulgar sabão para uso doméstico - um produto de difícil aquisição no interior de Timor e vendido a alto preço no comércio china. O chefe mandou arranjar as matérias primas - cinza das bananeiras para a potassa, o ingrediente fundamental no fabrico do sabão caseiro, além do óleo de coco, abundante na ilha. Num tacho sobre pedras onde ardia toros de palavão branco, o óleo ferveu em torrentes de espuma à qual se adicionou, lentamente, a cinza. Depois a mistura foi agitada com um pau de cafeeiro até atingir o ponto e com a massa ainda quente moldaram-se bolas de aspecto esbranquiçado [o sabão da terra - como se fazia em Cabo Verde, era eu criança ainda], com que as lavadeiras lavavam as roupas com abundante espuma sob o olhar atónito dos presentes. Com um pouco de perfume fizeram-se, também, alguns sabonetes para os mais curiosos...
Numa pescaria tradicional numa lagoa sagrada de Dato Tolo
A povoação de Dato-Tolo, a mais de oitocentos metros de altitude, ficava na base do monte da Boneca, a mais importante de Fohorém, constituída por um pequeno aglomerado de palapas, possuindo uma casa branca - a do Dato - assim denominada por ter as paredes caiadas. Havia uma escola primária de meias-paredes em pedra e palapa, destacada no topo da povoação, ao lado de um curral para a recolha dos búfalos. No sopé da montanha, via-se uma enorme lagoa de águas límpidas, acumuladas durante a época das chuvas numa depressão da rocha. As margens estavam cobertas de verdejantes tufos de juncos, inhames, nenúfares e outras plantas aquáticas de flores amarelas. Os patos bravos e as aves de arribação nidificavam nesses tufos de verduras soltando pios. Anualmente, e em determinada fase da Lua, coisa que só os catuas conheciam, toda a população de Dato-Tolo se reunia para a grande festa sagrada do ano: a abertura da lagoa - culto com séculos de tradição. A operação era precedida de certa religiosidade. Os homem, munidos de enxadas, ferros e paus escavavam a única saída possível da lagoa, As mulheres tocavam e cantavam, enquanto a água jorrava, em sonoras cascatas por entre as rochas polidas pela erosão, correndo para as várzeas das planícies. Após a ordem do Dato, a população, munida de latas, entrava no lodo da lagoa e retirava os peixes, camarões, enguias, cobras de água, enfim tudo o que fosse comestível. O chefe aproveitava a ocasião para dar uma grande festa procurando cativar a simpatia do seu povo. Eu, como autoridade administrativa, e a minha mulher como professora e convidada especial, assistíamos à festa, hospedados na casa maior do chefe - a casa branca. Da sua varanda, avistava-se a linha da costa Sul e o mar azul sombreado pelos recifes de corais (a tal plataforma onde está guardado um dos maiores lençóis de petróleo de Timor). Ouvi a notícia da boca de um japonês, muito conhecedor da ilha. À noite, no recinto da Escola, houve um baile, à luz dos pétromaxes que mal iluminavam a sala, invadida pelo nevoeiro vindo da montanha para o recinto. Lá fora, alguns timorenses, os que não tiveram entrada na festa, bem acocorados junto às fogueiras ou embrulhados em mantas, observavam os nossos movimentos, no seio do frio cacimbo. Findo o baile, regressamos à casa branca e aí passamos a noite. A vinda fez-se no dia seguinte, antes que o sol fustigasse o planalto de Dato-Tolo. De madrugada, os galos cantaram no quintal e após o pequeno almoço, a caravana de cudas seguiu viagem por estreitos carreiros serpenteando os imponentes contrafortes das serranias.
CAPÍTULO IV
Tafara
Após as fortes chuvadas, caídas normalmente de Outubro a Maio, a caudalosa e intransponível ribeira de Tafara, até então barrenta e perigosa, ficava com as águas límpidas, correndo no seio de florestas de casuarinas ou serpenteando algumas pequenas ilhotas de areia fina, formadas no leito de calhaus roliços. Por vezes, eu, a mulher e os filhos seguimos ao longo do seu curso, de Fohorém para Suai e vice-versa. A viagem era feita a cavalo chapinhando os cascos na água, por entre tufos de malmequeres selvagens floridos de amarelo ouvindo o vento sibilando nas minúsculas folhas das casuarinas ou as melodias dos coloridos pássaros. Certa vez, fiz a travessia com um dos filhos, com apenas quinze dias de vida, transportado numa cesta de rota aos ombros dos moradores do posto. Numa outra ocasião, ao atravessar a mesma ribeira, num dos dias em que levava muita água, o cavalo onde seguia foi arrastado. Saí a nado, um pouco mais abaixo, antes da foz. Felizmente ao filho que seguia num outro cavalo com um morador muito experiente nada lhe aconteceu e chegaram à margem sem problemas e secos. O cavalo do posto, após o incidente, apanhou fobia à água dos regatos.
A planície de Tilomar ocupa uma grande parte do litoral sul de Suai, zona densamente arborizada, de abundante pastagem e óptima para a criação do gado e caça a veados, javalis e búfalos selvagens. Anualmente, o então chefe de posto organizava uma famosa caçada, para a qual convidava personalidades de Díli e arredores. Os palanques eram construídos sobre árvores com bambus fortes para poderem suportar o peso dos caçadores de G3 e Mauser's. O início da caçada começava com uma batida, levada a cabo pelos cães, num ladrar infernal que fazia fugir os animais dos buracos ficando ao alcance da pontaria dos caçadores, espalhados pelos palanques. O tiroteio era violento - uma verdadeira batalha. As balas passavam uivando e só por sorte não se verificavam incidentes entre caçadores. Os javalis feridos de morte, ou os búfalos assustados investiam contra as árvores, descascando os seus troncos, para ficarem estendidos mais além com as balas certeiras dos mais experimentados. Após a caçada, havia um almoço de confraternização, à sombra das frondosas árvores onde cada um exibia os troféus de caça. No ar o cheiro a veados no espeto ou a carne de javalis na brasa. A tarde chegava e os caçadores partiam. Para trás, ficava a solitária planície de Tilomar e o cacimbo fustigando o capim amarelado cheirando a palha molhada. Numa povoação ao lado do caminho um punhado de crianças brincava ao lusco-fusco nas mangeuiras carregadas de frutos maduros; outras, sentadas sobre grossas raízes das ávores, comiam amarelados bagos das jacas, no meio de abelhas.
O cavalo que me transportava já deitava vapor de água pelas narinas. Embalado pelo ranger cadenciado do couro da sela a cheirar a sebo, fui admirando a ribeira da Tafara correndo no vale por entre as florestas de casuarinas, para surgir, mais além, a caminho do mar tinto pelo pôr-do-Sol. Um bando de ruidosos corvos voejava a caminho da Boneca.
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Funeral
A povoação de Lactós ficara de luto. Falecera o pai do dato do suco - um catuas de provecta idade e muito abalado pelas enfermidades que deixaram marcas no seu mirrado corpo. Nem as mezinhas caseiras, à base de plantas colhidas por sábias mãos dos matandocs, nem as pastilhas e injecções dadas pelo enfermeiro Hajan conseguiram vencer a morte que o rondava de perto. A povoação estava de luto, ou antes, em festa. A morte não significava para o timorense de Lactós o fim da vida, que, no Além, seria recomeçada após a alma realizar uma prolongada caminhada ao Ramelau (a mais alta montanha de Timor), e nela permanecer por um ano até à cormetan - festa de desluto (retirar a cor preta). Os tantans tocavam por montes e vales e alguns moradores, a pé ou a cavalo, iam pelos reinos, sucos e povoações espalhar a nova reunindo-se os parentes e amigos para o funeral, que teria lugar quando todos estivessem presentes. Búfalos, porcos, cabritos e leitões chegavam ao terreiro do falecido, ficando os currais apinhados de gado para abate e alimentação das pessoas.
Era preciso conservar o corpo, mas como? Simplesmente, mantendo-o num fumeiro [tipo presunto para melhor elucidar o leitor], como mandava a tradição da terra, por mais estranho que pareça aos olhos de um ocidental, a única solução possível naquele local de Timor. Um estrado de madeira, coberto por uma esteira de bambu, tecido pelas habilidosas mãos das mulheres da casa, era erguido a um metro do chão, apoiado em barrotes de teca e pau-santo. Por debaixo do estrado postos a arder lenhos de sândalo que exalavam salutíferos e cheirosos aromas num espesso fumo, um purificador do pesado ar cheirando a morte [Timor do salutífero sândalo - no dizer de Camões], conservando, ao mesmo tempo, o cadáver, no aposento escuro, agora transformado em câmara funerária. Essa prática era frequente em Fohorém, mas eu próprio (como autoridade administrativa) e por imperativos legais da saúde pública, exigia que os cadáveres fossem sepultados passadas as vinte e quatro horas. Hoje, analisando mais friamente o assunto, reconheço que não havia nenhum perigo para a sáude pública, como invocava a Lei. Essa prática era, sim, uma forma engenhosa do povo de Fohorém conservar os seus mortos, até reunir todos os familiares para um último adeus ao defunto. A nossa forma ocidental de ver as coisas (em qualquer latitude do mundo), essa sim, seria uma violação do modo ancestral e natural de ser, de estar e de morrer daquele povo, cujos usos e costumes foram frequentemente por nós, os “colonizadores, ditos civilizados”, violentados e desrespeitados, em nome de uma ordem jurídica que nada tinha a ver com a de Timor dos timorenses. Assim, neste caso concreto, rasguei as nossas leis!
Reunidos todos os familiares e amigos, no meio de festejos que duravam muitas semanas, o pai do chefe foi sepultado no terreiro-lúlic do suco ficando a cova protegida por uma grande laje de basalto. Um barrote de pau-rosa, trabalhado em baixo-relevo e enfeitado com ossos, chifres e queixadas dos animais abatidos durante a festa, aos quais se juntariam muitos mais aquando da cormetan (a realizar-se um ano depois), ficou espetado no centro do terreiro do dato, testemunhando a cerimónia e constituindo mais um elemento de ligação do chefe do suco às suas gentes...
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Ano após a morte, a grandiosa festa da Cormetan - Desluto
Um ano após o enterramento, houve lugar à grande festa do desluto. Fui convidado a assistir a essa outra homenagem a um morto ilustre de Lactós. Tratava-se do cormetan do catuas falecido no ano anterior.
Agora - pensavam - que a alma do defunto estaria em condições de poder abandonar o cume do Tata-Mailau, o tal monte mais alto de Timor, e, então, partir daí para a longa viagem... Os moradores do reino iam, outra vez, às povoações, a pé ou a cavalo, chamar os familiares e amigos. Os currais enchiam-se de búfalos, bois e de cabritos, para abate durante a festa. As dançarinas desciam ao terreiro, sob o som monótono dos tantans, tocando, tocando sempre, dia e noite. A faina da matança dos animais também era motivo de festa e iniciava-se logo pela manhã, no meio de uma grande gritaria. Às vezes, a tropa da segunda-linha era chamada para abater a tiro de Mauser algum búfalo mais bravio que saltava a cerca de bambus. Os abutres e os corvos, empoleirados nos galhos das árvores, aguardavam impacientemente os despojos, espalhados pelo terreno. Os sons dos cantares ouviam-se por montes e vales e as longas colunas de fumo indicavam os locais onde se cozinhava, para dar de comer àquela multidão em festa. Findo o banquete, que chegava a durar semanas (à custa de verdadeiras fortunas), os chifres e alguns ossos dos animais abatidos durante a festa eram pendurados no mastro-lúlic, ficando a baloiçar, ao sabor da aragem da planície, em memória do falecido. As cenas de enterramento e desluto foram colhidas na zona de Fohorém, fronteira com o Timor indonésio, variando de região para região...
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Seca
Os mais velhos afirmavam não terem na memória uma tão prolongada seca, que até parecia castigo de Maromac. No céu azul da costa sul, nem uma nuvem se via, havia já dois meses.O gado começava a não ter água para beber e o pasto verde só surgia nos sítios mais altos; nas planícies apenas o capim que as queimadas reduziam a cinzas, para o desespero das populações; as ribeiras sem água, coisa rara em Timor. Os chefes de Dato-Tolo, Dato-Rua e Lactós, falaram comigo, na qualidade de autoridade administrativa:
- Sabe, senhor chefe, estamos perante um castigo do Maromac!
-Castigo?
- É culpa da tropa que cortou uma árvore-lúlic - indicaram-me com os dedos uma clareira, ao lado da diligência militar.
Fui ver de perto o local, e um furriel explicara-me ter recebido instruções do seu comandante para desobstruir o campo de tiro e teve de mandar abater algumas árvores, as de copas mais altas, incluindo a lúlic, a sagrada. De pé apenas ficara o tronco, e por terra, um emaranhado de raízes.
- Mas, então senhores chefes, o que pretendem?
Queremos apenas e só a nossa chuva, senhor chefe!
- Mas eu não sou nenhum Maromac e não sei fazer chuva! Chove pouco pelo facto de fazerem muitas queimadas nocivas dando cabo de toda a vegetação verde que atrai a chuva...
- Mas, senhor chefe, nós só precismos da autorização superior (sua) para escolhermos uma outra árvore-lúlic e fazer uma grande festa, em homenagem ao Maromac. Só assim, é que Ele vai deixar de estar ofendido com a maldade da tropa por ter mandado abater a árvore-lúlic...
Não encontrei deveras, forma de os demover!...
- O senhor pode ter muita razão! - dizia-me o dato Lequi Bau - mas só precisamos da autorização e o resto é connosco...
- Sim, podem fazer a festa - acrescentei-lhe, já meio aborrecido!
Com alegria nos rostos, desceram a escadaria do posto e foram dar a boa nova aos moradores que os acompanhavam. Todos saltavam e pulavam de contente.
A data para o ritual da escolha da nova árvore-lúlic fora marcada para coincidir com uma Lua Cheia. Os matandocs compareceram todos e, em assembleias, escolheram, no Monte Lulic, uma árvore de tronco negro bem retorcido, copa frondosa e ramos firmes com raízes descendo das alturas até ao chão firme, para as danças e outros rituais nativos...
A festa, à qual assisti como convidado, durara sete dias e noites...
Já de regresso, no posto, fui acordado pelo tamborilar da chuva nas latas de lírios floridos da varanda e pelo ribombar dos trovões nos montes. A água jorrava do céu, como nunca vira. Os chefes, logo que conseguiram sair das suas povoações e transpôr as caudalosas ribeiras, vieram agradecer-me pela autorização concedida... O Maromac assim quis! Ao despedirem-se de mim, junto à escadaria da secretaria, lembro-me que ainda me disseram:
- Nós tínhamos razão, está a ver senhor chefe...!
Olhei-os nos olhos! Os montes estavam tapados de nuvens anunciadoras de mais tormentas e não encontrei uma resposta. A chuva voltou a tamborilar nas latas com lírios floridos.
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Vivendo por três anos com a a família numa mansão assombrada
Acontecera numa enorme mansão de paredes cinzentas de humidade, isolada no cimo de um morro e rodeada de luxuriante vegetação. Era a minha residência, a da autoridade local e secretaria do posto. Edifício construído, logo após a segunda guerra mundial, para local de reuniões das autoridades portuguesas com as suas congéneres holandesas, que dominavam a outra metade da ilha de Timor. A mansão tinha o pavimento de ladrilhos claros, as paredes caiadas de branco, com muitas janelas envidraçadas deixando entrar a claridade para as dependências. Uma larga varanda circundava o edifício impondo à construção um estilo colonial, imponente e vetusto mesmo. Uma obra megalómana dos colonizadores (um palácio), que deixava qualquer visitante espantado, tanto mais naquele inóspito e ventoso, o lugarejo de Fohorém, perdido na fronteira com a Indonésia. Havia, na altura, (1948) um necessidade imperiosa de mostrar aos colonizadores holandeses que os portugueses eram diferentes e melhores, pelo menos em sumptuosidade...
O palácio de Fohorém impressionou-me no primeiro momento em que lá entrei e posso afirmar ao leitor, que ainda hoje (1998), volvidas várias décadas, sinto calafrios quando penso no caso. Nessa mansão havia no ar algo de estranho, de sobrenatural, de misterioso, facto detectado pelo meu sexto sentido, ao ter contacto com a construção.
Quando a noite descia sobre a localidade de Fohorém e os grilos batucavam nas fendas dos muros e as árvores de camim, ao lado do edifício, lançavam sinistras sombras sobre os ladrilhos esbranquiçados do pavimento, um cheiro acre a folhas verdes invadia o aposento juntamente com uma corrente de ar sem explicação... O maior aposento (o escolhido para quarto de dormir) destinava-se ao Governador Oscar Ruas, quando se deslocava à fronteira - era o palco dos fenómenos invulgares. O quarto do malai-bote (homem grande). Tinha vestiário, casa de banhos privativa, mas desactivada, havia longos meses, quando lá chegamos. Foi o aposento que escolhemos (eu e a mulher) na primeira noite passada em Fohorém. O insólito deu-se...
Deitámo-nos e, passados alguns minutos, o relógio de parede da sala de jantar batia as doze badaladas da meia-noite. A Lua estava cheia. O eco das pancadas do relógio ficara a ecoar nos meus ouvidos. Pelas janelas sem cortinas entrava uma luz difusa, inundando o quarto com uma tonalidade azulada, cortada pelas sombras projectadas pelos ramos das árvores de camim do caminho. Um ruído de panelas tombando para o chão, ouviu-se, nitidamente, vindo da vazia sala de jantar. Passados alguns instantes, um autoclismo de ferro fundido, dos antigos, sem água havia muito tempo, começou a descarregar e ininterruptamente. Minha mulher, que também ouviu os barulhos, a gracejar, disse-me tratar-se de algum fantasma! No dia imediato, quando me levantei, fui inspeccionar o autoclismo, que passara a noite a descarregar água. Destapei-o. Lá dentro, só havia pó e ferrugem... Posteriormente, falando com o sipaio do posto, ele relatou-me muitos mais casos estranhos ocorridos na mansão, de que foram testemunhas colegas meus, os anteriores habitantes da casa, referindo-se a cócegas nos pés por mãos geladas, forças misteriosas empurrando as portas do lado de dentro e muitos mais casos que dariam para um livro sobre o fantástico, mas não vou aborrecer o eventual leitor incrédulo e certamente com razão!...
Em conversa, relatei os factos a um médico psiquiatra - por sinal o delegado de saúde da zona - um alferes miliciano em serviço, tendo ficado impressionado com os relatos, recusando-se a dormir no aposento (ainda que para experiência), para se certificar dos factos, garantindo-me que, na realidade, os fenómenos parapsicológicos aconteciam e que a Ciência (em 1968) não estava à altura de os explicar ou sequer de os compreender.
O leitor certamente sente vontade de rir, mas digo-lhe, não queira estar envolvido num evento desses, e ter de viver, por imperativos profissionais, por três longos anos, em semelhante situação...” Mudámos para uma outra ala não assombrada da mansão deixando livre o quarto do malaio-bote, do Governador, ou antes - o dos fantasmas!
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Petróleo em Timor - Zona de Matai - ou mau presságio para Timor, como afirmavam os matandoc's - feiticeiros...
As planícies de Suai estendiam-se até ao mar, por entre as plantações de coqueiros que produziam centenas de toneladas de copra para a exportação - uma das principais riquezas da zona. Além da copra, abundava o petróleo no subsolo, líquido espesso retirado a baldes do fundo de poços a menos de dez metros de profundidade. O município local (Suai) mandara instalar uma improvisada refinaria - obra levada a cabo por um engenhoso mecânico chinês - obtendo-se gasolina, gasóleo para as máquinas agrícolas e viaturas e petróleo para iluminação. O cheiro a crude no interior dos poços era asfixiante e comprovei-o. A maior reserva estava na plataforma marítima entre Timor e Austrália, zona da Timor Oil - empresa australiana de prospecções sísmicas e com furos promissores em terra. Um dos furos localizava-se no quintal da residência do administrador do concelho. Os resultados foram tão surpreendentes (1968) que esse furo foi selado com toneladas de betão e chumbo ficando apenas uma válvula para a saída dos gases. A descoberta do petróleo em Matai viria a ser a principal fonte de cobiça do território, tanto mais que esses mesmos lençóis, segundo informações técnicas, alimentavam os poços em exploração nas outras ilhas da Indonésia. A Austrália e Portugal sabiam do facto, pois foi a potência colonizadora que concedeu à Timor Oil a prospecção do petróleo, quer em terra quer no mar de Timor, não falando nas reservas desconhecidas do gás natural que brota, há décadas, na costa sul, em Aliambata, concelho de Viqueque, de que fui administrador...
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Viqueque
Após uma permanência de três anos em Fohorém, juntamente com a mulher e os filhos, fui encarregue de administrar o concelho de Viqueque, na Ponta-Leste da ilha de Timor, região muito quente com temperaturas rondando os trinta e mais graus e elevada humidade. A vila ficava distante da costa cerca de vinte quilómetros e era formada por um aglomerado de casas de pedra e cal e palapas, com as ruas calcetadas e marginadas de jardins bem cuidados. Viqueque agradou-me pelas praias de Béaço, Ossulata e outras de fina e branca areia salpicada de conchas de mil formas, com destaque para as inúmeras estrelas do mar e algas castanhas, os curvados coqueiros oferecendo acolhedoras sombras e os recifes de corais abrigando as mais exóticas espécies de coloridos peixes. Os tubarões circulavam livremente pela baía de Béaço, tornando-a perigosa.
Na praia de Beaço conversava com o velho Mau Lequi - um pescador que fornecia peixe para a minha casa e outras. Ainda o vejo, curvado, magro, alto, de tez escura curtida pelo sol e pelo mar, barbas brancas, sempre sorridente e amigo da tuassaba, que bebia ao lado do seu inseparável cão preto, o Black, à proa de um velho beiro. Conversávamos sobre os mais diversos assuntos, enquanto fumava um cachimbo de raíz de bambu cheio da erva, que cultivava ao lado da sua modesta palapa. Gostava de contar as suas aventuras no seu beiro, de nome Lusíadas - “aquele tronco furado com mastro de bambu e vela de lona rota” - como dizia - e sem espaço para mais remendos. O velho pescador observava o mar à nossa frente, mar cujos segredos conhecia como os dedos das suas mãos. Com o seu companheiro, um fiel cão preto já velho, de lombo pelado e tomado pelas carraças, ali passava o seu tempo. Juntos, caminhávamos pela praia, ficando o beiro varado na fina areia, à sombra de um coqueiros. À volta, viam-se as hortas com verdejantes pés de milho e redondas abóboras. Num palanque, mesmo à entrada da sua palapa, sobre esteiras de bambu, secava ao sol algum peixe em cordas, restos que não conseguira vender no povoado no dia anterior. Um enxame de moscas varejeiras rondava o local. Como não vi nem anzol, nem cana, nem redes, perguntei ao pescador como pescava? "com veneno, senhor, foi a pronta resposta".
- Então o peixe que Mau Lequi manda para a minha casa todos os dias de manhã tem veneno entranhado no corpo?
Nada disso... Um dia, irei mostrar ao senhor como se pesca com esse veneno! Os japoneses faziam-no com bombas, mas o Mau Lequi é com veneno tirado das plantas...
Certa manhã, fui à praia de Béaço ver como Mau Lequi pescava com o tal veneno. A maré estava a vazar. Conversámos, à espera que os recifes de corais ficassem a descoberto. O velho pescador saltitava de recife em recife procurando as melhores lagoas para a pesca. Parámos numa poça de água, onde nadavam alguns cardumes no meio de algas, ouriços e estrelas do mar. O Mau Lequi trazia um canudo de bambu cheio de um líquido esbranquiçado (uma poderosa seiva utilizada para envenenar setas). Destapou o bambu e jogou uma poção sobre a límpida água da lagoa. A água ficou leitosa e os peixes que lá nadavam descontraidamente começaram a perder o equilíbrio vindo respirar à superfície, de guelras escarlates à mostra. Alguns, no auge do desespero, atiravam-se para fora, suícidando-se sobre as pedras quentes fugindo ao terrível veneno. O Mau Lequi agarrava os peixes retirava-lhes as tripas - local onde estava retido o fatal veneno. Fiquei especado num recife de coral, observando a singular faina de pesca e a pensar no peixe que comia diariamente!. Na sua palapa, bebemos mais uma água de coco bem fresquinha, enquanto o pescador retirava alguns peixes para secar ao sol. Já com um cesto de palha cheio, acompanhou-me à sede do concelho, onde ele ia vender a mercadoria aos fregueses habituais. Mau Lequi vinha a Viqueque pelo menos duas vezes por semana: Percorria as ruas com cordas de peixe aos ombros batendo de porta em porta. Também trazia caranguejos gigantes, apanhados no lodo da foz das ribeiras. Quando conseguia vender todo o pescado, metia-se nas lojas chinas a beber tuassaba e só de lá saía rumo a Béaço, quando o sol se punha no horizonte e as palmeiras espalhavam sombras nos estreitos carreiros do capim.
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Ossu
Era uma das mais importantes povoações do concelho, com uma missão católica, colégio e escola primária. O colégio ocupava uma grande mansão, construída para esse fim. A localidade foi uma das mais devastadas pelas tropas japonesas durante a guerra, pois, não muito distante do local, ficavam os depósitos subterrâneos de aviões em peças e material bélico para a projectada invasão da Austrália. Visitei um destes abrigos escavados na rocha, com várias centenas de metros de extensão, trabalho executado (segundo informações colhidas), por timorenses que depois eram fuzilados, ficando o segredo das suas localizações apenas conhecido dos nipónicos. As reservas de combustível para aviões estavam bem escondidas e ainda eram utilizadas em 1968, tal a quantidade de bidons enterrados e camuflados na zona de Ossu. Durante a guerra, os recontros entre os nipónicos e os australianos eram frequentes deixando profundas marcas nos seus habitantes daquela povoação em ruínas. A cordilheira do Mata Bia, conhecida pelo seu monte mais alto - o Mundo Perdido - era uma montanha de difícil acesso e, por esse facto, escolhido como abrigo das tropas japonesas. Do alto, viam-se as várzeas de arroz alcantiladas em verdejantes socalcos, conferindo à paisagem uma rara e estranha beleza. Dominando a região de Ossú, o Mundo Perdido. A minha curiosidade levara-me a escalar o seu cume, juntamente com um pequeno grupo de curiosos apaixonados pelas belas paisagens. Foi um desafio. O percurso foi feito no dorso dos cudas, por sinuosos carreiros abertos na mata, por entre as mimosas-pudicas - espécie vegetal dotada de sensibilidade, cujas delicadas folhas murchavam em contacto com as patas dos cavalos. A vegetação na base da montanha era arbórea, constituída por frondosas árvores de pau-rosa, pau-ferro e palavões pretos. À medida que iamos escalando a montanha, o silêncio era absoluto. Já não se viam as brancas catatuas nem os coloridos loricos com os seus sonoros cânticos. Era o silêncio do Mundo Perdido, um tipo de silêncio que nunca mais voltaria a sentir. Dos troncos das velhas e apodrecidas árvores, quiçá, milenares, cresciam musgos e líquenes das mais variadas formas e fetos arbóreos, só faltando os dinossauros e algumas aves pré-históricas de bicos ponteagudos e asas gigantescas cortando os céus para me fazer regredir a uma era já extinta. Finalmente, chegámos ao cume da serra, atando os estafados cudas nos troncos torcidos de uma velha árvore. A vista do alto era maravilhosa com as povoações de Ossu, Venilale e Viqueque, ao fundo. No litoral Sul, eram visíveis as povoações de Uato-Lári e Uato-Carbau, várzeas de cultivo do arroz cuja produção abastecia todos os mercados da ilha. A região era conhecida pela abundância da caça, principalmente veados, javalis e búfalos bravos, estando as matas infestadas de jibóias e cobras venenosas. Os javalis eram caçados com azagaias ou setas envenenadas, mas os animais feridos eram perigosos investindo contra os caçadores. Na minha vida profissional tive ocasião de assistir ao levantamento de um corpo de um caçador timorense, mutilado por um javali ferido e, na verdade, não havia no infeliz colhido na caçada um um osso inteiro.
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(Reforma agrária, ou coisa assim tomada pela PIDE/DGS...)
A população de Uato-Carbau nem sempre cultivava as várzeas das planícies, algumas devolutas e tomadas pelo alto capim, e pertencentes ao Estado. Preferiam fazê-las nas zonas das montanhas, esperando pelas chuvas das monções, que nem sempre vinham a tempo. Procurei inverter a situação fazendo com que o Governo distribuisse as várzeas incultas às populações sem terras, depois de obter, confidencialmente, a autorização do então Governador A.A. Os baldios foram loteados, numerados e distribuídos à população (os sem terras, como são modernamente conhecidos no Brasil, pois estávamos em 1968). A PIDE/DGS sabendo do facto, pôs-se no terreno atribuindo-me a autoria de uma Reforma Agrária, com agravante da zona ter sido palco da célebre revolta de Viqueque de 1959, reprimida com violência pelas autoridades e tropa portuguesas.
Ainda recentemente, veio-me às mãos um artigo, publicado na página 11, do "PÚBLICO", de 4.01.97, que levantava, ao de leve, o véu aos abafados acontecimentos de Viqueque, cujo excerto transcrevo, por achá-lo bastante oportuno:
... Depois de servir de destino a dezenas de refugiados vindos de Timor-Leste, o aeroporto de Lisboa é hoje ponto de partida para oito timorenses que querem voltar. Estão longe desde 1959, ano em que se revoltaram contra as autoridades coloniais portuguesas no território. Voltam agora com a ajuda empenhada de Manuel Macedo, que intercedeu junto a Suharto. Quando chegarem serão indonésios...”
Um caso contra Portugal por “abusos de direitos humanos em Timor-Leste”, durante a presença portuguesa no território. Duarte, que na altura se identificou como “organizador da revolta contra Portugal em Viqueque, em 1959”, escusou-se a adiantar pormenores sobre o caso, o número de pessoas envolvidas ou quando a queixa seria formalmente apresentada. Afirmou, porém, que Portugal tinha sido responsável pelas mortes de 545 timorenses na revolta de Viqueque...”
Mas, adiante. Foi nessa região de Viqueque onde eu, este modesto escriba, se encontrava em 1973, catorze anos após os incidentes que deixaram profundas marcas psicológicas nas populações da zona. Cada várzea produzia cerca de três toneladas de néli, arroz suficiente para a alimentação de uma família normal durante o ano todo. Os habitantes de Uato-Carbau aceitaram com relutância o cultivo das várzeas, por imposição da autoridade. Uato-Carbau era uma povoação alcantilada numa serrania, devastada e abandonada após a repressão de 1959. Um chefe tradicional, à sombra de uma árvore-lúlic, assim me relatou:
A PIDE desconfiava do desembarque de alguns indonésios na praia de Aliambata, não muito longe daqui, ali em baixo, na planície. A tropa pôs-se à caça desses supostos indonésios e resolveu cercar Uato-Carbau onde desconfiavam estarem escondidos os invasores e revoltosos, preparando alguma acção subversiva contra o Governo colonial português de então. Nesse dia, a população estava a lavrar as várzeas. Toda a zona foi cercada. A tropa vinha armada até aos dentes, com metralhadoras, morteiros, granadas e espingardas. Mesmo com o cerco, algumas pessoas conseguiram escapar-se pelos currais dos búfalos e refugiarem-se no mato espinhoso onde só os veados conseguiam entrar. A tropa bombardeou e metralhou sem dó nem piedade a povoação de Uato-Carbau, que ficou totalmente queimada e destruída e os mortos espalhados por toda a parte..."
Quando visitava a povoação de Uato-Carbau, sede de um posto do concelho de Viqueque de que fui administrador até 1973, situado num planalto que dominava toda a costa Sul, bem como a zona do tal desembarque dos supostos indonésios - porto de Aliambata - dava comigo a pensar no que ouvira da boca daquele chefe e no violento ataque a uma população indefesa, tentando compreender as razões que teriam levado a tropa a cometer tamanha barbárie, não muito diferente da perpetrada pelos indonésios no fatídico dia 12 de Novembro, no cemitério de Santa Cruz. Só que, naquele tempo de Uato-Carbau, repito, não havia uma comunicação social livre nem câmaras de vídeo ou repórter para noticiar esse trágico acontecimento que vitimou elementos da população indefesa de Uato-Carbau. Os bambus gigantes acenavam à minha frente, curvados pelo vento das planícies. As acácias rubras cobriam com as suas pétalas encarnadas o chão do terreiro-lúlic, também profanado pelos ditos arautos de “uma civilização qualquer”, numa das mais selváticas manifestações da nossa conturbada e discutível e trágica presença na ilha de Timor. E a História dessa mártir terra, ainda por escrever, silenciando-se de medo ou comodismo as vozes da cumplicidade...Até quando, meus senhores? Eu não me calarei...
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(Monumento aos portugueses mortos durante a 2ª guerra, em Timor)
Mais para o interior, situava-se um outro posto, mártir da ocupação japonesa de 1944, de nome Lacluta. A casa do chefe ocupava um antiga residência de um falecido Régulo. Na praça central, um Monumento em cimento branco com muitos nomes de portugueses (sim portugueses de Timor e de Portugal) que aí deram as suas vidas à Pátria, durante a ocupação japonesa da ilha. Junto da base, uma lápide já estalada pelo tempo, onde ainda se pode ler:
“Aqueles que por obras valorosas se vão da Lei da Morte libertando”
Esse singelo e frio Monumento, perdido nas serranias de uma recôndita povoação do interior de Timor, testemunha, para sempre, os feitos valorosos daquele punhado de heróis desconhecidos e esquecidos, que pagaram com a vida o Amor e Fidelidade a um Portugal que, em 1945, os abandou, e viria a fazê-lo, mais tarde, volvidas três décadas, em Agosto de 1975, cobrindo a todos os portugueses de vergonha, principalmente tratando-se de militares que juraram, nas paradas dos Quartéis, defender a Pátria.
Viu-se, posteriormente, a fuga vergonhosa para a ilha de Ataúro...
Era a fatídica e impertinente repetição da História...
Da janela da casa do chefe, sentindo o vento uivando nas frestas das portas e ondulando nas encostas os malmequeres amarelos, ouvindo as crianças entoando o Hino Nacional e rezando na única Escola da povoação, dei comigo, caro leitor, a meditar na História de Portugal e de Timor...
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Como o autor, indegfeso, caiu nas malhas da PIDE/DGS
Após a dita reforma agrária de Baidubo, em que foram distribuídos lotes de várzeas para a população sem terra, a polícia política começou a não me ver com bons olhos, ainda mais por ter impedido que um dos seus agentes conduzisse uma viatura da Corporação sem a respectiva carta. Também, anos antes, lhes negara informações, aquando da minha estadia em Fohorém, fronteira com o Timor indonésio. Acrescente-se, que eu era rádio-amador e ainda hoje sou, e contactava colegas na então URSS, exibindo na minha estação alguns postais com foices e martelos (coisas consideradas altamente subversivas para a época). Acrescente-se o facto de ser cabo-verdiano, numa época em que Amilcar Cabral dava águas pelas barbas à tropa portuguesa na Guiné-Bissau, podia, eventualmente, estar ligado ao PAIGC. Como autoridade, gozava da imunidade inerente ao cargo de administrador do concelho de Viqueque. A PIDE/DGS havia de engendrar um estratagema para me apanhar em falso. A oportunidade surgiu pelas circunstâncias que relatarei de seguida, tanto mais que a minha vida privada era seguida pelos criados da casa.
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Viqueque, feriado de 1 de Novembro de 1973 Dia de Todos os Santos
O então Governador A.A. tinha uma visita marcada ao concelho. A minha mulher ultimava os preparativos para a recepção do mais alto governante da Província, e, inadvertidamente, jogara fora algumas cargas de gás para garrafa-cifão, que, aparentemente, estariam inertes. Os meus filhos, ainda garotos, apoderaram-se das ditas garrafinhas de aço e colocaram-nas numa fogueira do quintal. Nesse dia, estava eu no Gabinete ultimando um discurso que seria lido na sessão camarária de boas-vindas ao Governador, quando ouvi um enorme estrondo, que fez estremecer as paredes das casas e a vila. Vim à rua inteirar-me do sucedido, pois o som parecia-me ser o da explosão de uma granada, das muitas deixadas em Timor pelos japoneses e australianos durante a segunda guerra, e com as quais as crianças, algumas vezes, tragicamente, brincavam. Um mainato veio a correr chamar-me e quando cheguei à casa encontrei um dos meus filhos, o mais velho, com o peito aberto por um estilhaço de aço de uma das garrafinhas de gás, que explodira com o calor da fogueira. Corri para a Secretaria e pedi uma ligação urgente para Díli, a mais de duzentos quilómetros de distância. Por milagre, consegui falar com a capital, coisa rara logo à primeira. Pedi um avião para evacuar o ferido. O aparelho estava na pista de Díli e levantou voo para Viqueque. Entretanto, o enfermeiro local fez-lhe os curativos possíveis e ligou-lhe o soro. De imediato, foi transportado numa maca para a pista de terra batida, construida no meio dos coqueirais. Só que o piso, por falta de uso, estava coberto de bostas de búfalos que impediam o avião se fazer à pista. Todos os presentes ajudaram a remover os excrementos e eram muitos, e o avião aterrou, para de seguida levantar voo rumo a Díli, onde uma equipa de médicos esperava o ferido para uma difícil e delicada intervenção cirúrgica de peito aberto.
Foi no mesmo Hospital onde ele nascera, sete anos anos. Guardei, como recordação, esse estilhaço de aço que lhe cortou o esterno e a pleura e, por pouco, atingia o coração.
Foi longa a nossa espera junto à sala de cirurgia, até que um médico militar nos veio dizer que o nosso filho nascera pela segunda vez. Se o estilhaço tivesse dado mais uma volta, nada havia a fazer... Tivemos muita sorte. Entretanto, não foi possível adiar a programada visita do Governador ao concelho, pelo que tive de ir recebê-lo em Viqueque, enquanto minha mulher ficava em Díl, com o filho convalescente.
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PIDE/DGS
Terminada a visita oficial do governador, fui ao Gabinete despachar a correspondência acumulada sobre a secretária, e, inadvertidamente, abri um sobrescrito verificando, pelo seu conteúdo, ser destinado à PIDE/DGS de Viqueque. Constatado o engano, anexei um cartão ao sobrescrito, com um pedido formal de desculpas pelo engano havido, tanto mais que a Administração também recebia correspondência da DGS, referente a pedidos de residência e de naturalização de muitos cidadãos estrangeiros chineses.
O facto morreu ou caiu no esquecimento - pensei erradamente.
Meses após, quando me preparava para embarcar para a Metrópole no gozo da minha licença graciosa, fui intimado pelo indentende V.S. (que viria a ser fuzilado durante a guerra civil de 1975), a comparecer na Sede da DGS, em Díli, para prestar declarações. Afinal, o agente de Viqueque apresentara queixa contra mim, por violação da correspondência da PIDE! Santo Deus! A PIDE/DGS a falar de violação de correspondência!... O chefe, em Díli, era o tal inspector R. que me contactara, anteriormente no sentido de saber se podia fornecer-lhes informações sobre as actividades verificadas na fronteira com a Indonésia. Na altura, expliquei-lhe que as minhas informações eram de serviço e canalizadas ao gabinete do Governador, em Díli, onde poderia obtê-las. Não gostou da resposta e aguardou.
Nessa manhã fui ao Largo do Palácio das Repartições, em Díli, e lá deixei a viatura, seguindo a pé até à Sede da PIDE/DGS, nas traseiras do edifício. Ao longe, a altaneira ilha de Ataúro com o seu pico mais alto tapado de brancas nuvens, que trariam mais chuva. O céu estava coberto de um azul claro e no ar um cheiro adocicado a flores das tamareiras, e acácias rubras cobrindo o chão do Largo do Palácio com as suas pétalas da cor dos tijolos. Os pardais chilreavam incessantemente nas copas das árvores - felizes e completamente indiferentes ao meu drama...
- Quem me dera ser um deles pensei eu...
A minha pistola metralhadora FBP ficara na viatura, por debaixo do banco de trás. Dirigi-me ao edifício. Um agente, de semblante carregado, impecavelmente vestido e cheirando a loção de barba recente, conduziu-me ao gabinete do chefe. Entrei! O inspector cumprimentou-me friamente com um gesto de cabeça indicando-me uma cadeira de pau-rosa a cheirar a verniz ainda, ao lado de uma secretaria de teca atafulhada de papéis e processos.
O inspector olhou a rua através da janela de vidros limpos, enquanto enchia calmamente a sua caneta de tinta de tampo em ouro. Depois, limpou o aparo reluzente num mata-borrão já muito usado, abriu a gaveta e retirou um sobrescrito com o logotipo daquela maldita Polícia, ao qual vinha apenso um cartão com um agrafo ferrugento - o mesmo que eu tinha escrito, meses antes - apresentando as minhas desculpas pelo embaraçoso lapso havido...
-Esta letra é do senhor administrador, não é verdade...!
Sim!
Li o cartão. Era o mesmo que eu escrevera meses antes, pedindo-lhe desculpas formais pela abertura inadvertida de uma carta que não era a mim dirigida.
-O senhor administrador, deliberadamente, violou a nossa correspondência e, como deve saber, o acto dá-lhe, no mínimo, dois anos de prisão efectiva.
E os pássaros chilreando nas acácias rubras do jardim. Um agente, de cigarro na boca, veio colocar uma pasta castanha sobre a secretaria do inspector, a fitar as árvores, talvez contemplando as flores encarnadas das acácias ou as suas vagens batendo secamente umas nas outras, num matraquear incessante, irritante mesmo. O inspector levantou-se fazendo cair para o chão uma pasta preta prenhe de papéis. Com o indicador da mão direita apontou para uma máquina de escrever preta, das antigas, uma Royal e para a resma de papel azul de vinte e cinco linhas, alinhada ao lado da máquina. Depois, olhou para mim, dizendo-me:
-Defenda-se!
Uma surda raiva invadiu-me, de tal forma que pedi licença para ir tomar um café lá fora. Saí da Sede da PIDE, desci a escadaria de acesso à varanda, atravessei o Largo do Palácio, entrei no Land Rover e sentei-me no banco contemplando a ilha de Ataúro e as flores das acácias rubras, cujas pétalas baloiçavam sobre a mim. Olhei para o cano azulado da FBP, com dois carregadores. O meu primeiro pensamento - fruto de uma surda revolta - foi pegar na arma, subir os degraus do edifício e varrer todos os agentes que encontrasse à minha frente até chegar ao gabinete do R...Como oficial de tiro que fui, manejava a arma com facilidade. Nas minhas mãos sentia o frio do azulado aço. Olhei, outra vez, para a ilha de Ataúro, mesmo à minha frente; algumas pétalas, impelidas pela aragem da baía, caíam em cachos sobre a lona amarelada da viatura.
Uma revoada de loricos verdes cortou o céu, a caminho das altas copas. Foi, então, que vi um punhado de garotos jogando à bola na fresca relva verde do jardim fronteiro. Pensei nos meus três filhos pequenos que, àquela hora da manhã, brincavam nos relvados do Hotel Turismo e no nosso próximo embarque para Lisboa (1973), fugindo do Paraíso, cujo futuro se adivinhava trágico. Sabia-o por instinto!
Pousei a pistola no piso da viatura e dirigi-me à Sede da PIDE para o resto do revoltante interrogatório. Fiquei a saber que todos os meus passos eram vigiados pelos próprios criados da casa, os informadores pagos, e muitas coisas mais... Uma polícia política diabólica e sinistra. O processo transitou para o Tribunal e, para eu poder embarcar para Lisboa, em 1973, tive de declarar a minha futura residência, para audiência de julgamento, em Portugal. A minha mulher perdeu, naqueles desgastadores dias, cerca de dez quilos, tal a nossa impotência face à prepotência da polícia política PIDE/DGS, em Timor.
Embarcámos.
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Felizmente dá-se o 25 de Abril de 1974 - a minha Revolução.
O processo por violação deliberada da correspondência, instruído pela PIDE/DGS deve andar algures, arquivado.
FIM DO II VOLUME
[1968-1974]
____
N.A.
Por ironia do Destino, e quando trabalhava no Q.A, em 1976, viria a ser eu a fazer a colocação do tal agente da PIDE de Viqueque, nos Serviços de Estrangeiros e Fronteiras de Portugal e, algumas vezes, cruzei-me com dito Inspector R. que, certamente, desempenha funções importantes neste país.
TOMO III
TIMOR
POLÍTICO,
Setembro de 1974
A
Agosto
De
1975
CAPÍTULO I
Apontamentos para a História de Timor - Set 1974 - Agosto 1975
Após alguns meses de férias em Portugal, em consequência do 25 de Abril de 1974, e quando me preparava para ficar, a residir em Portugal, fui obrigado a embarcar para Timor para reassumir as minhas funções, ou era exonerado pura e simplesmente da função pública [era assim após a Revolução]. Acompanhado da mulher e três filhos não tive outra saída que não fosse partir para Timor, em pleno Verão quente de 1974, meses após a revolução dos cravos, quando pelas ruas de Lisboa desfilavam as ruídosas manifestações de Liberdade e nas paredes os slogans mais variados, com destaque para os encarnados, do partido dono da situação política e social, após tantos anos
na clandestinidade. Era a Liberdade proclamada e festejada.
Cheguei à ilha de Timor em Setembro de 1974.
O avião dos TAT rolou pela pista de Comoro e parou os dois motores, levantando uma nuvem de poeira que ficara a pairar no ar morno daquela manhã. Via, pela terceira vez, na minha curta mocidade, a ilha de Timor. Um táxi levou-nos à pensão do china Mi Hapo, já meu conhecido nas anteriores andanças pela cidade, como administrativo e militar. Ele continuava a ser o homem afável de sempre, como são todos os chineses. Possuia uma Pensão na mais importante avenida da capital. Eu e a minha mulher arrumámos as malas no quarto, ainda quente pelo sol daquela manhã, aposento apenas arejado por uma ventoínha de pás azuis, de uma marca japonesa muito conhecida, girando ruídosamente sobre as nossas cabeças. Da varanda da Pensão Mi Hapo, enquanto me refrescava com uma Laurentina acabada de saír do frigorífico, a escorrer bolhas de água ainda, mirei a avenida, através dos ramos das acácias rubras dos passeios de cimento. Pelo asfalto, direito a mim, vinha uma grande manifestação; observei, com espanto, todo o aparato, num Timor que deixara, meses antes, pacífico - um Paraíso Perdido. A cidade estava prenhe de pessoas, vindas das montanhas do interior da ilha, convocadas pelos recém-criados partidos políticos. Nos olhos, as faíscas de ódio e de um descontentamento sem limites. A manifestação fora convocada pela FRETILIN, de feição marxista-leninista - segundo me informara o Mi Hapo. Além desse partido - explicava o china - ainda havia mais dois. APODETI (que preconizava uma integração pura e simples na Indonésia) e a UDT que advogava a continuação da ligação a Portugal até Timor estar apto para se autogovernar (cinco a dez anos).
E o senhor Mi Hapo qual deles apoia? - perguntei-lhe!
Ainda não escolhi nenhum, mas a UDT parece-me ser o único que vai respeitar os direitos dos chineses que vivem em Timor, há várias gerações, há muitos séculos...
O barulho tornava-se ensurdecedor o ambiente da varanda quente...
-Viva a FRE-TI-LIN...
-Viva...
-Viva.......
-Viva, viva Timor, viva a FRE-TI-LIN, viva o Povo Maubere...!
Quem é esse povo Maubere...? - foi a minha pergunta!
É o nome dado agora ao povo de Timor, coisa que eles arranjaram...
O mesmo ambiente de agitação que deixei em Lisboa, no célebre Verão quente de Setembro de 1974, que fui encontrar em Timor, tão longe, meu Deus, e do outro lado do Mundo. A minha cerveja já ia no fim, ou talvez nem sequer tivesse tocado nela, tal o meu espanto! Fiquei apreensivo. Conhecera Timor e o seu povo, convivendo com ele de perto, quer durante a minha vida militar, quer como autoridade administrativa, mas nunca contara encontrar tamanha agitação social naquele Paraíso Perdido, agora transformado, quase por milagre, a ilha na Terra dos "Mauberes" - no dizer do china... Todos falavam num tal povo nascido com o 25 de Abril...Mau Bere era um nome mais vulgar em Timor, mas daí a transformá-lo no de um povo!
- Senhor, foi um termo que a FRETILIN inventou para designar os mais desprotegidos da sorte, os coitadinhos, os desgraçados...
Da anterior pacatez da encantadora cidade de Díli apenas restava o agitar sonolento dos ramos das acácias rubras nas praças ou o marulhar triste das ondas, morrendo nos muros da avenida marginal. A mesma Revolução de Abril que deixara em Portugal, dias antes, e cujos tentáculos tinham chegado ao longínquo Timor. A mesma Revolução que fizera com que eu, autor desta narrativa, não fosse parar atrás das grades da cadeia, a mando da PIDE/DGS de então, por “violação deliberada de correspondência”, imagine-se!
Da varanda da Pensão MI HAPO, em Díli, observava, incrédulo, o inusitado movimento de pessoas e viaturas. O povo, tomado por um invulgar fanatismo, gritava palavras de ordem contra os colonizadores portugueses - “os eternos exploradores do sândalo, da teca, das especiarias, do café. Timor agora e já só para seu povo - os timorenses!
-"Timor para os timorenses” - era a frase mais ouvida... “Estrangeiros para fora da nossa terra...”!
Eu e a minha mulher, com excepção de dois filhos nascidos em Díli, éramos estrangeiros, pelo que a frase ficou retida no meu ouvido, talvez para sempre... Foi então que me apercebi, estar num Timor diferente - a tal Terra dos Mauberes, em que o transformaram... Se tivesse meios económicos para pagar as passagens eu e a minha família teríamos regressado a Portugal, nesse dia de Setembro de 1974. Esse Timor onde estava já não era português e nada tinha a ver com a minha forma de ser e de estar no Mundo... Enquanto tamborilava com os dedos no tampo de pedra da mesa da varanda da pensão MI HAPO, olhei um Régulo, um catuas, que trazia as vestes tradicionais de guerreiro: espada, penas de galos na cabeça, peles de cabrito nos tornozelos, luas de ouro e prata no peito e testa. Marchava, firmemente, em frente da sua companhia de leais moradores, com os pés tomados pelo pó da longa caminhada até Díli. Fora convocado (ele e o seu reino) pelo partido manifestante - a FRETILIN. As motocicletas chinas passavam ruidosamente e os Unimogs percorriam as ruas de Díli, apinhados de soldados metropolitanos guedelhudos, de fardas sujas, barbas de vários dias e rostos tisnados pelo pó do desleixo reinante - uma tropa-fandanga, uma vergonha - no dizer de alguém com bom senso, cópia do que deixara em Portugal de Agosto de 1974. Eu, que fora militar em Timor, anos antes, senti-me vexado... Pedi uma outra cerveja fresca ao Mi Hapo, que, no Bar, me ouvira com dificuldade devido ao barulho ensurdecedor vindo da avenida. Enquanto molhava os meus ressequidos lábios, sentindo o pó da rua crepitar nos dentes, observava um punhado de crianças que brincava despreocupadamente por entre as viaturas estacionadas junto aos passeios cobertos de pétalas das acácias rubras. Sem querer, pensei no sangue que viria a ser derramado no Timor dos Mauberes e nas profecias de um ancião que vira a Bandeira Nacional cair, sem motivos aparentes, lá do alto do mastro de ferro do Palácio das Repartições, numa comemoração de um 10 de Junho, ainda chamado pomposamente - “Dia da Raça”.
- Senhor, outra grande desgraça está para acontecer em Timor...
Fui dormir a sesta. À tardinha, quando passei pela marginal, o rebuliço desaparecera e nas ruas só havia lixo. Os manifestantes seguiram para as montanhas, aguardando uma nova convocatória de um outro Partido, dos três já existentes ou, melhor, criados e mantidos pelo Governo...
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Aileu
23 de Setembro de 1974 versus Zona Libertada de Timor
Após uma curta estadia em Díli, recebi guia de marcha para me apresentar em Aileu, como administrador daquele Concelho, situado a pouco mais de cinquenta quilómetros da capital. A localidade já era minha conhecida, aquando da prestação do serviço militar como alferes miliciano como já me referi. Eu, a minha mulher e os três filhos menores seguimos de Land Rover pela estrada de Dare, atravessando as plantações de café do Costa Alves e as densas florestas de palavões ensombrando a picada, quase sempre esburacada e enlameada, bem cortada por regueiras abertas pelas últimas chuvadas. Díli ficara para trás, mergulhada no habitual manto de fumo e pela densa neblina matinal.
A vila de Aileu tinha um passado bem sinistro, ainda na memória dos mais velhos, pois fora, infelizmente, palco de muitas atrocidades das tropas japonesas durante a segunda guerra, em colaboração com as famigeradas e temidas colunas negras de más recordações para a população. Transcrevo, por achar importante para esclarecimento do leitor, uma passagem do livro Vida e Morte em Timor Durante a Segunda Guerra, do autor que cito (*):
Falando de Aileu....................................................................
...
“ ...Altas horas da noite desse dia chegou ao hospital de Lahane um timorense, emissário de um liurai dos arredores de Aileu, com um bilhete redigido, mais ou menos, nos seguintes termos....................................................................:
Senhor Engenheiro. Eles foram a Aileu e estragaram tudo. O portador da mensagem nada mais pôde adiantar para satisfazer as perguntas que com natural ansiedade lhe fizemos, pois não vivia em Aileu. Contou-nos, então o sargento Martins que na madrugada do dia 1 de Outubro, o aquartelamento da Companhia, instalado no depósito de degredados de Aileu, havia sido subitamente atacado e bombardeado por morteiros e, em seguida, por granadas de mão e alvo de tiros de metralhadora e espingarda, ouvindo-se gritos em língua indígena desconhecida no Timor português mas entre as quais se distinguia a palavra “Atambua”. Tratava-se, pois, de uma coluna negra principalmente recrutada nessa cidade do Timor holandês. A guarda da Companhia, encurralada dentro dos muros do presídio, pois os japoneses haviam exigido que não patrulhasse as suas imediações, reagiu, saindo à portada, disparando uma metralhadora e espingardas. Os cabos Evaristo Gregório Madeira e Júlio António da Costa, os soldados Álvaro Henriques, Maher e João Florindo e vários soldados timorenses, tendo morrido, atingidos pela metralha, aqueles quatro europeus e seis soldados timorenses. O ataque parou então, o que permitiu a fuga dos sobreviventes tendo, porém, alguns militares europeus ficado dentro do edifício de aquartelamento, escondidos e acaçapados no vão de um sobrado, coberto com as tábuas que tinham levantado. Assim se mantiveram até que, na manhã seguinte, a tropa japonesa que visitou o edifício, os descobriu, com evidente surpresa e desapontamento...”
“... A menina Julieta, filha do tenente Lopes, contou-nos pormenorizadamente a tragédia que se tinha desenrolado na habitação em que estava instalado o comandante da Companhia e situada perto do aquartelamento. Naquela noite, temerosos de acontecimentos terríveis que pressentiam, haviam-se acolhido à casa do comandante, o administrador Virgílio Duarte, o Dr. Dinis Ângelo Arriarte Pedroso (delegado de saúde da zona oeste que habitava em Aileu desde o mês de junho), o secretário da administração de Aileu, José Gouveia Leite, sua esposa e dois filhos, (um de sete anos de idade e outro ainda de peito), o chefe de posto auxiliar António Afonso, as três filhas do tenente Lopes e o filho do tenente Liberato, de doze anos de idade. O ataque pincipiou pelo quartel mas logo passou à casa do comandante que foi varrida por saraivadas de balas a que começou a ser lançado fogo, pegando-o a uma dependência que servia de capoeira e lhe estava encostada. Não tendo dúvidas que iriam ser mortos e torturados pelos assaltantes, tal como acontecera ao Martins Coelho em Maubisse, e vendo que ficariam assados no braseiro em que a casa ameaçava tornar-se, todos os que ali se encontravam foram tomados do maior pânico, em especial os que temiam os piores vexames para as suas esposas que preferiam ver mortas. Em resultado deste estado de espírito, o capitão Freire da Costa suicidou-se com um tiro de pistola na cabeça, a sua esposa procedeu do mesmo modo com um pequeno revólver, o Dr. Pedroso encostou uma espingarda ao peito e desfechou sobre o coração, e o secretário Gouveia Leite e o chefe de Posto António Afonso meteram espingardas sob o queixo e dispararam. Em poucos instantes todos estes estavam mortos. O administrador Virgílio Duarte teve, então, a ideia de se misturar com os cadáveres e se fingir morto. Assim fez, e foi isso que lhe salvou a vida
N.A:
(*)Morte em Timor Durante a Segunda Guerra, pgs. 53 e 54 (Edição Livraria Portugal - Lisboa), de José dos Santos Carvalho (médico em Timor em 1940)
Esta transcrição serviu, apenas, para levar o leitor a Aileu e fazê-lo compreender a carga psicológica e o cheiro a tragédia que o nome AILEU despertava na população e em mim próprio, por que não dizê-lo aqui e agora!
Pois bem, quem tiver a ocasião de visitar Aileu não deixe de entrar no seu Monumento aos Mártires e ler os nomes nele inscritos - meditar um pouco. Foi nesse fatídico e sinistro Aileu, o local onde viria a ter lugar o pior periodo da minha conturbada a perigosa permanência
Aileu, essa terra mártir foi escolhida para sede da FRETILIN - a primeira zona libertada de Timor - pelo partido que advogava a independência imediata e incondicional da ilha, sem a presença dos colonialistas portugueses, onde eu me incluiram, claro está. Aileu era a terra de A.A., na altura estudante em Lisboa, um dos líderes mais moderados do partido e pessoa minha conhecida. Por esse facto, Aileu era zona predominantemente Fretilin, podendo afirmar-se, sem grande margem para erros, que quase toda a população aderira ao movimento para a independência de Timor, com o consequente corte de relações com tudo o que estivesse ligado a Portugal, dos colonizadores e colonialistas.
Nos comícios, falava-se, à boca cheia, “dos portugueses que durante quatro séculos só souberam explorar o nosso sândalo, o nosso café, as nossas madeiras preciosas, etc...” Não muito distante, no posto administrativo de Maubisse, acontecia o inverso. A UDT tinha o apoio da totalidade da população por ser um partido mais moderado advogando uma ligação a Portugal. Os portugueses eram tratados pela FRETILIN como sendo os grandes colonizadores e opressores do povo timorenses e, portanto, deviam saír “irem para as suas terras”, incluindo os funcionários e famílias.... O ódio foi sendo lenta e sistematicamente semeado pelos concelhos, postos, sucos e povoações, visando, principalmente, as comunidades estrangeiras residentes: chinesa [a maior], cabo-verdiana e metropolitana, com destaque para as professoras portuguesas e esposas dos militares. A UDT (o partido mais conservador) não hostilizava os não naturais de Timor, pois pensava poder contar com eles nos seus quadros, indispensáveis à necessária modernização, ainda que a prazo, de um Timor independente. A UDT tinha boa implantação em Díli, Same, Maubisse, Ainaro e outros concelhos.
A APODETI gozava de pouca influência na ilha, possuindo pequenos núcleos espalhados pelo interior da ilha, principalmente em Atsabe (local de residência do régulo, um apoiante incondicional da integração de Timor na Indonésia) e Zona de Viqueque, Uato-Carbau, pelos factos já apontados. O partido tinha muita aceitação nas zonas fronteiriças onde as populações tinham legítimas ligações sentimentais ao Timor Indonésio (recorde-se que quando da partilha de Timor entre Portugal e a Holanda, antes da Indonésia existir, a divisão foi feita separando o mesmo povo dos dois lados por uma fronteira artificial, traçada a lápis pelas mãos dos homens...). A Apodeti dispunha de alguns adeptos na região de Viqueque (zona dos revoltosos de l959) como já me referi, uma ínfima parte da população, diga-se em abono da verdade. O régulo de Atsabe era pessoa muito prestigiada e apoiada pelo regime deposto pelo 25 de Abril e, por diversas vezes, veio a Portugal, a convite dos Governos de Salazar/Caetano, acompanhado da esposa, senhora de fino trato, que sabia receber principescamente as autoridades e militares, na sua residência em Atsabe, muito conhecida pela habilidade e competência postas na confecção dos doces e dos requintados pratos da gastronomia timorense, com destaque para o leitão assado no forno e a bebinca (doce feito com batata-doce).
Hoje, volvidas várias décadas, e analisando à distância a figura do régulo, pessoa muito estimada no seu meio, penso que fez jogo duplo, apoiando, discretamente, havia longos anos, uma integração de Timor na Indonésia e recebendo ao mesmo tempo as benesses do Governo e da Metrópole. As suspeitas da sua ligação aos indonésios eram evidentes. Durante a minha vida profissional, acompanhei um administrador a Atsabe para interrogatório de alguns suspeitos de ligações perigosas com elementos indonésios, interrogatórios feitos sob coacção psíquica e física, em moldes a dar pouca credibilidade às confissões obtidas, e então ficara no ar a suspeita de ligações do régulo e súbditos com estrangeiros indonésios. O futuro viria a comprovar isso mesmo, após a anexação de Timor, pelo cargo que lhe foi confiado. Entretanto, as campanhas da FRETILIN contra os administrativos (ditos colonialistas) continuavam a dar frutos junto das populações em estado de pré-revolta... Convém sublinhar que havia actuações reprováveis de algumas autoridades (onde se incluiam naturais de Timor), que, por vezes, exerciam alguma violência sobre as populações obrigando-as a trabalhar gratuitamente no arranjo de estradas e pontões, quando o Governo disponibilizava verbas para tal ou ainda recrutando trabalhadores [os tais voluntários devidamente amarrados] - no dizer de um administrativo - para trabalhos gratuitos ou mal remunerados, nas ricas fazendas de café, outrora pertencentes ao povo e expropriadas, indevidamente, a favor de alguns colonos portugueses, deportados para a ilha de Timor pelo regime de Salazar. Esse estado de coisas foi habilmente aproveitado, à posteriori, pelos partidos políticos, para minar as autoridades existente funcionando com defeitos no meio do caos reinante, mas as únicas capazes de manterem a ordem no território e evitar a guerra civil. Um recém-chegado Governador, convocou os administradores dos treze Concelhos de Timor [número fatídico] para uma reunião no Palácio das Repartições e lhes comunicar ser do seu conhecimento as irregularidades e abusos por parte dos administrativos e que, “com ele, os incompetentes e desonestos não trabalhavam e que fizessem as malas e partissem para Lisboa”. Acabada a reunião, e por sentir que nem todos os administradores de Timor deviam ser misturados no mesmo saco (havia muitos que eram competentes, honestos, dignos e dedicados), apresentei o meu pedido para deixar o território e vir para o recém-criado Quadro de Adidos, em Lisboa. Quebrada a espinha dorsal às autoridades, as únicas que, no mato, podiam evitar uma guerra civil entre adeptos dos partidos políticos, estava dado o primeiro passo para o início de um sangrento conflito, com uma Indonésia apreensiva e muito atenta aos acontecimentos. Desprestigiados os representantes da ordem legal, passaram os partidos e os elementos das brigadas dinamizadoras do MFA (alferes com pouca experiência da vida e poucos conhecimentos do timorense) a substituir as autoridades estabelecidas, como a seguir tentarei explicar ao leitor: nas escolas, as crianças eram obrigadas a pôr de lado as antigas cartilhas portuguesas para seguirem os manuais revolucionários, impressos em Lisboa, sim em Lisboa, e em que as figuras da História Portuguesa, com Vasco de Gama, Camões, Infante D. Henrique e outras eram aí ridicularizadas. Minha mulher, professora em Aileu, nunca seguiu as tais cartilhas revolucionárias exportadas de Portugal, facto que levou um malaio a que chamarei de M.A.( e exerce, hoje, funções importantes em Timor) a afixar um cartaz à porta da minha residência oficial em Aileu “mandando-nos para as nossas terras”. Eu para Cabo Verde a minha mulher para Lisboa - sua terra! Esse mesmo indivíduo, em data recente, escreveu num matutino lisboeta um artigo arrogante sobre Timor, quando é um dos responsáveis pela situação de guerra civil que ainda assola a ilha. Enviei para publicação uma nota de repulsa, mas não veio à luz, como era hábito na imprensa portuguesa dessa época, em que os demónios eram anjinhos... Foi pena, pois assim o povo português ficaria a conhecer um pouco mais a história desse sujeito que fala em direitos humanos, coisa que nunca respeitou em Timor...
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A visita de um ministro de Portugal a Aileu
A situação política em Díli, e, de um modo geral em todo o Timor, agravava-se dia-a-dia, imperando o caos semeado pelos partidos políticos, a ponto de se falar, abertamente, numa possível invasão da ilha pelas tropas da Indonésia.
Escreveu M.L.P, então Governador de Timor, (a página 171) do seu Livro Descolonização de Timor, Missão Impossível?:
“... Entretanto a situação de tensão não era apenas no âmbito político mas também no das populações e no militar. Nos fins de Maio os pára-quedistas tiveram de ir para a região de Maubisse, onde havia grande agitação entre adeptos da UDT e da Fretilin. Esta agitação resultava de uma animosidade crescente entre os líderes da UDT e da Fretilin da zona, fazendo-me acompanhar de delegados daqueles partidos para que vissem o clima que se estava a gerar e, com a sua adesão, determinar medidas de excepção, tais como suspensão de comícios e manifestações, bem como a venda de álcool"...
Uma provável invasão de Timor pela Indonésia tomava corpo e alojava-se nos espíritos conturbados das populações, tanto mais que, em emissões diárias da rádio, ela avisava, em tétum, malaio e em vários dialectos locais que “não toleraria a presença de comunistas em Timor”. Ainda me recordo de uma frase, que cito:
.Quando a gente vê a casa do vizinho a arder pega num balde com água..................................................................!
Embora não sendo a Fretilin a maior força política na ilha, era, na verdade, a que mais militância tinha, pelo barulho que fazia e ainda por gozar de um incondicional apoio do MFA (estávamos em Novembro de 1974) e de alguns majores, capitães e alferes de Abril. Os boatos da invasão eram tão consistentes e frequentes que Portugal resolveu enviar uma delegação a Timor com o fim de acalmar os ânimos.
É então que se dá um facto insólito e que teve enormes repercussões nos espíritos confusos dos timorenses. A delegação era esperada em Díli, onde a população se concentrara, convocada pelos partidos e autoridades administrativas. A esperada delegação de Lisboa nunca mais chegava, retida, ao que parece, na Indonésia para conversações antecipadas, como se veio saber. O povo queria ouvir algo de um representante de Portugal que tranquilizasse os conturbados espíritos, pois entre potência colonizadora e a Indonésia, os timorenses, sem dúvida alguma, prefeririam a primeira, mesmo com todos os defeitos e rótulos de colonialista. Como vos ia dizendo, o insólito aconteceu. A delegação não chegava a Díli, para desespero daquela gente que aguardava a vinda da ilustre comitiva. Com poucos mantimentos trazidos das montanhas quase esgotados, havia fome em Díli. Alguns chefes vieram falar-me manifestando a vontade de regressarem aos seus reinos e sucos levando de volta as suas gentes, numa debandada geral que seria um grande fiasco tratando-se da recepção de um alto representante de Lisboa. Se tal acontecesse, caía por terra a aparente submissão dos timorenses, gente indefesa e entregue aos caprichos de partidos políticos sem preparação. Foi difícil convencer os chefes a ficarem em Dili à espera do visitante. Algumas notícias diziam que a delegação estava a negociar a entrega.
-Negociar o quê? - perguntavam os chefes, atónitos! Será que já estão a negociar a entrega da nossa terra?!...
O ilustre visitante chegou a Díli e o seu discurso de abertura, proferido no salão nobre do Palácio das Repartições e retransmitido para o Largo pelos altifalantes colocados nas janelas, não conseguiu serenar os ânimos. Afinal, o povo só queria ouvir palavras de confiança:
Na ida ao interior, a delegação parou em Aileu (zona da Fretilin, por mim também administrada), a meio caminho entre Aileu e Maubisse, esta uma zona da UDT. A população de Aileu concentrara-se junto à estrada principal, ao lado do quartel, para dar as boas-vindas ao ilustre visitante e comitiva. Havia gente das povoações vizinhas, com predomínio dos Fretilins. Foi a custo que conseguimos separar os adeptos dos dois principais partidos de forma a evitar uma perigosa e iminente confrontação de consequências imprevisíveis. Entretanto após o almoço e antes da comitiva chegar, os ânimos exaltaram-se e alguns elementos da UDT quiseram ajustar as contas com os fretilins e só a minha rápida intervenção e a dos sipaios evitou uma generalizada confrontação nas barbas do visitante e sua comitiva. Foi nesse ambiente de pré-revolta que o ministro chegou a Aileu, a primeira zona libertada de Timor, onde a Fretilin punha e dispunha, apoiada pelos elementos do MFA. Ainda ouviram-se vivas a um Portugal... Um grupo de bailarinas exibia-se no meio da multidão, no Largo da Secretaria. Uma destacou-se do grupo e entregou ao visitante uma caixa em prata trabalhada, com a terra dos treze Concelhos, dos filhos de Timor para a Mãe-Pátria...Todos os presentes ficaram comovidos. O próprio ministro, visivelmente comovido, recebeu a caixinha de prata e deixou cair os óculos escuros que trazia. Fui eu quem os apanhou para lhos entregar. Ele estava comovido... Adeus a Aileu, zona predestinada pela História, para ser palco da maldade humana, como veremos em breve. Não tenho jeito para poesia, mas apeteceu-me dedicar à tal caixinha de prata, alguns versos sem rima:
Caixinha
De
Prata
trabalhada
Onde
estarás?
Caixinha
de
prata
rendilhada,
caixinha
mágica,
caixinha
de
prata
trabalhada,
pelas
mãos
de
timorenses.
Ficaste
cheia
de
terras
dos
concelhos,
treze...
dessa
martirizada
ilha
de
Timor...
A
terra
tantas
vezes
ensanguentada
e
maltratada,
por
culpa
de
portugueses
de
timorenses...
de TODOS,
do
MUNDO
de
PORTUGAL,
de
TIMOR...
autor: adriano gominho
AILEU
1975
CAPÍTULO IV
O fermento da revolta a levedar em Timor
O fermento da revolta, espalhado junto das populações pelos partidos políticos e pelos alferes recém-chegados de Lisboa, pertencentes ao grupo dinamizador (dois eram timorenses) começava a levedar. O povo não trabalhava nos campos; as autoridades tradicionais eram desrespeitadas, sobrepondo-se-lhes as teorias e dogmas, retirados dos estafados catecismos de Mao. Diziam às populações que Timor seria, em breve, independente, uma terra de abundância, logo que saíssem os ditos colonizadores portugueses, os únicos entraves ao desenvolvimento da ilha; que os países ricos incluindo a Austrália ajudariam o povo a recuperar o atraso de séculos em que Timor se encontrava mergulhado, etc, etc... Tudo constituía motivo para festanças, manifestações e comícios, como se Timor pudesse viver sempre do ar ou das ajudas estranhas. Já havia fome em Díli e foi preciso o governo importar, com urgência, arroz, milho e outros géneros de primeira necessidade da vizinha Singapura. O clima de afrontamento às autoridades bateu-me à minha porta, quando um dirigente da Fretilin quis obrigar-me a soltar da prisão um embriagado, que, munido de uma catana, ameaçava matar... O motivo alegado por esse dirigente foi de que o filiado tinha um casamento naquela tarde e não podia faltar. Claro que mantive-me firme na decisão de não mandar soltar o detido, pelo menos enquanto estivesse embriagado, sujeitando-me a represálias (estava numa zona Libertada). Na altura, dei ordens para o uso da força se a Fretilin invadisse a prisão. À noite, eu mesmo, munido da FBP, fiz a ronda à prisão, pronto para qualquer eventualidade. Note-se que eu era o representante legal do Governo na zona libertada de Aileu e que nunca me abdiquei da autoridade inerente ao cargo de administrador do concelho e presidente do mesmo município de Aileu, um dos treze de Timor de então.
Até então, os chefes tradicionais eram nomeados pelas autoridades, mas, agora, passariam a ser eleitos pelo povo. Assim, os partidos poderiam pôr na chefia dos sucos e povoações as pessoas da sua confiança. Mas isto é a Democracia! - pensa o leitor. Os timorenses vivendo de acordo com os seus usos e costumes ancestrais não aceitariam, sem uma prévia preparação, as novas regras democráticas, só pelo facto de um indivíduo obter mais votos que um outro. E o prestígio? Os antepassados? As riquezas? Os usos e costumes ancestrais? Outros valares a serem tidos em conta? Era todo esse primitivismo tradicional que teria de ser acautelado, ao querermos passar da escolha dos chefes para uma eleição, dita livre, numa época em que a Liberdade como a conhecemos não era entendida em Timor. Coacção, sim! Havia medo e ameaças físicas dos partidos políticos. Até imprimiram-se cartões para os timorenses transitarem entre regiões. Alguns adeptos até tinham três, um para cada partido, exibindo-o de acordo com as circunstãncias ou conveniências pessoais...
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As primeiras eleições, ditas democráticas, em Aileu
O que os alferes do MFA e a Fretilin, no caso de Aileu, e a UDT referente a Maubisse, pretendiam era pôr os seus homens nos lugares chave, como acontece nas velhas democracias ocidentais. Como autoridade, fiz vê-los que uma destituição pura e simples de um chefe, indirectamente escolhido pelo povo e nomeado pelo governo, não era tarefa para se fazer de ânimo leve, pois, das populações só poderiam vir gritos de guerra. Eu era radicalmente contra as eleições directas e já, dos chefes tradicionais, naquela época conturbada para Timor, Outubro de l974. Fizeram orelhas moucas às recomendações das autoridades e levaram a cabo a farsa das eleições. Os filiados na Fretilin (só eles) votaram simbolicamente colocando uma pedra num cesto de palha do único candidato escolhido pelo partido. Afinal, só trocaram o governo pelo partido com agravante de não haver uma escolha antecipada dos candidatos por parte da população, como era tradição, embora sem a farsa da eleição. Como autoridade máxima de Aileu, declinei o convite e não assisti à farsa, a que chamaram pomposamente de primeira eleição livre de uma autoridade tradicional em Timor. Com as tais eleições (ditas democráticas) surgiu o primeiro incidente grave com o hastear da bandeira de Fretilin num dos sucos do concelho, onde o chefe tradicional, ora reinante, fora deposto pura e simplesmente. Os timorenses estavam habituados à Bandeira de Portugal e não admitiam nenhuma outra, mesmo que fosse do partido a substituisse. Devido à gravidade da situação, desloquei-me ao Palácio, em Díli, e informei ao Intendente Victor Santa. [viria, infelizmente, a ser fuzilado, posteriormente, em Aileu] dos perigos de uma outra bandeira substituir a Portuguesa, ou mesmo hasteá-la ao lado desta. O intendente afirmou-me sem pestanejar, que o hastear da bandeira da Fretilin em Aileu era igual à cerimónia do hastear da bandeira do Sporting na sua Sede.”
Trágica e simplória interpretação do sentir das gentes do interior de Timor, pois viria o Intendente a ser fuzilado, aquando da guerra civil que se instalou posteriormente em Timor....
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Aileu, corria o mês de Dezembro do ano de 1974
O clima era de pré-revolta e de anarquia generalizada. A tropa metropolitana da localidade, já nada fazia. Vi, por várias vezes, elementos da Fretilin revistarem, ostensivamente, a tropa portuguesa armada e municiada. Alguns elementos dos MFA deslocavam-se, com frequência de helicóptero à povoação para reuniões com os quadros da Fretilin. A chegada desse desconhecido meio de transporte causava grande confusão na vila, pousando no centro do campo da bola, não muito longe da Escola onde minha mulher leccionava. A primeira vez que o aparelho pousou no campo, houve um grande alarido; as galinhas fugiram espavoridas dos quintais; os cães não pararam de ladrar, enquanto o estranho pássaro de cor verde-azeitona, com as suas gigantescas pás, não deixou Aileu.
Assim viria a escrever Nuno Rocha:
“...A História não pode iludir-se e não há que fechar os olhos para se não ver o que há que ser visto. Cada facto de hoje é um exemplo para a História de amanhã. Não vale a pena agora punir os responsáveis - deixêmo-los em paz e levemos as suas acções à conta de um desvario ideológico que ia lançando o povo português numa aventura de regresso difícil...”
In “TIMOR/TIMUR”- Nuno Rocha..........................................................- pg.19
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Natal na Vila de Ermera no ano de 1974
A convite de um regente agrícola da MEAU, da área do café de Ermera, eu, a minha mulher e os três filhos deixamos a conturbada vila, para assistirmos às festas natalícias de 1974, na companhia desse amigo e da esposa. Em Aileu, o clima político ia ficando cada vez mais ao rubro com as constantes manifestações de rua da Fretilin, agora no auge de poder e força. Os comerciantes chineses eram os mais perseguidos, pelo menos verbalmente, por serem os únicos detentores do comércio local [os timorenses aventuraram-se nessa actividade, mas sem êxito pois as suas lojas eram comidas pelos amigos e familiares]. A minha saída para Ermera com toda a família foi tomada pelos comerciantes chineses como um fuga para um local mais seguro, sinal que estaria para breve o tão esperado ataque das forças armadas daquele partido. Sim, falo de forças com armas, dado que todos os quadros e soldados timorenses do quartel da vila de Aileu apoiavam incondicionalmente a Fretilin, só ficando de fora a tropa metropolitana, em pequeno número, e totalmente desmotivada. Já na vila de Ermera, recebi um desesperado telefonema urgente de Aileu, informando-me que todos os comerciantes chineses tinham fechado as lojas e fugido para Díli, com medo de represálias da Fretilin. As condições de vida das populações, já de si gravosas, tornar-se-iam desesperadas com o comércio local encerrado mormente numa época festiva do natal. Esse facto obrigou-me, de imediato, a regressar a Aileu, para solucionar o problema. Chegado à vila, ela estava deserta, sem uma vivalma transitando pelas suas ruas ladeadas de árvores de canela em flor. Todo o comércio estava realmente encerrado. A Fretilin mandara colocar piquetes junto às portas das lojas, atitude que, certamente, desmotivou tentativas de assalto e pilhagem dos recheios por parte da população. Na verdade, o controlo surtira efeito. Desfeitos os boatos do ataque com a minha presença e a da minha família, os comerciantes regressaram à vida normal, sem que ninguém tivesse tocado nos haveres e as lojas abertas...
Entretanto, com a aproximação do fim do ano de 1974, a situação agravara-se e os contornos de uma guerra civil já se desenhavam no horizonte para observadores mais desapaixonados e atentos ao processo político, com uma visão mais aprofundada dos acontecimentos, acrescida de um manancial de informações dos sucos, povoações e dos próprios militares... Muitos foram meus subordinados, anos antes, na companhia de Caçadores nº21. O paiol de Aileu fora despejado e o seu conteúdo transportado para Díli. O restante material obsoleto [vindo de Goa, ironia do Destino] foi jogado ao mar de bordo das barcaças, como chegou a ser denunciado pela UDT e notíciado no jornal local “Voz de Timor”. Na verdade, durante muitos dias, houve um movimento inusitado de viaturas militares entre o paiol de Aileu e os Quarteis de Díli. Por ironia do destino, era o mesmo armamento que viera de Goa para sufocar a Revolta de Viqueque: granadas explosivas e de fumo para morteiros 60, munições 9 milímetros para pistolas FBP e Parabelum e 7,9 para as antigas espingardas Mauser’s, além de material explosivo diversos, que viria a ser usado, posteriormente contra a UDT, em Agosto de 1975, atirando sobre a cidade de Díli e seu porto o que lhes vinha às mãos. Uma testemunha ocular garantiu-me que as primeiras salvas de morteiros, por engano ou impreparação, felizmente, foram de granadas retiradas de lotes das de fumo, engano que deverá ter poupado a vida a muitos fugitivos, no porto de Díli à espera de evacuação, por barco, para Austrália...
Em Aileu viviam alguns oficiais do exército português com as esposas e, quando surgia o boato de um eventual ataque, refugiavam-se na minha casa contando com uma melhor protecção da autoridade administrativa. O clima de anarquia era tal que, certa vez, alguns alferes, vindos de um exercício ou simulacro de patrulha, abordados por alguns garotos (onde estavam os meus), brincando junto à messe, e que nunca tinham visto tal aparato bélico e tantas granadas penduradas nos cinturões dos militares, foram desafiados para que lançassem, por brincadeira, umas granadas.
Espante-se:
Fizeram-no mesmo, ouvindo-se um estrondo por toda a vila. Felizmente a granada explosiva era de plástico, sem grandes estilhaços, não feriu ninguém, mas a irresponsabilidade reinante era evidente! Este acontecimento foi focado para que o leitor se sinta no caos reinante em Aileu, quando decorria o mês de Dezembro de 1974...
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Consoada num Quartel de Aileu, no Natal de 1974...........
Foi nesse ambiente de tensão, descrito no capítulo anterior, que eu e a minha mulher, a convite do comandante da unidade, fomos à ceia do Natal, no quartel de Aileu, na noite de vinte e quatro do conturbado Dezembro de 1974. O quartel, por sinal, ficava mesmo ao lado da minha residência. O dia ficara bem recheado de acontecimentos insólitos que poderiam ter sido trágicos para Timor e que deixaram profundas marcas na pouca confiança que o povo timorense depositava em nós, portugueses e militares. Havia uma companhia de tropa metropolitana sediada em Maubisse, zona de influência da UDT, não muito longe de Aileu onde me encontrava. Nessa tarde, estando sentado a conversar com o comandante de sector (entidade militar máxima em Aileu), ele foi chamado por telefone, que tocara na sala de estar da minha residência. Quando pousou o telefone vinha visivelmente preocupado e disse-me que uma coluna de militares metropolitanos sublevados, protestando contra a má qualidade dos géneros utilizados na confecção dos alimentos, fizera levantamento de rancho e iniciara uma marcha de protesto sobre Díli. Vinham a caminho de Aileu para se juntarem ao contingente da PM, também sublevado na capital, provocando desacatos nas ruas e banhando-se nus numa praia da Díli, junto à Catedral. Pelo semblante carregado, apercebi-me da extrema gravidade da explosiva situação, que precisava de ser controlada a tempo. Despediu-se de mim com um apertar frouxo de mãos e, acompanhado de alguns oficiais, partiu de Jeep ao encontro da coluna dos militares revoltosos a fim de os convencer a regressar ao quartel de Maubisse, pondo termo àquele triste e deprimente espectáculo frente aos timorenses atentos, tarefa que conseguiu levar a bom termo. Os revoltosos regressaram ao quartel, com a promessa “ de que as coisas iriam melhorar”
...Essa triste manifestação de mau comportamento dos soldados metropolitanos veio a deitar por terra as últimas réstias de qualquer confiança depositada naquela tropa, em missão de serviço em Timor. Para os timorenses Portugal acabou nesse dia. Tive vergonha de ser português... Foi a derrocada de sentimentos de respeito, admiração e confiança que deviam inspirar aqueles que juraram defender “qualquer coisa de grave se passava".
Um chefe de uma povoação de Aileu, um catuas de provecta idade, veio falar-me, visivelmente comovido:
- Senhor, para nós, Timor, esse nosso Portugal já acabou!
Para meditar, caro leitor português ou de outra nacionalidade...
- Portugal acabou...Está tudo acabado em Timor...
- Foi para isso que vocês estiveram cá, por muitos séculos?
Afinal, estávamos perante um povo que, durante a ocupação japonesa, morreu para defender a Bandeira Portuguesa, e nós, portugueses, a assistirmos à bandalheira da tropa fandanga, outrora respeitada! Eu próprio fui alferes e tenente miliciano na zona, sentindo ainda a alma triste...
Um outro chefe já catuas segredou-me:
- Mais valia aos timorenses terem ficado do lado dos japoneses...
A partir do levantamento das tropas em Maubisse e da Polícia Militar em Díli, nada ficara como dantes. Já não havia em Timor nenhuma força armada organizada para se opôr aos desmandos da Fretilin e de UDT. Sem a tropa e autoridades administrativas (o Intendente V.S. mandou desarmar os administrativos (agentes máximos da ordem civil). Recusei-me, deliberadamente, a entregar o armamento para a minha defesa que me fora distribuído. Com o prestígio das autoridades constantemente denegrido pelo então governador e por alguns militares do MFA, com a população ausente dos campos, uma ecomomia débil e assente na monocultura do café, de cotação internacional flutuante, a guerra civil era inevitável, a menos que Portugal assumisse (e não queria fazê-lo), a missão de defender ou pôr ordem em Timor. Os partidos não conseguiam travar à incontrolável onda de histeria colectiva que desencadearam contra a ordem estabelecida e contra os residentes não timorenses. Portugal não queria Timor, depois de abandonar as outras colónias (que, até hoje, 1998 - data em que escrevo) não encontraram um rumo certo, com excepção de Cabo Verde e Moçambique...). Hoje choram-se lágrimas de crocodilo juntamente com os timorenses, fala-se de Timor sem conhecimento real do que lá se passou, (tantos assassinatos, meu Deus: Magiolo, Victor Santa, F. Pedruco, colegas administrativos meus...) . A comunicação social guiada num único sentido, recusa-se a compreender o fenómeno Timor. Oxalá este trabalho sirva para lançar alguma luz nos espíritos toldados pela Revolução...
A Apodeti, um partido sem significado, e a própria Indonésia mostravam-se apreensivos com o avanço dos progressistas, ao mesmo tempo esfregavam as mãos de contente, pois sabiam que “Timor caíria de maduro” É que o “transatlântico parado no oceano” seria tomado de assalto, num futuro não distante - o velho sonho da 27ª província da Indonésia - estava à vista, por culpa nossa, dos governantes portugueses e militantes timorenses. Essa é a verdade...
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Aileu- Zona libertada.............................................................
Em Aileu, zona libertada e quartel general das tropas (embrião do braço armado da Fretilin), em Agosto de 1975, só circulavam os portadores dos cartões do partido, tudo feito nas barbas da inoperante tropa portuguesa. Para agravar mais a situação, a tropa metropolitana não escondia que “Timor era dos timorenses” e que “estavam nas tintas para os seus problemas”. O que pretendiam era verem-se livres daquele pesadelo e regressarem às suas terras, quanto antes. Nesse ambiente de pré-revolta, fui cear num quartel de Aileu, na companhia da minha mulher levando ela na carteira uma pesada pistola Parabellum e vários carregadores...para o que desse e viesse, pois estando fardado não era possivel, disfarçar nos bolsos uma arma.
Assim vira a escrever o último governador de Timor:
(*)"O estado disciplinar das tropas naturais e dos elementos metropolitanos era de tal forma preocupante que o comandante militar, em fins de Outubro, solicitou a deslocação de entidade qualificada para solucionar o problema do Exército em Timor... No final do mês de Outubro, o Comandante Militar considerou que o grau de subversão das tropas naturais era muito elevado, em resultado da acção da Fretilin..........................................”
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-In Descolonização de Timor, Missão Impossível.........................................................?
Mário Lemos Pires.........................................................................................., pág.140
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Baile no armazém de batatas de Aileu
(Um entendimento que poderia ter evitado milhares de mortos em Timor - tão simples como isso - Maromac......)
Os géneros da primeira necessidade começavam a faltar em Timor. A população abandonou as várzeas e hortas de milho e mandioca para se dedicar a comícios. Qualquer intervenção das autoridades - “os executantes da política colonialista de Portugal”, como nos rotulavam, era muito contestada. O capim nasceu e invadiu os locais onde, outrora, no tempo colonial, cresciam várzeas de arroz para matar a fome àquela gente, ainda que o seu cultivo fosse imposto, muitas vezes, pelas autoridades. Todos contavam com a abundância após a independência de Timor, a que a Fretilin apregoava a quatro ventos. Apenas na zona de Maubisse algo se produzia, pois a política agrária seguida era outra, havendo apoio técnico de um delegado da extensão rural, implantada havia pouco tempo. Mesmo assim, não se conseguia o escoamento dos produtos agrícolas para Díli, o maior mercado consumidor. As estradas estavam controladas pela Fretilin. Um curto e efémero período de tréguas foi estabelecido entre os partidos, que coincidiu com a marcação da Cimeira de Macau, a realizar a 25 de Junho de 1975. Pareceu-me haver, nessa altura, um certo entendimento entre os dois maiores partidos, a Fretilin e a UDT. A guerra verbal pela Rádio, e a escrita, através da Voz de Timor, único jornal existente, cessaram. Essa trégua foi sentida nitidamente em Aileu (zona libertada), “por mim administrada”. Para comemorar o evento, organizou-se um grandioso baile no armazém de batatas do município, baile aberto, como era da praxe em Timor, pelo casal mais destacado no meio, no caso presente, eu e a minha mulher (a tal professora conservadora que não adoptou as cartilhas revolucionárias distribuídas pelo grupo dinamizador...) Surgia, assim, a ténue esperança de reconciliação e resolução pacífica do caso de Timor, com um entendimento entre os dois partidos mais representativos, facto esse que teria evitado, sem dúvida, milhares de mortes...A culpa foi dos Partidos...
Esta é a verdade histórica.............................................(*)
(*) - O desentendimento entre os partidos políticos era tal que, ainda hoje, (Novembro de 1998 - Cimeira de Austria) não se entendem, para agravamento do longo calvário do povo martir de Timor, e 24 anos já se passaram...
Assim escreveu o último governador de Timor....................:
“...Considerando as afinidades sempre apregoadas com a Frelimo não é de estranhar que a Fretilin fosse convidada a estar presente nas cerimónias da independência de Moçambique, a 25 de Junho. Mas, alegando que não tinham dinheiro para a viagem, o partido pede ao Governo que lhe seja feito um empréstimo de cem contos, pagável em três meses, para a deslocação de dois dos seus dirigentes. Uma vez mais, no sentido de aplanar o “caminho” de Macau, concedi facilidades, depois de auscultar a UDT, determinando que os TAT emitissem os bilhetes a crédito. E assim segue para Moçambique o presidente do partido e outro dirigente, que ali se juntariam ao vice-presidente, que seguiu directamente de Lisboa, onde se encontrava desde Março. Se se acrescentar que o encarregado das relações externas da Fretilin se encontrava na Austrália desde Abril, pode avaliar-se quão desfalcado de dirigentes estava o partido em Díli, numa altura tão crítica para a definição do futuro de Timor...”
Mais adiante, continuo a citar MLP..............................
:
“...a UDT não levantou quaisquer obstáculos, a não ser o desejo de não seguir via Indonésia; a Apodeti (restantes elementos) preparou-se e seguiu no dia 23; a Fretilin termina por comunicar que não iria, depois de lhe ter sido concedido o máximo de tempo para reflexão, chegando a alegar que não tinha dirigentes qualificados para enviar (o seu presidente ainda não tinha saído de Díli, mas preferiu seguir para Lourenço Marques, e não para Macau)...”
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(*)In Descolonização de Timor- Mário Lemos Pires..........................................
-pp 172,173............................................................................................................
CAPÍTULO VII
AILEU - Pós-cimeira de Macau........................................,
A Fretilin não foi à cimeira de Macau, que seria a única oportunidade dos partidos políticos se entenderem com Portugal quanto à forma de descolonizar Timor. As hostilidades renasceram das cinzas ainda fumegantes. Como autoridade máxima de Aileu, começava a ter sérias dificuldades em conseguir resolver as difíceis questões do dia-a-dia, sem “ferir” as sensibilidades dos partidos. As instruções do Governo recomendavam a máxima isenção e imparcialidade da parte das autoridades. Assim, recebia em minha casa quer os representantes da Apodeti, UDT ou da Fretilin, até pelo facto dos dirigentes serem pessoas minhas conhecidas. No meu caso, falo de imparcialidade por não ser natural de Timor e ter intenções de refazer a vida fora da ilha, mas em relação às autoridades timorenses (a maioria) seria legítimo pedir-lhes imparcialidade? A minha resposta é um não redondo! Nenhum dos meus colegas de Timor era isento. Infelizmente, todos foram perseguidos posteriormente e alguns fuzilados. Era impossível ser-se isento nesse Timor de 1974/75 - diga-se em abono da verdade. Os ânimos exaltavam-se, os distúrbios de rua eram frequentes, não falando nos roubos de gado levados a cabo por bandos... Passei a andar permanentemente armado, quer em casa, Secretaria ou nas minhas deslocações de serviço ou particulares.
CAPÍTULO VIII
Trágica memória ao ver o Monumento aos Massacrados de Aileu - 1944
Da varanda da minha residência, avistava o Monumento aos Massacrados de Aileu, cujos suicídios colectivos deixaram estarrecidos os próprios japoneses, durante a segunda guerra, como já me referi. Não estaria à beira de idêntica situação? A minha mulher, que aparentemente aparentava certa calma [mas com receio de vir a ser violentada e assassinada juntamente com os três filhos], pedira-me para guardar cinco balas de pistola, para ela, para os três filhos e para mim.
Trágico, pensa o leitor!
Era esse o estado das coisas em Timor, em Julho de 1975. Antevia-se uma onda de barbárie, pior da perpetrada aquando da ocupação japonesa, pelas temíveis colunas negras, a que já me referi, e no mesmo local, a vila de Aileu!
Infelizmente, o desenrolar dos acontecimentos após o golpe levado a cabo pela UDT, em Agosto de 1975, e a resposta da Fretilin, vieram a fazer da mártir localidade de Aileu, mais uma vez, na História Trágica da Ilha, o palco das maiores atrocidades cometidas durante a guerra civil de Timor com espancamentos vários e fuzilamentos.
Na cristalina Ribeira, em Aileu, segundo testemunhos, foram fuzilados o intendente Víctor Santa, o tenente-coronel Magiolo Gouveia - comandante da PSP - e muitos outros inocentes, caro leitor...Eu, a mulher e os filhos menores não tivemos a mesma má sorte, por termos embarcado para Portugal, de avião, a seis de Agosto de 1975, quatro dias antes do início generalizado das confrontações em Timor, certamente prémio do Destino - penso...
Mais uma vez cito N. Rocha (Timor/Timur, pg............. 19):
“ Não vale a pena agora punir os responsáveis - deixêmo-los em paz e levemos as suas acções à conta de um desvario ideológico que ia lançando o povo português numa aventura de regresso difícil........................”
CAPÍTULO IX
Transferido de castigo para os Serviços Centrais, em Díli
Dificilmente alguém conseguiria controlar a Fretilin numa zona por ela considerada libertada. Só não aconteciam mais confrontações devido ao bom entendimento que eu mantinha com o A.A, na altura ainda estudante de Economia, de férias em Aileu, onde os pais, pessoas minhas conhecidas, residiam. A dada altura, a desautorizada autoridade militar quis substituir a desautorizada autoridade civil, que, não obstante as vicissitudes póprias de uma época de caos generalizado, ainda gozava de algum prestígio (que chamarei de remanescente), pelo menos junto da população mais velha do concelho. Assim, um belo dia, o comandante do Sector achou-se no direito de ordenar a minha comparência ao quartel para receber instruções! Atravessava-se um período revolucionário e recusei-me, terminantemente, a cumprir ordens emanadas do sector militar, por ser civil, a administrar o concelho de Aileu, na dependência directa do governador ou intendente, sediados em Díli. Entretanto, transmiti ao comandante que podia recebê-lo no meu gabinete, se assim o desejasse. Em consequência desse meu acto de rebeldia, o governador e o intendente [este fuzilado posteriormente em Aileu], transferiram-me, de castigo, para a DSA, em Díli. Aqui, a porca torceu o rabo, como soe dizer-se. A autoridade escolhida para me substituir em Aileu foi L.O., o administrador de Maubisse, zona totalmente ocupada pela UDT, hostil a Aileu e a Fretilin. Entreguei a Administração de Aileu ao colega Lúcio, arrumei as malas e com a mulher e os três filhos menores partimos para Díli, satisfeitos por deixar para trás aquele Inferno, chamado de Zona Libertada... Entretanto, os factos tomaram um rumo dramático e inesperado, pelo menos para o Governo de Timor. A Fretilin, sabendo da estratégia havida, colocando em Aileu alguém hostil ao partido, decretou revolucionariamente:
Ou o administrador transferido regressa ou somos nós (Fretilin) a tomar conta, e já, da Administração e do Município..
Seria um verdadeiro fracasso para o governo se a Fretilin levasse avante o seu plano e cedeu às pressões, devolvendo-- me à Zona Libertada - [Aileu]. Nessa mesma tarde, embora contrariado, fui reassumir as minhas funções de administrador do concelho de Aileu. Corria já Agosto de 1975.
O meu colega (que viria, posteriormente, a ser muito maltratado durante o golpe), regressou ao posto de Maubisse, satisfeito com a decisão da capital, pois não desejava uma zona que lhe era hostil.............................
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O verdadeiro fumo da revolta........................................
Decorria o início de Agosto de 1975, a poucos dias da revolta da UDT. As informações que ia recolhendo indicavam-me estar em preparação uma violenta confrontação entre grupos armados dos dois principais partidos. Por precaução, mandei retirar todos os percutores das espingardas Mauser’s, em depósito na Administração. Esse procedimento foi-me sugerido por um velho cabo-de-sipaios que, durante a ocupação japonesa, o vira praticar, salvando muitas vidas, pois os elementos das colunas negras não puderam fazer fogo com armas sabotadas. Os percutores ficaram guardados num cofre, só por mim aberto. Por ser considerado persona non grata em Timor, pedi autorização para embarcar para a metrópole a fim de me ingressar no QGA, recém-criado, tendo o requerimento sido prontamente, como era de esperar, despachado pelo governador, concedendo-me as passagens para Lisboa, a 6 de Agosto de 1975, em prejuízo de cinco militares, posteriormente detidos pelas tropas indonésias, após a invasão. Bem haja, senhor governador! Salvou-nos a vida! Sem o seu gesto de “bondade” não estaria eu, aqui e agora, a testamentar, quiçá, para que alguém venha a conhecer um pouco da História dessa martirizada ilha de Timor...
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Partida
Numa madrugada, tomada de denso e leitoso nevoeiro,. abandonámos a fatídica Vila de Aileu, num Land Rover do Município, a caminho de Díli, donde partiríamos, para o aeroporto internacional de Baucau, a duzentos quilómetros da capital. Na minha residência, ficara a dormir um grande amigo meu, engenheiro MLR, o último habitante da mansão, que viria a ser bombardeada e destruida durante a guerra civil...Ainda fazia escuro e a viagem iria ser feita por entre densas florestas de palavão e matas de café. Ao meu lado, uma pistola metralhadora FBP e três carregadores devidamente atestados. A viagem vinha decorrendo sem incidentes e os meus filhos dormitavam nos bancos de trás, ao sabor dos solavancos da viatura. O silêncio matinal era cortado pelo piar das aves noctívagas, ainda escondidas nas cinzentas matas tapadas pela densa neblina. Suspeitava que alguns elementos da Fretilin estariam a vigiar a estrada Aileu-Dili, procedimento corrente feito pelos adeptos da UDT na estrada Aileu-Maubisse, só dando passagem aos seus filiados. Quando a viatura atravessava a estreita estrada, ao lado da plantação do C.A., verifiquei, pelo foco dos faróis, que algo de anormal se passava. A estrada estava barricada com troncos de madre-del-cacau, recém-cortados, pois os ramos ainda estavam frescos. Através do nevoeiro, observei algumas fardas de camuflado. Do grupo sairam alguns elementos que inspeccionaram a viatura. Um guerrilheiro da Fretilin reconheceu-nos. Os outros elementos do grupo, munidos de catanas, desobstruiram prontamente a estrada barricada cortando os ramos que impediam o nosso avanço. Os faróis rasgaram a escuridão naquela madrugada que poderia ter sido fatal, ao atravessarmos a plantação de café CA, a caminho de Díli. Soldados, armados de G3, foram surgindo das matas, protegendo os olhos dos faróis do Land Rover. Um deles, certamente o chefe do grupo, olhou a matrícula da viatura e cumprimentou-me com o gesto de punhos cerrados, bem à moda revolucionária de então. Quando a viatura alcançou a região de Dare, local donde se avistava a cidade de Díli, parámos junto ao monumento aos Heróis Australianos, tombados em Timor durante a guerra. A água jorrava em cascatas por entre os rochedos; os fetos arbóreos e os musgos cresciam por toda a parte; as ribeiras corriam para longe. Uma fresca aragem vinda do mar batia-me no rosto, enquanto, comovido, observava os três filhos correndo despreocupadamente atrás de lindas borboletas pretas, de asas pintalgadas de branco rondando as flores ainda cobertas pelo orvalho da noite. Lá em baixo, a cidade de Díli ainda dormia. Rolos de fumo branco subiam das chaminés, misturando-se com a neblina, que, aos farrapos, subia rumo às montanhas, por entre as florestas de palavão preto e branco, em direcção ao Seminário de Dare.
Adeus Dare!
Adeus Aileu!
Bem haja aos soldados da Fretilin que não quiseram molestar-nos, quando a eles estivemos entregues e sem grandes hipóteses de defesa. O nosso comovido obrigado! A mesma sorte não teve o Delegado de Saúde de Maubisse que, nesse mesmo dia e local, foi recebido a tiro...
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Antes do golpe da UDT- 6 de Agosto de 1975...........
A capital de Timor, nos princípios de Agosto de 1975, fervilhava de gente e de boatos. Enfim, uma generalizada confusão, misturada com o medo e a incerteza num futuro que se adivinhava muito sombrio para todos. Quem tinha posses, em vão, procurava um lugar no avião fretado pelo governo para fugir para Lisboa. Por sinal, o coronel Magiolo Gouveia e a esposa estavam para embarcar (ele já tinha terminado a comissão de serviço), mas, à última hora, resolveu mandar a esposa e os filhos (um com o nome do meu filho, o RUI) e esperar pelo próximo avião. Decisão fatal!
Conheci e convivi com o senhor Coronel em Aileu e não posso deixar aqui de deixar relatado o que sentia por ele: Era um homem da direita, patriota, de convicções firmes e um “antes quebrar que torcer”. Li, depois, algo de pouco abonatário sobre o Coronel quanto à sua não isenção e até sanidade mental, mas afirmo que foi dos poucos Portugueses que realmente Timor já teve!.
Acrescento, em nome da verdade histórica:
“ Ditosa Pátria que tais filhos teve............................”
Tombou, de pé, a rezar, crivado por infames balas, de forma e envergonhar-nos todos, portugueses e timorenses..
. Os militares já não obedeciam aos comandos e os sargentos timorenses reuniam-se nos quartéis com fins partidários. Só se falava em aviões, barcos, deixar Timor quanto antes. Sentia-se a tragédia no ar, pairando sobre o Paraíso Perdido no Pacífico que foi a ilha de Timor...
Já quase a deixar de vez Díli, resolvi ir uma tarde à praia da Areia Branca, arredores de Díli. Chegado ao local, encontrei a praia deserta e as cabanas circulares, que serviam de vestiário às pessoas mais destacadas da cidade, vazias. Posteriormente, vim a saber que as gentes da capital já não se aventuravam a saír de casa, mormente irem à praia, tal o estado das coisas em Díli. Ao lado da praia da Areia Branca, viam-se ruídosas máquinas triturando pedra para as obras da estrada Dili-Manatuto, iniciadas, havia pouco, pela Firma M. Maia, de Lisboa. O barulho era ensurdecedor fazendo com que os corvos marinhos rondassem os montes à espera de regressarem ao seu habitat. As acácias floridas de amarelo baloiçavam os ramos cobertos do pó amarelo da pedreira. As máquinas cessaram de trabalhar. Seriam umas quatro da tarde. A quietude da praia foi quebrada pelo ruído de um grupo de motoqueiros, composto de chineses e timorenses. Depois de algumas voltas pela estrada de terra batida, pararam junto ao local onde a minha mulher apanhava sol, na companhia dos três filhos. Prevendo a atitude desses motoqueiros mal intencionados, fui à viatura munir-me de uma pistola Parabellum e coloquei-a discretamente por debaixo de um boné, no tampo de cimento da mesa. Esperei pela reacção do bando. Tinha razão! Queriam algo e quando se aproximaram da minha mulher, saquei da pistola, já com uma bala na câmara, e dirigi-me ao grupo [milicias]. Fugiram nas suas motos, com excepção de dois, que foram por mim detidos e coagidos a entrarem no Land Rover com destino a Díli, onde os larguei depois, por embarcar para Lisboa no dia seguinte e não me interessar complicações burocráticas com a Polícia, que já nem autoridade tinha, tal a desorganização reinante em Timor, no dia cinco de Agosto 1975.
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Para a Liberdade...............................................................
Na madrugada de seis de Agosto de 1975, acompanhado da minha mulher e dos três filhos menores, partimos numa viatura para o aeroporto internacional de Baucau, onde iriamos apanhar um avião da Swissair, fretado pelo Governo, com destino a Lisboa. À medida que galgávamos a nova estrada, recém-aberta nas encostas pelas poderosas máquinas amarelas da MM, debaixo de uma nuvem de pó amarelo, a cidade de Díli foi ficando para trás, quiçá, para sempre, mergulhada numa neblina leitosa que tudo cobria. Os montes viam-se desventrados e um fino pó cobria o pára-brisas da viatura, que era limpo com jactos de água. Parámos em Manatuto, ao lado de uma cantina china, para os garotos beberem uma laranjada Minhota. O céu já ameaçava chuva. Não muito longe, rugia a ribeira de Manatuto, já sem a sua longa ponte, levada pelas águas revoltas, numa trágica madrugada. Sem a passagem para a outra margem não podería-mos alcançar o aeroporto de Baucau. A água barrenta rugia rumo ao mar e filas de carros aguardavam a vez ou que o nível das águas baixasse. Se a minha viatura não atravessasse a ribeira, naquele instante, estávamos perdidos. O Land Rover, hábilmente conduzido pelo motorista do Município de Aileu, aproximou-se da margem da ribeira, passando ao lado de um Jeep militar, a gasolina, completamente atascado. Grupos de timorenses assistiam à festa das margens. Alguns timorenses, ao verem uma viatura do Estado em apuros (era a minha), meteram-se à água e indicaram ao meu condutor os locais mais seguros para o rodado da viatura todo-o-terreno. O Jeep militar, vendo-me na outra margem, ainda tentou obter um reboque, mas o tempo urgia e o avião não esperava por ninguém no aeroporto de Baucau. O que quería era partir para bem longe daquele barril de pólvora, em que transformaram o Paraíso, a ilha de Timor, agora a terra dos mauberes. Caía a tarde, quando chegamos à Pousada de Baucau, a mesma, onde, anos antes, tinha passado a minha lua-de-mel. A mesma piscina de água azulada, as mesmas buganvilias floridas de roxo, as mesmas romãs com os seus frutos encarnados, os mesmos pássaros cantarolando nas gaiolas do quintal ou debicando as papaias maduras com as sementes pretas à mostra. Quão diferentes os tempos, meu Deus!- Baucau de outros tempos!
No dia seguinte fomos para o aeroporto. De olhos no céu, esperávamos pelo almejado avião, que devia surgir no horizonte a qualquer momento (a nossa única tábua de salvação).
Um alto dirigente da UDT, acabado de chegar da Austrália e aguardando avião para Díli, confidenciou-me que a dez de Agosto de 1975 (faltavam quatro dias) “vamos desencadear uma acção, antecipando-nos à que a Fretillin está a planear, para tomarmos, à força, o poder em Díli”. O céu mostrava-se carregado de nuvens brancas anunciadoras de chuva. O avião não aparecia no céu, para nosso desespero. Já conhecedor da data do golpe, não conseguia esconder a minha impaciência em querer abandonar, quanto antes, a ilha de Timor. Finalmente, o aparelho surgiu no céu e fez-se à pista, ficando um dos reactores a funcionar por não haver meios locais para os repôr em funcionamento, caso falhassem - qual coração! Sequencialmente, os reactores eram activados, enquanto os passageiros subiam a escada no meio do ruído ensurdecedor e acomodavam-se no interior do aparelho, orientados pelas hospedeiras de bordo. Chegou a minha vez de embarcar. Foi então que entreguei ao motorista as armas que me foram distribuidas, assinando a guia de devolução. O ruído dos reactores fez-se ouvir na planície de Baucau e neles estava única força capaz de nos retirar daquele Inferno, em que, em breve, iria transformar a ilha de Timor. Uma das hospedeiras trancou a pesada porta. Partimos para a Liberdade. Em baixo desfilavam os campos, as planícies, as várzeas verdejantes, as montanhas, as ribeiras e as costas da ilha, bordejadas de espuma branca, enfim, TIMOR, cujos encantos relatei na primeira parte deste livro, como sendo um Paraíso Perdido, que iria ser transformado num Inferno na “Terra dos Mauberes”, por culpa de Portugal de então, dos militares e dos próprios timorenses.
O tempo e a História provaram que, afinal, os portugueses, tidos por colonalistas e opressores dos povos, vieram a ser substituídos por outros povos, esses sim, colonialistas e opressores, e hoje, volvidas mais de duas décadas, o que vemos: fome, guerra, ódios e um atraso que só daqui a muitas décadas poderá ser ultrapassado. Sim, os partidos políticos sem preparação e os governantes, sem visão do futuro e das realidades sócio-culturais de um povo, empurram Timor para os braços da Indonésia e agora, quais carpideiras profissionais, choram lágrimas de crocodilos.
Choremos, sim, pela paz daqueles que, inocentemente, foram sacrificados no altar da revolução...
O avião já sobrevoava a ilha de Bali. Observei as pesadas nuvens passando por debaixo do avião. Adeus Bali, com as suas verdejantes várzeas de arroz. A escala foi apenas técnica. A Indonésia já não nos via com bons olhos, em princípios de Agosto de 1975, pudera! e tinha carradas de razões...!
EPÍLOGO
Sentir-me-ia traído nos meus propósitos, se, ao finalizar esta narrativa, não tecesse algumas considerações e expressasse, livremente, o que penso sobre Timor, a terra onde nasceram dois dos meus filhos, mesmo que isso vá ferir algumas sensibilidades. Durante quase cinco séculos em que os portugueses estiveram na ilha, pouco ou nada fizeram para melhorar a vida dos timorenses, muito arreigados aos usos e costumes, diga-se em abono da verdade. Muitos viviam em 1975, como os seus bisavós, séculos antes. A penetração da língua portuguesa não ultrapassava os 5% da população. A ilha de Timor ficava muito afastada da Metrópole, cerca de dois meses de barco, e, por isso, esquecida e abandonada à sua sorte, nos confins do Oriente Extremo. Entretanto, com o eclodir da revolta de Uato-Carbau em 1959 e da Guerra nas colónias em 1961, Timor passou a ser alvo de mais atenção de Lisboa. As ruas térreas de Díli foram alcatroadas, construída a ponte-cais, a Alfândega, o aeroporto internacional de Baucau e algumas pistas de terra batida em vários concelhos do interior. Muito pouco e tardiamente, para quinhentos anos de ocupação. Convém deixar bem patente a acção levada a cabo pelas Missões católicas e Colégios, com destaque, para o de Ossú que conheci em pormenor, e destinado às raparigas pobres da zona Leste. Foram os padres, as freiras e os catequistas e os professores que ensinaram as gentes de Timor a rezar, como todos presenciámos, nos trágicos e recentes acontecimentos do Cemitério de Santa Cruz. Eram os próprios timorenses, os mais evoluídos - os das cidades - que tratavam com certo desdém os seus conterrâneos, “os das montanhas”. Esses eram os célebres MAUBERES, gente de segunda. Convém citar sinónimos da palavra, hoje tão vulgarizada, para que o leitor, mais esclarecido, não a utilize, evitando ferir as sensibilidades dos verdadeiros timorenses - os que não são Mauberes - a maioria...Zé Portuga, Pé Rapado, Zé Ninguém, Borra-botas, etc. Certamente, o leitor, se fosse timorense, não gostaria de ser tratado assim. O próprio Bispo de Díli, certa vez, disse:
Não sou nenhum Maubere, sou timorense e foi prémio Nobel...
Infelizmente, o termo vulgarizou-se, pois eram os desgraçados, os mais necessitados - “os mauberes”- aqueles que a Fretilin quis defender com a Revolução, que levou Timor à ruína. Ainda hoje, leio e oiço pessoas, sobre as quais pesam grandes responsabilidades políticas e de Estado, escreverem e falarem de um Povo Maubere, que nunca existiu. Povo timorense, sim! Não fazia sentido que esses mesmos políticos, ao dirigirem-se aos portugueses, os tratassem por Zé Povinho, Alentejanos, ou Borra-Botas... O leitor reagiria, certamente, e mal...Os timorenses, também...
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Quanto à anexação de Timor pela Indonésia, facto ocorrido em Dezembro de 1975 (só após quatro meses de guerra civil), a meu ver, ficou a dever-se mais à ameaça comunista da Fretilin que por razões expansionistas. A independência de Timor acarretaria, inevitavelmente, outras manifestações independentistas, numa Indonésia com milhares de ilhas (um arquipélago) e cujo lema é a Unidade na Diversidade. Há ainda a apontar a imaturidade dos recém-criados partidos políticos de Timor, ao ódio semeado a quatro-ventos entre irmãos-timorenses, quer pelos políticos locais, quer pelos alferes do grupo dos Dinamizadores das Forças Armadas, elementos que exportaram para Timor o ambiente revolucionário do Verão que aqueceu Portugal, em 1975.
Mesmo após a leitura do livro do brigadeiro Lemos Pires sobre a descolonização de Timor, obra que, por vezes, cito, fico com a convicção de que a anexação de Timor foi facilitada pela cobardia da tropa portuguesa, ao fugir para a ilha de Ataúro, [a mando de não sei?], abandonando a população indefesa da ilha à sorte dos partidos políticos, quando os militares juraram, como eu, Defender a Pátria até a última gota de sangue! Timor não era a Pátria, mas, para os timorenses, ela estava simbolizada pela Bandeira Portuguesa, a mesma que os fizera sofrer tanto, durante a ocupação japonesa da segunda guerra, para nada...
Timor cobre-nos (portugueses) de vergonha!
Um amigo meu, que esteve preso na Indonésia e viveu as revoltas da UDT e da Fretilin, segredou-me, após chegar do cativeiro:
No estado calamitoso em que se encontrava Timor em Dezembro de 1975, todos desejavam a chegada dos indonésios. Só que eles vieram de forma tão violenta (quiçá com medo da FRETILIN) e amedrontaram as populações, já de si martirizadas pela UDT e abandonadas por Portugal. A Indonésia podia ter ocupado Timor de uma forma extremamente pacífica, sem dar tiros e com apoio generalizado das populações que se viram abandonadas pelos Partidos e pelo Governo de Díli. A Indonésia só falhou na estratégia usada.................................................”
A História irá, um dia, julgar-nos, com severidade!
Ao fazer a presente narrativa, a minha primeira preocupação foi relatar uma experiência vivida em Timor, quando a ilha era ainda Um Paraíso e, depois, infelizmente, Terra Mártir dos Mauberes, para que, um dia, os meus dois filhos, nascidos naquela encantadora e martirizada terra, onde deixaram os cordões umbilicais, depois de ouvir os factos da boca do pai, possam analizar e compreender o que se passou na sua terra, até à revolta da UDT, de 10 de Agosto de 1975. Para, um dia, quando? não sei, poderem separar o trigo do joio, quiçá, sentirem-se estusiamados a visitarem os locais onde o pai exerceu funções militares e civis e a mãe (professora e educadora) ensinando a muitas centenas de timorenses a língua de Camões, o Hino Nacional de Portugal e a rezarem Ave Maria, a mesma que todos bem ouvimos, comovidamente, em português, aquando do trágico massacre de Santa Cruz. Procurei descrever esse Paraíso que foi Timor, para o qual eu e minha mulher, uma portuguesa de rija têmpera, demos, de alma e coração, os nossos melhores anos da juventude, para que, um dia (já nem sei se estarei vivo para o ver), o martirizado povo de Timor possa vir a ser mais livre, ir sem medo ao bazar, criar os búfalos e cabritos e dançar nas festas de descasque do néli (como antigamente, no meu tempo, no tempo dos portugueses), pois, caso contrário, foi em vão todo o nosso desinteressado trabalho no isolamento de Fohorém, Ermera, Aileu, Hatolia, Remexio e Viqueque, nesse Paraíso Perdido, transformado em Terra dos Mauberes...
***
O futuro a Deus pertence, mas, para finalizar, só me resta deixar o meu vaticínio sobre o futuro daquela ilha: os timorenses terão de viver e conviver com os seus vizinhos, os indonésios, que não são inimigos de Timor (convivi com eles em Fatuc-Lúlic e Fohorém, durante três anos, na fronteira, como os povos das ex-colónias não eram inimigos de Portugal). O problema é dos Governos e não dos povos. Vivi entre os dois Timores (português e indonésio) e as boas gentes eram as mesmas.
Penso que Portugal já se mostrou impotente para resolver a situação que ele mesmo criou, restando duas hipótese aos timorenses: uma independência (muito longe no horizonte, quase impossível mesmo), ou o reconhecimento da sua integração naquele país, ou autonomia, se for caso disso, após um referendo sério e fiscalizado pela ONU e daí colher os benefícios da situação (caso dos Açores, Canárias ou Maiorca...). À luz dos conhecimentos profundos que tenho de Timor, das suas riquezas em petróleo e minerais nobres, madeiras, café, copra, gás natural e outros, a Indonésia não vai abrir as mãos da rica ilha, a menos que uma grande mudança política venha a ter lugar no país, com a morte ou destituição do actual presidente Suarto (inimigo número um dos comunistas, desde o golpe de 1968, que depôs Sukarno) e, mesmo assim, levanto sérias dúvidas se será possível, um dia, a Indonésia vir a conceder independência a Timor ou a outras ilhas que formam aquele País.
Portugal, ainda poderá tentar salvar o pouco que resta da História, Língua e Cultura comuns, mas, se o năo fizer já, restabelecendo relaçőes diplomáticas e culturais com a Indonésia (năo estamos a entregar Macau à China, com todo o simbolismo que tem para nós?), só nos restarăo as culpas, os remorsos, as saudades daquele território que foi um Paraíso Perdido, e, agora, nem a ”Terra dos Mauberes”, como pretendem os políticos............................................
FIM
O autor
Adriano
Gominho
Lisboa,
10
Agosto
de
1992
GLOSSÁRIO:
Termos em dialecto Tétum.................................................
A
Arequeira: espécie de palmeira de tronco cilindrico, atingindo mais de vinte metros de altura;
Areca: fruto da arequeira (cortado em rodelas é usado como droga misturado com bétel e cal virgem).
Árvore-lulic: árvore sagrada;
B
Barlaque: casamento gentílico- reconhecido pela nossa Ordem jurídica......................................................................;
Bétel: folha de uma trepadeira usada como droga;
Beiro: embarcação primitiva feita de troncos e bambus;
C
Camim: espécie de nogueira brava;
Cormetan: festa de desluto;
Cuda: cavalo;
Café de laco: café resultante de grãos defecados pelos lacos -os melhores graus e, potanto, o melhor café...
China: o mesmo que chinês;
D
Dato: chefe
L
Laco: roedor que se alimenta dos melhores bagos de café em cereja;
Lúlic: sagrado;
Lipa: pano de tecelagem caseira;
Lorico: pequeno papagaio verde;
M
Maromac Deus
Malai:estrangeiro
Matandoc:feiticeiro, curandeiro
Mainato: criado;
Madre-del-cacau: árvore de sombreamento dos cafeeiros;
N
Néli: arroz em casca;
P
Palapa: casa nativa, construída com folhas de papapeira - uma variedade de palmeira muito abundante em Timor - e troncos, sem ajuda de um único prego. As estruturas são atadas com cordas............................................................;
Palavão: variedade de eucalipto, branco ou preto..
R
Rota: casca de uma trepadeira silvestre com muitos espinhos, utilizada na confecção de mobiliário de varanda. Espécie de verga da ilha da Madeira;
S
Sassati: espécie de espetada;
T
Toquê: lagarto voador que emite um som -tô-quê
Tébedais: danças e cantares nativos
Tantan: tambor
Tuaca ou tuassaba aguardente de palmeira
NOTAS
BIOGRÁFICAS
ADRIANO DE ALMEIDA GOMINHO, nascido em São Nicolau, Cabo Verde, a 15.9.1940, concluiu o curso complementar, antigo sétimo ano, no Liceu Gil Eanes, em São Vicente. Aspirante administrativo na ilha do Fogo, alferes e tenente miliciano em Timor (1963 a 1968), após um curso em Mafra. Administrador de posto do quadro administrativo, adjunto de administrador, tendo administrado os Concelhos de Aileu e de Viqueque, em Timor. Deslocou-se a Portugal, de férias, tendo assistido ao 25 de Abril de 1974.........................................................................................
Por imposição ministerial, apresentou-se em Timor em Setembro de 1974. Regressou a Portugal, com a família, dois dias antes do início da guerra civil naquele território, para ingressar no recém-criado Quadro Geral de Adidos. Em Portugal, exerceu as funções de chefe de secção e, posteriormente, as de Chefe de Repartição do Pessoal da Direcção Geral da Aviação Civil, após concurso .
Em 1993, deixou o funcionalismo público, por ter requerido a sua aposentação por motivos de saúde. Dedica-se, actualmente, a relatar as experiências da sua vivência em Timor e Cabo Verde, sob a forma de romances e narrativas e frequenta o III ano de Direito na Universidade Lusófona, em Lisboa.aos 65 anos.........
Edição em e-book no site:
www.beirosdetimor.com.sapo.pt...
Lisboa, 28 Dez 2005......................................................................
OBRAS DO AUTOR QUE ESTIVERAM OU
AINDA ESTÃO NA INTERNET ,
A BEM DA CULTURA PARA TODOS
1 - Timor, Do Paraíso Perdido à Terra dos “Mauberes”
2 - Gotas dos beirais (crónicas de Lisboa)
3 - Na Clausura das ilhas - (literatura cabo-verdiana)
4 - Em Busca do Taci-Feto (romance de ficção de Timor)
5 - Terra Longe (literatura cabo-verdiana - roças de S. Tomé)
6 - Vender Pastel Para Comprar Papel (literatura cabo-ver-
diana)
7- Gaivotas que voam ( narrativa sobre os Retornados)
8- Uma Pedrada no Coilão (outra versão de Timor)
9- Homem de rostos queimados (Poemas, Cabo Verde)
10- Mar é Largo, Mundo ê Grande (narrativa poetica)
11- Recordai (Tomo I, poemas Cabo Verde)
12- Dar nome para S. Tomé ( peça de teatro)
13- Poemas que vieram à rede (colectânea)
14- Timor, amor e uma palapa (poesia)
15- Dilúvio segundo Simião (poemas sobre cheias em Moçambique)
16- Entre-mar-e-céu ( 20 sonetos a Cabo Verde)
17- Jonkoping - A cidade das caixinhas de fósforos (poesia Estocolmo)
18- Sete Cedros (poemas sobre o Nordeste Transmontano)
19- Luneta Graduada I (poemas sobre o Mundo)
20- Luneta Graduada II (poemas sobre o mundo)
21- Luneta Graduada III (poemas sobre o Mundo)
22- Sopa com garfo (poemas sobre Lisboa-Rossio)
23- Cais das Colunas (poemas sobre Lisboa)
24- Olhai os Cardos do Campo ( poesia) - 2003
25- O tesouro de Yamashita Narrativa Timor 2005
Forte da Casa, 31 de Dezembro de 2005
ÍNDICE
I Volume [1963 - 1968]
Dedicatória.............................................................................3
Capítulo I - Singapura 1963...................................................5
Capítulo II -Timor à vista......................................................11
Capítulo III - A caminho de Taibesse - um quartel...............15
Capítulo IV - Num exercício militar......................................19
Capítulo V - A caminho de Nuno Tali - Ermera....................20
Capítulo VI - Ermera - uma Vila............................................27
Capítulo VII - Dia de bazar....................................................29
Capítulo VIII - Fatubesse - uma plantação de café................35
Capítulo IX - Um dia de tempestade em Hatolia................38
Capítulo X - Na calma de Nuno Tali - um quartel...............44
Capítulo XI - Pousada de Baucau..........................................47
Capítulo XII - Tragédia na Hatolia.........................................51
Capítulo XIII -Natal na mata de Timor, em 1964..................55
Capítulo XIV - De serviço militar em Aileu...........................58
II Volume [1968 a 1974]
Timor Etnográfico ....................................................................61
Capítulo I - O outro Timor, antes do 25 de Abril de 1974........63
Capítulo II - Recepção em Fohorém.........................................65
Capítulo III - Num recenseamento anual..................................67
Capítulo IV - Tafara - uma ribeira............................................72
III Volume[Setembro de 1974 a Agosto de 1975]
Timor Político............................................................................92
Capítulo I - Apontamentos para a História de Timor.................94
Capítulo II - O fermento da revolta de Timor..........................107
Capítulo III - Trágica memória aos Massacrados. de 1944.......119
Epílogo.......................................................................................127
Glossário: tétum/português........................................................132
Outras Obras do autor................................................................135


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